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Porto Alegre, quinta-feira, 18 de maio de 2017. Atualizado às 23h08.

Jornal do Comércio

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Saúde

Notícia da edição impressa de 19/05/2017. Alterada em 18/05 às 21h37min

Porto Alegre traça plano para enfrentar leishmaniose

Parte dos cães com suspeita da doença está sob tutela da Seda e parte aos cuidados da Vigilância

Parte dos cães com suspeita da doença está sob tutela da Seda e parte aos cuidados da Vigilância


FREDY VIEIRA/JC
Igor Natusch e Isabella Sander
Está programada para a próxima terça-feira uma reunião que deve definir as medidas que serão tomadas pela prefeitura de Porto Alegre para evitar novos casos de leishmaniose visceral humana no município. Convocado pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o encontro terá a presença de conselhos de medicina humana e veterinária, além de especialistas em infectologia e representantes de universidades. Na ocasião, serão traçadas estratégias de médio e longo prazo para combater a doença, disseminada pelo mosquito-palha e que já causou três mortes na Capital.
"No momento, temos uma variável climática em andamento, já que a queda de temperatura vai diminuir a presença do vetor (mosquito)", diz Anderson Araújo Lima, coordenador-geral de Vigilância em Saúde da SMS. De acordo com ele, o monitoramento feito pelo órgão não identificou, durante a última semana, a presença do inseto nas áreas atingidas por casos anteriores da doença. "Mas é importante que sejamos mais proativos, que estejamos desde já trabalhando para evitar novos casos quando a temperatura subir novamente", acentua.
A principal ação contra o mosquito está sendo a remoção de resíduos orgânicos do Jardim Carvalho e do Morro Santana, onde ocorreu o contágio. O inseto se reproduz em meio aos detritos, ao contrário de outros de sua família, que fazem uso da água parada. O órgão já concluiu a identificação dos moradores da região, e garante estar preparado para a aplicação de testes rápidos em toda a população dos locais, caso seja necessário.
Apesar de ser facilmente tratável se identificada em fase inicial, a leishmaniose é uma enfermidade assintomática em seus primeiros estágios, o que dificulta o diagnóstico. A terceira vítima fatal, uma mulher de 81 anos que faleceu nesta semana, chegou a ser entrevistada por agentes da Vigilância em Saúde em janeiro, mas não apresentava nenhum sintoma identificável da doença. Quando já está em estágio avançado, adverte Lima, a leishmaniose acaba sendo fatal em 95% dos casos.
A equipe da SMS também monitora os cães da região, que podem transportar o parasita. De acordo com Lima, casos de leishmaniose em cães são registrados pela pasta pelo menos desde 2010. Coleiras repelentes estão sendo distribuídas para uso dentro da área de risco, mas a medida acaba tendo eficácia diminuída, na medida em que alguns moradores comercializam ou simplesmente descartam o equipamento.
"São comunidades muito vulneráveis, que, às vezes, têm dificuldade de compreender os riscos ao qual se expõem", lamenta Lima. Foram instaladas placas de alerta em vários pontos da mata, onde escoteiros e esportistas costumam realizar trilhas e visitas em grupo. "É muito importante que as pessoas usem repelente e manga comprida nesses locais", adverte.
 

Mamíferos silvestres também são vetores da enfermidade

Além dos 21 cães que estão sob tutela da Secretaria Especial dos Direitos dos Animais (Seda), há outros 12 aos cuidados da Vigilância em Saúde, que, há cerca de duas semanas, chegaram a ser levados para uma clínica para serem sacrificados. Devido a protestos de ativistas da causa animal em frente ao local, na zona Sul de Porto Alegre, no entanto, a prefeitura suspendeu o procedimento e determinou que a Seda entregasse um plano de ação alternativo para o tratamento desses animais. Fabiane pretende fazer exames mais precisos nesses cães e apresentá-los à administração municipal.
Para os animais que, com um teste mais apurado, não tiverem detectada a leishmaniose, não é preciso nem fazer o tratamento, visto que não são infectantes. Será necessário monitorar a saúde deles, a fim de averiguar se tiveram algum contato com a doença. Porém, mesmo para os animais infectados, a secretária adjunta não acha admissível a realização de eutanásia. "Essa norma que o Ministério da Saúde preconiza não acompanhou os avanços da ciência. Há muitos estudos atuais que dão um diagnóstico mais preciso e tratamento para a enfermidade", destaca.
Para Fabiane, um diagnóstico impreciso gera diversos transtornos à sociedade. O primeiro é tirar o animal de sua família para ser eutanasiado sem, muitas vezes, ter de fato leishmaniose. O segundo é um gasto desnecessário do Estado com a eutanásia. Por fim, a ineficácia do abate.
"Se está enfatizando muito o cão como hospedeiro, mas há vários outros animais transmissores, inclusive os humanos. Em bairros de vulnerabilidade social há especialmente roedores", observa. Por isso, se forem sacrificados todos os cães da zona Leste, onde ocorre a endemia, mesmo assim a secretária adjunta não espera que o problema da leishmaniose cesse. Segundo a Fiocruz, os principais vetores são mamíferos silvestres, como preguiça, gambá, roedores e canídeos, e domésticos, como cão e cavalo.
De acordo com a veterinária, o Brasil é o único país que usa a eutanásia como principal método de combate à doença, não adotando a vacinação canina como medida de controle. O foco costuma ser a prevenção, com políticas públicas para animais em situação de rua, como o controle da população animal e a oferta de melhores condições de vida para o cão.

Seda entrega, na próxima semana, proposta para tratamento de cães

Com opiniões divergentes sobre o que fazer com cães com suspeita de leishmaniose, a Secretaria Especial dos Direitos dos Animais (Seda) tem procurado convencer a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de que a eutanásia não é a única solução. Segundo a secretária adjunta da Seda, Fabiane Tomazi Borba, a pasta pretende entregar um plano de ação para atendimento aos cachorros com suspeita da doença até o início da semana que vem. Três pessoas morreram em Porto Alegre por Leishmaniose Visceral Humana, todos moradores da zona Leste.
Sob a ótica de Fabiane, é constrangedor o impasse vivido hoje pela prefeitura. "Esse é um problema de saúde pública, tem que haver um plano de governo, e não de secretaria. Tentamos compor com os técnicos uma alternativa sem foco na eutanásia, mas não conseguimos ser ouvidos", lamenta. O plano de ação está sendo feito em conjunto com universidades, Organizações Não Governamentais (ONGs), protetores independentes e veterinários.
O plano de ação envolverá propostas com base em parcerias com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), que fará exames histológicos de laboratório a preços mais baixos, e a empresa Virbac, que oferecerá o medicamento Milteforan, de tratamento para leishmaniose, gratuitamente durante um mês. "O foco é tornar esse projeto um plano de governo", afirma a secretária adjunta.
Concomitante à elaboração do plano, a Seda está fazendo ações de esterilização e recolhimento do material para exame dos cães das vilas Laranjeiras e Tijucas, as mais afetadas pela doença. "Com os testes atualmente feitos pelo município, não é possível confirmar realmente a doença, e, aí, muitos animais seriam mortos sem ter a enfermidade. Essa é a nossa proposta, estabelecer melhores diagnósticos", explica Fabiane.
Hoje, a Vigilância em Saúde municipal realiza o teste rápido e o Elisa no Laboratório Central de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (Lacen-RS), que são os exames solicitados pelo Ministério da Saúde nessas ocasiões. "Esses dois não servem para diagnóstico exato de leishmaniose, e temos a confirmação disso, porque fizemos os testes em 21 cães que estão sob nossa tutela e que, em tese, estariam aptos para eutanásia, mas fizemos outros exames e somente nove deram positivo. Temos aí uma prova de que mais da metade dos animais seriam mortos sem necessidade", revela. O teste Ri-Fi, por exemplo, não é feito, nem o PCR.
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