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Porto Alegre, quinta-feira, 18 de maio de 2017. Atualizado às 22h28.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 19/05/2017. Alterada em 18/05 às 16h46min

Diversidades na sensibilidade

Uma semana inteira se passou com as múltiplas apresentações do Palco Giratório de 2017, em boa hora promovido pelo Sesc. Na semana passada, chamou-me especial atenção três espetáculos absolutamente diversos entre si - por isso mesmo os destaco - e que evidenciam as diferentes tendências que o Palco Giratório procura oferecer a seu público. Registre-se, desde logo, com absoluto sucesso: todas as sessões a que assisti estavam absolutamente cheias e algumas delas com ingressos esgotados. Isso mostra que a curadoria do Palco Giratório tem acertado em suas escolhas.
Comecemos por Mar, do grupo boliviano Teatro de los Andes. Trata-se de uma criação coletiva do grupo, com direção musical de um dos integrantes do elenco, Lucas Achirico, com cenografia de Gonzalo Callejas, outro membro do elenco - aliás, brilhante, com aquela porta que se monta e desmonta, que se completa com Alice Guimarães, esta brasileira, oriunda dos grupos teatrais de Pelotas, animados por Walter Sobreiro, que, aliás, estava presente ao espetáculo. O figurino é assinado pela atriz, junto com Jacqueline Lafuente Covarrubias, sendo a direção de atores responsabilidade de Maria del Rosario Francés, providência muito boa, já que o elenco idealizou o trabalho e não existe uma direção específica de espetáculo. O resultado é excelente. Três irmãos se dirigem ao mar para ali depositar o corpo da mãe, recém-falecida, que fez tal pedido. É sobre a jornada e as reflexões que ela produz que o espetáculo foca seu interesse. Dramático, mas sobretudo poético, Mar é uma metáfora da história do país - a Bolívia perdeu seu acesso ao mar depois de uma guerra com o Chile - mas também da história individual de cada um dos personagens, porque se refere àquilo que se encontra no interior de cada um.
As interpretações são sentidas, fortes, personalizadas, e o espetáculo de quase hora e meia de duração prende e emociona.
Muito diverso, mas ao mesmo tempo muito próximo, é Se eu fosse Iracema, escrito por Fernando Marques para a interpretação extraordinária de Adassa Martins. O tema é a questão indígena brasileira, assunto tão atual quanto dramático - na verdade, trágico para os índios - tal a sua destruição. Trata-se de um espetáculo solo em que a atriz incorpora o espírito indígena que alterna com uma personalidade do universo branco. Aliás, é o choque entre estas duas culturas o que relata este trabalho, de pouco mais de uma hora de duração. É evidentemente mais que um espetáculo, é um trabalho de militância, tanto da parte do dramaturgo quanto da atriz, cuja subjetividade está inteiramente presente no espetáculo, levando-a diversas vezes às lágrimas. É esta emoção que eleva o trabalho ao nível artístico, na medida em que está muito bem exploradas as potencialidades vocais da intérprete (preparo vocal de Ilessi). O figurino de Luiza Faron se constitui de uma saia comprida, de ilex, apresentando-se a atriz de busto nu, o que certamente traduz sua situação indefesa diante da sociedade do entorno, ali representada pelo público. O texto, por vezes, escorrega para certa discursividade que poderia ser evitada, mas graças à intérprete, mesmo nestes momentos o espetáculo se mantém. Foi um dos grandes momentos da atual mostra.
Por fim, um destaque especial a Na esquina, do Coletivo na Esquina, de Minas Gerais. Um grupo de jovens artistas circenses que, mais do que apresentar um espetáculo de malabarismos - aliás, em si mesmos espetaculares, com alto grau de tensionamento e risco pessoal e sem qualquer rede de segurança - traz um espetáculo bem-humorado e inteligente, com sensibilidade, em que a sucessão de performances acaba por formar uma espécie de enredo dramático no espetáculo de pouco menos de uma hora de duração. O músico Julinho Ibituruna, que atua ao vivo, integra-se perfeitamente ao elenco, e o resultado é um trabalho sensível, que levantou a plateia, na medida em que cada grupo de intérpretes (sete, ao todo) tem suas especialidades. A montagem da pirâmide humana, ao final do espetáculo, é uma síntese daquilo a que o grupo se propôs realizar. Isso ocorre porque, embora jovens, seu currículo evidencia experiência múltipla, com escolas internacionais e brasileiras, somando prática e inovação.
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