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Porto Alegre, quinta-feira, 18 de maio de 2017. Atualizado às 22h28.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 19/05/2017. Alterada em 18/05 às 17h50min

Planeta proibido

Desde que realizou seu primeiro filme, Os duelistas, em 1977, Ridley Scott, atualmente com 79 anos, não abandona o tema do conflito entre o ser humano e forças que simbolizam em cena elementos destinados a mantê-lo prisioneiro ou mesmo a destruí-lo. Naquela primeira obra, premiada no Festival de Cannes, este cineasta inglês formado em artes plásticas e com carreira na publicidade e na televisão, revelou ser Joseph Conrad uma de suas admirações, levando à tela, através de imagens esplendorosas, o duelo entre dois oficiais do exército de Napoleão, um conflito transformado em combate no qual um dos participantes não consegue se livrar da perseguição do outro, obcecado por sua destruição. Mas foi nos dois filmes seguintes, Alien, o oitavo passageiro e Blade Runner, que Scott definitivamente se impôs como cineasta.
Em Alien, a nave que transportava os sete astronautas se chamava Nostromo, título de um romance do autor que havia inspirado o primeiro filme. Agora, ao voltar no tempo e narrar acontecimentos desenrolados antes, Scott inicia Alien: Covenant com uma cena que parece retirada de Blade Runner, pois o que vemos na tela é um encontro entre um cientista e sua principal criação. Não se trata de algo gratuito. Naquele filme, que tanto sucesso alcançou na época e até hoje é uma referência, havia uma citação a Richard Wagner. O robô, no filme agora em cartaz, é solicitado por seu "pai" a tocar algo daquele autor. Escolhe o trecho final de O ouro do Reno, a entrada dos deuses no Vahalla.
O criador do robô David lamenta a ausência da orquestra. Esta irá comparecer na cena final, permitindo uma ligação entre os dois pontos e também relevando o que o novo Alien poderia ter sido se o realizador não tivesse se rendido aos chamados efeitos especiais e abandonado a sugestão para insistir em obviedades que a técnica permite, tanto nas imagens como na faixa sonora.
No primeiro Alien, realizado em 1979, Scott, de forma ousada e brilhante, transformava o interior da nave num espaço no qual a criatura se misturava ao cenário, como se o engenho humano fosse acompanhado pela força que o iria ameaçar. Embora a figura, criada pelo pintor suíço H.R. Giger, fosse visível em várias cenas, o diretor parecia interessado em seguir a orientação de Val Lewton, produtor que, em sua série de terror, realizada com vários diretores na década de 1940, exigia que a imagem de ameaças não fosse mostrada e apostava na imaginação do espectador. Scott, agora, não segue tal caminho. Em certo sentido, seu novo filme lembra o desastre de A grande muralha, um grande fracasso de Zhang Ymou. Mesmo que o novo Alien não seja um corpo estranho na filmografia de Scott, pois é fácil encontrar temas que o diretor abordou e desenvolveu em outros filmes, não há dúvida alguma de que se pode dizer que o cineasta, assim como seus personagens, está sendo ameaçado por um grande perigo: as facilidades que recursos digitais hoje oferecem, algo positivo quando utilizado com criatividade e não de uma forma repetitiva e que se torna até mesmo monótona, tal a insistência com que certos recursos são utilizados.
Trabalhos como este poderiam ser chamados de filmes de uma cena só. Não existe mais o elemento surpresa. Tudo parece repetição e até o epílogo, com o inimigo se transformando num deus wagneriano, é previsível.
Sobrou muito pouco do grande Ridley Scott do passado. Todos os que admiram certamente perceberão o cuidado com a formação das imagens e a volta ao tema do encontro com a fúria que parecia controlada. A descoberta de um outro planeta, que faz a nave desviar de seu rumo por decisão e curiosidade do comandante, leva os personagens a um local que parece o ideal para a sobrevivência da humanidade. Mas se trata de uma ilusão. O local é, na verdade, o cenário habitado não apenas por um robô que esconde com falas elaboradas e citações literárias sua agressividade e seu ódio pelo criador. Na primeira cena, vemos o "pai", e, durante a viagem, a tripulação é protegida pela "mãe". É este percurso e aquela revolta que deveriam ter interessado mais ao cineasta e não esta rendição diante das facilidades que resultam apenas em poluição visual e sonora.
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