As cadeiras de rodas são customizadas na Unisinos, onde a empresa de Lucas e Luís está incubada As cadeiras de rodas são customizadas na Unisinos, onde a empresa de Lucas e Luís está incubada Foto: JONATHAN HECKLER/JC

Universidade inspira alunos a empreender

Conheça três ideias de negócios que surgiram no ambiente acadêmico - o que mostra a eficácia dos trabalhos de faculdade

A Mova, empresa que desenvolve e monta dispositivos de locomoção para pessoas portadoras de necessidades especiais, faz parte da incubadora Unidade de Inovação e Tecnologia (Unitec), da Unisinos, em São Leopoldo. O projeto foi criado no primeiro semestre do ano passado, em uma disciplina do curso de Engenharia Mecânica.
Os então alunos Luís Carlos Römer, 33 anos, e Lucas Lopes de Morim Oliveira, 25, são os idealizadores da iniciativa. O coordenador do curso pediu o desenvolvimento de algum produto que rendesse o depoimento de usuários. Lucas logo lembrou de um amigo cadeirante. "A gente andava muito junto. Ia para jogo de futebol, festas. Sempre percebi a dificuldade que era. Não só de acessibilidade, mas o produto cadeira de rodas é bem ruim", aponta.
Ao compartilhar o fato em aula, um colega também se anunciou como irmão de cadeirante. "A gente abraçou a ideia e ficou convergindo em um sistema em que aumentassem o conforto e o amortecimento, por exemplo", detalha Lucas.
No meio do trabalho, surgiu o Startup Weekend, evento realizado em maio de 2016. O projeto dos estudantes foi um dos vencedores, o que proporcionou um período de incubação gratuita na Unitec. Aí, as coisas começaram a ficar mais sérias.
"Com o passar do tempo, começamos a mudar a visão e ver isso como uma boa possibilidade de negócio", diz Luís. O primeiro protótipo fora testado com 30 usuários, e todos o aprovaram, dando ênfase à questão do conforto. "Isso aqui parece mais um carro que uma cadeira de rodas", foi uma das frases ditas por um deles e que acabou servindo de motivação para a continuidade da empreitada.
Inicialmente, a ideia da Mova era ser mais uma concorrente no mercado de marcas de cadeiras de rodas, mas isso mudou. Os engenheiros perceberam que não é tão simples fabricar algo que se adapte a todos os cadeirantes. Sempre vai haver algum ajuste, alguma alteração no modelo, uma vez que cada cadeirante tem suas individualidades e, conforme a lesão, o produto precisa ser customizado. Agora, é justamente nesse ramo que os sócios pretendem focar investimentos e esforços.
"A base é sempre a mesma, o que muda são alguns detalhes, a partir da necessidade do usuário", explica Luís. A cadeira de rodas da Mova custa R$ 2,8 mil.
O projeto já promoveu até uma aula de zumba para cadeirantes. O evento tinha um foco beneficente e reuniu 10 professores, que ofereceram aulas gratuitas.
A atividade atraiu cerca de 270 pessoas. Destas, 15 eram cadeirantes. Lucas e Luís receberam apoio de 15 empresas da região do Vale do Sinos, que compraram a causa e pagaram os custos do evento. Além disso, todo o dinheiro arrecadado no dia, por meio de ingressos, foi revertido em investimento para a fabricação dos equipamentos, posteriormente doados.
Esse viés de responsabilidade social da empresa é interesse de Lucas e Luís. A dupla quer continuar a ter participação em encontros que os aproximem da comunidade de portadores de deficiência.
Uma área que os dois sócios valorizam é a comunicação, tanto com os usuários quanto com os seus parceiros. "Escutar essas pessoas faz com que nosso serviço, nosso produto fique cada vez com uma qualidade maior", entende Lucas. O fato de contarem com a ajuda de conhecidos da área da saúde foi essencial para as melhorias do projeto.
Por serem estreantes no empreendedorismo, Luís e Lucas estão tirando boas lições sobre gestão, coisas que os livros algumas vezes não mostram. Como eles mesmo dizem, muito do que fazem ainda se baseia no "achômetro". Mas parece que está surtindo efeito: recentemente, foi fechada uma parceria com uma empresa privada.
A intimidade com o ecossistema empreendedor foi precedida pela curiosidade de Luís, que sempre sonhou com um negócio próprio. Ele se formou em agosto do ano passado; mas, enquanto estudante, pensava em formas de aplicar o que aprendia no ambiente acadêmico. "Quando a gente é aluno e trabalha para uma empresa, desenvolve um trabalho específico. Como empreendedor, não, tu preparas desde o café até a reunião com investidores. A gama é muito maior", compara.
Lucas, por outro lado, embarcou na onda do amigo, pois não tinha intenção de ser o chefe de si mesmo tão cedo. Tanto que entrou para o curso de Engenharia Mecânica para atuar na indústria automotiva. Depois da experiência em emprego formal e dos primeiros passos no empreendedorismo, a conclusão vai a favor da Mova.
"Eu entendi que aquilo talvez não era o que eu queria. Não adianta eu trabalhar em uma grande empresa, me matar, e ter uma valorização mínima. E essa causa é muito maior do que uma realização profissional", compartilha.

Do trabalho de conclusão de curso aos clientes de verdade

A Tallentare, das sócias Mônica e Renata, surgiu de uma pesquisa sobre novas mídias na Feevale A Tallentare, das sócias Mônica e Renata, surgiu de uma pesquisa sobre novas mídias na Feevale Foto: TALLENTARE/TALLENTARE/DIVULGAÇÃO/JC
A Tallentare Conteúdo e Criatividade, agência de comunicação, assessoria de imprensa e marketing digital de Novo Hamburgo, surgiu dentro da Feevale. A empresa foi fundada há quatro anos, por duas jornalistas, resultado de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).
Mônica Bortolotti, 27 anos, e Renata Arteiro, 26, se formaram em Jornalismo no fim de 2013. Durante o último ano de graduação, as duas estudaram as tendências de mercado em uma disciplina. Ali, perceberam quanto espaço a assessoria e o marketing digital estavam ganhando.
Renata, na época, já trabalhava com marketing digital em outra empresa. Juntas, pensaram na possibilidade de abrir um negócio próprio. "Eu tenho um pai empresário, então esse meu lado empreendedor sempre foi incitado dentro de casa. Isso, somado ao cenário atual do mercado de Jornalismo, fez eu pensar mais nesta ideia", relata Mônica.
O TCC dela acabou influenciando o negócio também. Ao analisar qual era o impacto que os blogueiros, youtubers, entre outros influenciadores digitais, tinham na relação entre marcas e consumidores, quis colocar os aprendizados em prática.
O início, no entanto, não foi fácil. O desafio comum a todos os empreendedores surgiu: onde buscar investimento. Universitárias, elas não tinham condições de bancar tudo sozinhas. E os pais não podiam ajudar financeiramente.
Foi aí que decidiram entrar em contato com a incubadora da universidade. "Na época, a Feevale estava voltada para trabalhos em torno de Economia Criativa, e o nosso projeto entrou bem ao encontro daquilo que se estava propondo", lembra Mônica.
Ela e Renata, então, construíram um plano de negócios e foram aceitas. Em agosto de 2013, a Tallentare passou a fazer parte do parque tecnológico, no polo de Campo Bom. E permaneceu ali por cerca de três anos.
Recentemente, em 2016, elas se mudaram para um escritório no Centro da cidade de Novo Hamburgo. Junto com isso, o grupo cresceu. A equipe, agora, é constituída pelas duas sócias e mais quatro colaboradoras, todas elas mulheres. A agência se especializou em uma assessoria que tem como enfoque o relacionamento com as novas mídias.
"A gente costuma dizer que a nossa empresa tem três pilares: ações de relacionamento, marketing e assessoria de imprensa", comenta Mônica. Atualmente, a Tallentare tem 13 clientes, entre eles a feira Loucura por Sapatos, promovida na Fenac; a Construsul; o Moinhos Wafers Stroowafel; e a marca de calçados Barth. Alguns clientes são de porte médio, outras de porte maior, dos ramos calçadista, gastronômico, moda e outros.
Fora da segurança da faculdade, a dupla entende a responsabilidade que carrega. Representar marcas conhecidas, porém, não as assusta. "Estar na frente de uma empresa quando se é jovem faz a gente ter que crescer e amadurecer mais rápido. Tu tens que ser bom em gerir o negócio na comunicação com o cliente. Estudamos muito para amadurecer bastante esse lado empreendedor", expõe Mônica.
 

Pois É, Vizinha: da apresentação na banca aos 200 mil espectadores

Pois É, Vizinha em fotografia de 1993, ano de estreia para um trabalho da Ufrgs Pois É, Vizinha em fotografia de 1993, ano de estreia para um trabalho da Ufrgs Foto: MÁRIAN WOLFF STAROSTA/Márian Wolff Starosta/Divulgação/JC
Montar um espetáculo teatral não é tarefa simples. Conceito, cenário, local de apresentação e conquista do público são itens a serem planejados. Como num negócio, trata-se de um produto. Imagine fazer isso há 25 anos consecutivos com a mesma peça. É o caso de Pois É, Vizinha, criada pela atriz gaúcha Deborah Finocchiaro, 50 anos, para o trabalho de formação da Escola de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 1993.
"No dia da minha formatura, uma amiga me falou que eu tinha que fazer a peça profissionalmente. Em nenhum momento havia me passado isso pela cabeça", lembra Deborah.
E a sugestão foi das boas. Desde então, o espetáculo já foi apresentado 640 vezes, para um público estimado em 200 mil pessoas, e inaugurou vários teatros, como Sesc de Passo Fundo e Sesc de Gravataí. Percorreu, inclusive, cidades da Argentina e do Uruguai.
Nessas mais de duas décadas, a artista, que aborda temas como violência contra a mulher no palco, aprendeu sobre empreendedorismo na marra, como diz. "Foi uma escolha de profissão, de viver disso. Tive a sorte de começar a fazer teatro enquanto morava com a minha mãe, o que deu a possibilidade de me sustentar", detalha.
Deborah conta que teve de desenvolver noções de como administrar os processos, como levar a sua Companhia de Solos & Bem Acompanhados de forma sustentável para poder viver de produções culturais. "Isso é resultado de muita dedicação e das equipes com quem trabalho", expõe. Quando olha para trás, ela orgulha-se de sua trajetória e vê a Pois É, Vizinha como um legado da universidade, ao lado de outros projetos que são desenvolvidos por sua companhia. A atriz lembra um poema de Mario Quintana para falar sobre qual é a verdadeira essência do que faz.
"As minhas palavras são quotidianas como o pão nosso de cada dia. E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão", parafraseia.
 
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