Fernanda Daudt criou a Mole Bags, que conquista clientes no exterior Fernanda Daudt, da Mole Bags, de Caxias do Sul, fala sobre seu projeto em visita ao Jornal do Comércio. Foto: Fredy Vieira/JC

Marcas optam pela moda sustentável

Empresas se destacam por incluírem em seus processos o cuidado com o ambiente. O conceito conquista o mundo da moda e é foco do movimento Fashion Revolution

Há pouco mais de um ano e meio no mercado, a Mole Bags, de Caxias do Sul, conquista espaço internacional com suas bolsas feitas de sobras de couro. Há pontos de venda em Nova Iorque, em lojas famosas no Brooklyn, no México e representantes na China.
A produção tem mostrado crescimento, saltando de 150 unidades por mês, no início do ano, para as atuais 250. O grande diferencial da Mole é a junção entre o conceito de sustentabilidade e design.
"Se não é bonito, não é sustentável, pois as pessoas não vão usar", sentencia Fernanda Daudt, 42 anos, dona da marca ao lado da sócia Márcia Garbin, 45.
As bolsas da Mole são divididas em sete modelos, cada um com estilo único, uma vez que o couro é comprado em lotes da indústria calçadista. Isto, na verdade, é um ponto positivo, pois dá exclusividade às peças - vendidas a preços que variam entre R$ 230,00 e mais de R$ 1 mil (no caso do couro de pirarucu).
A internacionalização do negócio surgiu, ao mesmo tempo, de forma estratégica e natural, graças a vários projetos anteriores tocados por Fernanda e Márcia. Fernanda trabalhou, durante muito tempo, com pesquisa, o que a fez ter um olhar sobre o espírito deste tempo, em que produtos sustentáveis chegaram para ficar. Não são mais uma tendência.
A fim de incrementar essa expansão fora do Brasil, a Mole marca presença em feiras e eventos. Recentemente, integrou o estande da Agência Brasileira de Promoção e Exportação e Investimentos (Apex) na SXSW, conferência de economia criativa realizada em Austin, no Texas. Os japoneses demonstraram muito interesse pelas criações da Mole, que agradam tanto homens quanto mulheres.
"Nosso melhor mercado é Nova Iorque. O mark-up (quanto do preço do produto está acima do seu custo de produção e distribuição) é maior lá", detalha Fernanda, que atua há 20 anos no ramo de design e moda.
O processo de fabricação inclui a arrecadação de sobras da matéria-prima em curtumes do Vale do Sinos (o que resolve o problema de descarte da indústria) e o envolvimento de costureiras de Caxias - que fazem tudo à mão. Além da presença no exterior, há lojas parceiras em Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo. O e-commerce deve entrar no radar de investimentos em 2017, o que vai facilitar ainda mais o processo de venda.
Fernanda acredita que a preocupação com o ambiente "é uma necessidade do planeta e um desejo do consumidor". Na agenda de próximas atividades estão previstos destinos como Califórnia e São Paulo (na feira Puro Design Handmade) ambas em maio.

EVENTO

Por falar em moda sustentável, está rolando em Porto Alegre o evento Fashion Revolution. Quarenta atividades gratuitas com o tema ocorrem até sábado. Veja os detalhes da programação em bit.ly/2onC4b0.

Nem as embalagens vão fora

Camilla expõe as peças da Shieldmaiden no Coletivo 828, na Capital Camilla expõe as peças da Shieldmaiden no Coletivo 828, na Capital Foto: CLAITON DORNELLES /CLAITON DORNELLES /JC
Quando criou a Shieldmaiden, em junho de 2015, Camilla Matos, 31 anos, acumulava experiência de 10 anos de trabalho em empresas de fast fashion (termo para produtos fabricados, consumidos e descartados rapidamente). Formada em Moda pela Feevale, ela buscou fazer diferente daquilo que conhecia no mercado. Surgiram, assim, junto das suas roupas femininas com viés sustentável, embalagens produzidas a partir do tecido de guarda-chuvas descartados.
A ideia é, justamente, que nem mesmo as sacolas tomem o rumo da lixeira. No início, ela mesma confeccionava os itens. Agora, a produção fica a cargo de uma cooperativa de costureiras na Ilha Grande dos Marinheiros, em Porto Alegre.
"É um trabalho feito por senhoras que estão aprendendo a costurar", explica, brincando sobre a falta de padrão das embalagens, fruto da variedade dos materiais e das mãos criativas que as produzem.
A Shieldmaiden também leva em conta os processos produtivos de suas roupas. As criações, para o público feminino, são resultado do contato que Camilla teve com o Movimento Fashion Revolution. Após sair da empresa de fast fashion, ela viajou para a Irlanda, em 2014. Lá, teve contato com esse movimento mundial, à época, ainda pouco difundido no Brasil. Foi através dele que Camilla reencontrou o propósito dentro da profissão, uma vez que chegou a cogitar parar de trabalhar com moda.
O longo período de atuação "do outro lado" a levou a conhecer as entranhas daquela forma de fazer dinheiro. "(Antes) era só aquela coisa de produzir, era só dinheiro. Não estava fazendo uma coisa que me agradasse", lembra.
Somando o conhecimento adquirido nos anos de profissão e o contato com o Fashion Revolution, ela decidiu criar a própria marca. "Comecei a pesquisar e falar com outras pessoas e encontrei interessadas em ter um produto com mais sentido", aponta. A produção inicial foi de 60 peças. Eram três modelos de diferentes cores. Isso, segundo Camilla, não exigiu grande investimento.
A produção é feita no bairro Sarandi, conforme demanda. A Cooperativa de Costureiras Unidas Venceremos (Univens) fornece mão de obra e parte da matéria-prima para Camilla. A outra parte vem da Justa Trama, que é uma ONG em que há uma cadeia produtiva do plantio do algodão agroecológico e vai até a comercialização de peças de confecção produzidas com este insumo. É uma matéria-prima 100% brasileira e certificada.
A palavra que dá nome a marca significa "escudeira". Na mitologia nórdica, as shieldmaidens eram mulheres vikings que escolhiam lutar nas guerras. As criações de Camilla, contudo, enfrentam um embate diferente. A luta, aqui, é por uma nova forma de consumir: com responsabilidade sobre os processos que envolvem a produção. "A principal questão que me fez ter a marca foi a questão social, do trabalho."
A empreendedora lamenta a existência de marcas que produzem em países menos desenvolvidos e utilizam mão de obra análoga a escravidão.
"Isso sempre foi uma coisa que questionei muito. A gente usava uma mão de obra muito barata e quem estava tendo lucro eram as grandes empresas", expõe. A solução foi se aproximar de quem produz, pagar um preço mais justo pelo serviço e ter certeza de que nenhuma irregularidade está por trás das etapas.
 

Marca de roupas de Lajeado prega o consumo e a produção consciente

Rodrigo sugere repensar toda cadeia Rodrigo sugere repensar toda cadeia Foto: CLAITON DORNELLES /CLAITON DORNELLES /JC
A Sueka, que está no mercado há um ano e quatro meses, foi criada por Rodrigo Kronbauer, 26 anos, nascido em Cruzeiro do Sul, e Tainá Gross, 25, natural de Lajeado e formada em Design de Moda pela Univates. Os dois uniram a vontade de empreender para produzir roupas com estampas exclusivas, genderless (sem gênero determinado) e com algodão orgânico. As camisas custam entre R$ 180,00 e R$ 190,00 e as camisetas saem por R$ 80,00. "A nossa bandeira é que tu deves comprar roupas de forma mais consciente, que durem mais", sublinha Rodrigo.
Por fazerem parte de um mercado que promove o consumo, o jovem explica que a sustentabilidade se dá nos processos. É preciso ter conhecimento sobre toda a cadeia que envolve a produção do que vestimos. "Na moda, morrem muito mais pessoas e se polui muito mais do que outros mercados sem que a gente se dê conta. Se tu comprares uma camisetinha de R$ 40,00, tem alguma coisa errada. Tem alguém sofrendo. Pode ser uma pessoa, podem ser várias. Ou é a natureza. Às vezes, os dois", lamenta.
Por isso, o tema sustentável dentro dos pilares da Sueka é prioridade. E a intenção é não ser superficial. "Sempre tenho esse medo de 'ser sustentável' porque cada vez mais ele cai em algo comum", reflete Rodrigo. Para ele, diversas empresas se aproveitam desse momento para se dizerem sustentáveis, embora apenas parte de seus processos sejam. Ele afirma que é algo muito mais amplo. "Tem que fechar toda a cadeia e gerar o menor impacto destrutivo possível."
Esse pensamento vem da experiência adquirida no período como empresário unida ao objetivo de se tornar cada vez mais sustentável. No mês que vem, dentro dessa ideia, será incluído no processo de produção o tingimento natural do algodão orgânico. "A gente transforma a cor que quisermos através de insumos totalmente naturais", assegura. Os testes e as experiências refletem sobre a produção. Além de buscarem não produzir excessos, os empreendedores também analisam qual o melhor canal de vendas.
E-commerce, feiras, lojas parceiras. Todos esses pontos foram testados, mas segundo Rodrigo, nenhum se destacou. "A gente ainda faz produção por lote. Todos são limitados, no máximo 40 por estampa", frisa. Eles vendem de acordo com a procura, mas a ideia é, sim, produzir apenas o que for vendido. "Até para não gerar um possível descarte. Nossa ideia é conseguir viabilizar isso", salienta.
Pensar na questão sustentável de forma que ela faça sentido, explica Rodrigo, obriga o indivíduo a repensar uma série de tópicos. "É tu pensares muito na origem dos produtos, como são os processos que tu fazes e que utilizas, onde é produzido, se as pessoas que produzem são felizes, teu canal de vendas, entre outros", ilustra. Os empreendedores investiram cerca de R$ 20 mil para colocar em prática a ideia. Contudo, revela Rodrigo, não aproveitaram a receita da melhor forma possível. "Gastamos R$ 7 mil em um vídeo. Dá para abrir uma marca com muito menos", aponta, ressaltando a falta de experiência de ambos e o valor de acontecimentos como esse para o aprendizado. A Sueka é a única empresa gaúcha selecionada pela Malha, uma incubadora de moda sustentável do Rio de Janeiro.
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