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Porto Alegre, quarta-feira, 19 de abril de 2017. Atualizado às 21h52.

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Hélio Nascimento

Cinema

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Notícia da edição impressa de 20/04/2017. Alterada em 19/04 às 17h42min

A ópera de Casanova

As relações da ópera com o cinema são tão intensas como antigas. Ainda na época do silencioso, cantores se colocavam por trás da tela e davam voz a personagens de dramas musicais que, famosos nos séculos anteriores, permaneciam ocupando lugares destacados na estima do público. Quando o som chegou, Georg Wilhelm Pabst foi o pioneiro transformando em filme A ópera dos três vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, no ano de 1931. Oito anos mais tarde, Abel Gance transformou em filme a ópera Louise, de Gustav Charpentier.
Durante o pacto germano-soviético, Serguei Eisenstein dirigiu, no palco do Bolshoi, uma versão de A Valquíria, de Richard Wagner, que não foi registrada em película, restando apenas desenhos criados pelo próprio realizador de O Encouraçado Potemkin, o mesmo que, em 1938, quando a Alemanha era uma potencial inimiga, mostrou, em Alexander Newski, todas as riquezas proporcionadas pelas ligações entre imagem e música. Passada a guerra, cineastas italianos de menor expressão levaram ao cinema diversas óperas, e até Sophia Loren, dublada por Renata Tebaldi, protagonizou uma versão de Aída. Na década de 70 do século passado, o cinema operístico alcançou seu ponto mais alto quando Ingmar Bergman, em 1975, e Joseph Losey, em 1979, realizaram, respectivamente, suas versões de A flauta mágica e Don Giovanni, com Freud, na primeira, e Marx, na segunda, servindo de guias pelo universo mozartiano.
O fato de o cinema, no Brasil, estar passando por uma fase em que as simplificações predominam explica por que o trabalho de cineastas importantes permanece desconhecido em certos casos. Por exemplo: Kenneth Branagh realizou uma elogiada versão de A flauta mágica, que permanece inédita em nossos cinemas. E há também o caso de Michael Hanneke, o grande cineasta de A fita branca e Amor, que realizou, logo depois, uma versão de Così fan tutte, de Mozart, filme que provavelmente nunca será exibido aqui, embora o cineasta seja um dos mais importante da atualidade.
E merece menção também o fato de que foi exibida de forma praticamente clandestina, num desses ciclos dedicados a encenações operísticas, a versão dirigida por Woody Allen de Gianni Schicchi, de Puccini. Essas ausências e essa negligência evidenciam, de forma eloquente, o descaso com que são vistos os relacionamentos do cinema com outras formas culturais. Por isso tudo é um verdadeiro milagre que aqui tenha chegado este Variações de Casanova, uma produção de portugueses e austríacos dirigida por Michael Sturminger. A proposta é das mais interessantes. O ponto de partida é um espetáculo teatral, encenada no São Carlos de Lisboa, tendo por base a vida de Giacomo Casanova, escritor e memorialista, e também um ficcionista, pois muitas de suas aventuras provavelmente foram por ele inventadas. Otto Maria Carpeaux o considerava um escritor brilhante, opinião que muitos compartilham, algo que, por sinal, pode ser comprovado pelos trechos citados no filme. Ettore Scola, em Casanova e a revolução, filme de 1982, abordou esse aspecto fazendo o personagem dizer que havia escrito o texto da ária do catálogo da ópera Don Giovanni, cujo libreto é de Lorenzo da Ponte, outro veneziano, colaborador de Mozart em mais duas óperas: As bodas de fígaro e a já citada Così fan tutte.
Essa aproximação entre Da Ponte, Casanova e Mozart permite que o espetáculo encenado seja também uma espécie de antologia de trechos mozartianos, cujo sentido, por vezes encoberto por convenções, o cineasta procura tornar explícito, abordando temas como o abandono, a solidão e o conflito entre instinto e civilização. Sturminger também se permite variações em torno do teatro e da realidade, quando engana não apenas uma médica que se encontra na plateia como também o próprio espectador do filme. Esta mescla de fantasia e realidade também se utiliza do cinema, pois, em algumas passagens, aparecem os cinegrafistas filmando os cantores, entre eles o tenor Jonas Kaufmann, um dos grandes do momento, que aparece num dos mais belos trechos da arte de Mozart, o Soave sia il vento, citado em vários filmes, entre eles La luna, de Bernardo Bertolucci, e Perto demais, de Mike Nichols. Todas as artes estão reunidas no filme de Sturminger, assim como primeiro na ópera e depois no cinema.
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