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Porto Alegre, sexta-feira, 07 de abril de 2017. Atualizado às 00h01.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

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Notícia da edição impressa de 07/04/2017. Alterada em 06/04 às 17h40min

Duas cantoras

Margarethe von Trotta tinha experiência teatral quando, no início dos anos 60 do século passado, começou a aparecer como atriz em filmes do então marido Volker Schloendorf e de outros realizadores que então começavam a colocar, outra vez, o cinema alemão entre os mais importantes. Ela própria iniciaria sua carreira de cineasta assinando a direção de A honra perdida de Katharina Blum, em 1975.
Na época, o cinema da Alemanha passava por uma fase na qual uma geração nascida nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial começava a apagar as imagens da época nazista e criava um cinema que procurava inspiração na fase em que brilharam nomes como Fritz Lang e F.W. Murnau. Não foi só um período de recriação do expressionismo cinematográfico, porque este ressurgiu reformulado, numa espécie de prolongamento dos ensinamentos dos dois mestres citados, que ensinavam que o contraste entre sombras e luzes não era um obstáculo para os realizadores interessados em não se afastar de personagens que se movimentassem em cenários reais.
Antes deles, na América, os realizadores que brilhavam no policial chamado noir, já haviam demonstrado que uma aproximação com o cinema expressionista alemão era um caminho que abriria ilimitadas possibilidades de criação. Schloeendorf não foi um dos maiores entre os realizadores alemães na fase de ressurreição. Ele foi importante, mas os que alcançaram repercussão maior foram Werner Herzog, Rainer-Werner Fassbinder e Wim Wenders. Quanto à diretora de O mundo fora do lugar, esta continuou regularmente sua carreira até que realizou, em 1985, Rosa Luxemburgo, que teve ampla repercussão.
O filme sobre a líder socialista alemã assassinada em 1919 colocou o nome da realizadora em destaque. Utilizando novamente a atriz Barbara Sukowa, agora também presente em O mundo fora do lugar, a cineasta voltaria ao centro do palco em 2012 ao realizar Hannah Arendt, outra célebre figura, a autora de Eichmann em Jerusalém. De certa forma, não se esperava de von Trotta um filme como que agora estamos vendo. Não se trata de uma decepção, mas depois de sua incursão pelo mundo social, abordando, no primeiro filme citado, a revolução spartacista e a violenta repressão que a sufocou, e, no segundo, o julgamento de um criminoso de guerra visto como um simples burocrata cumpridor de ordens, algo que de certa forma definiu o nazismo como uma planta nascida no cotidiano, a cineasta agora tece variações sobre situações clássicas do melodrama.
O tema do retorno de uma pessoa morta é recriado não através de fantasias e pesadelos. Os fantasmas estão ausentes, mas o mistério se faz presente desde que o pai da protagonista descobre na Internet uma cantora que atua nos palcos de Nova Iorque. A semelhança com a esposa morta é impressionante. É como se o passado voltasse. O tema, semelhante ao de Vertigo, uma das obras-primas de Hitchcock, é desenvolvido, mas são poucas as surpresas e escassas as revelações.
A protagonista, a filha de um homem que encontra no computador a imagem da soprano, é também cantora. Mas se trata de uma intérprete de canções que atua em boates nas quais os frequentadores não estão interessados em música. O contrário acontece com a intérprete parecida com a mãe, que é uma estrela da ópera, no momento atuando numa versão da Norma, de Bellini. Quando o filme se encaminha para algo interessante, a realizadora cria um romance da personagem central com um agente americano que chega bem perto do ridículo.
E em vez de procurar pontos de contato entre a narrativa do filme e a obra que está sendo interpretada no Metropolitan, a realizadora dá ênfase a outro aspecto da trama, na qual surge um novo personagem para que um conflito familiar até então oculto seja revelado. Em vez de prestar atenção na Norma, como aconselha uma das personagens, Trotta se aproxima ainda mais de situações superficiais e desnecessárias, como aquele encontro com o coreógrafo, que se limita a criticar os que não conhecem Maia Plissetskaia e revelar que nada tem a ver com o caso investigado. O passado de cineastas certamente é o maior responsável pela exigência com que filmes do presente são vistos e criticados.
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