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Porto Alegre, terça-feira, 11 de abril de 2017. Atualizado às 23h40.

Jornal do Comércio

Panorama

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CINEMA

Notícia da edição impressa de 12/04/2017. Alterada em 11/04 às 16h59min

Filme sobre Tiradentes tem pré-estreia hoje em Porto Alegre

Julio Machado interpreta Tiradentes no filme Joaquim, em pré-estreia

Julio Machado interpreta Tiradentes no filme Joaquim, em pré-estreia


REC PRODUTORES AND UKBAR FILMES/DIVULGAÇÃO/JC
Ricardo Gruner
Entre as questões em que o audiovisual brasileiro ainda pode avançar mais, está a representação histórica do País e de seus personagens. Joaquim é mais um passo adiante neste sentido. A exemplo de produções como Os inconfidentes (1972) e Tiradentes (1999), o longa-metragem destaca a figura do soldado Joaquim José da Silva Xavier - conhecido no âmbito popular como Tiradentes.
Para comentar o drama, o diretor Marcelo Gomes (Cinema, aspirinas e urubus) e os atores Julio Machado e Isabél Zuaa participam de uma sessão de pré-estreia em Porto Alegre hoje à noite. A exibição tem entrada franca e acontece no CineBancários (General Câmara, 424) a partir das 19h30min. A estreia comercial está marcada para a próxima quinta-feira, 20 de abril - um dia antes do feriado em homenagem ao biografado.
Com o respaldo de ter participado do Festival de Berlim deste ano, Joaquim chega às salas brasileiras para explorar a figura deste homem antes da Inconfidência. Como o título já indica, o personagem que entra em cena é o ser humano, ao invés do mito.
Ao mesclar ficção e informações históricas, a narrativa pode ser vista como um exercício de desconstrução. A versão do ícone interpretada por Julio Machado passa longe do heroísmo. É a ambição, e não o idealismo, que move o protagonista - contraditório especialmente quando o assunto envolve dinheiro.
Na narrativa, o personagem faz viagens por Minas Gerais a serviço da coroa portuguesa. Em pleno século XVIII, o Brasil retratado pelos produtores já é palco para episódios de contradição e de mascaramento de fraturas sociais. Os anticolonialistas, por exemplo, se voltam contra o domínio português, mas ao mesmo tempo enxergam a escravidão com naturalidade.
Marcelo Gomes demonstra essa hipocrisia com habilidade. Seja na composição de planos ou em cenas que retratam conflitos diretos, o cineasta aponta que a bandeira pela mudança só é levantada quando resulta em melhorias para a um grupo específico. Quando as injustiças são cometidas por essas mesmas pessoas, são ignoradas.
O homem que ficou conhecido como Tiradentes era pobre se comparado a inconfidentes burgueses, embora possuísse também alguns privilégios. Descendente de lusitanos, só ficava abaixo dos próprios na hierarquia social da época. O recorte proposto pelo diretor acompanha personagens em situação bem pior, como um indígena e um africano que são obrigados a acompanhar Joaquim em uma busca por ouro. No momento mais bonito do filme, os dois improvisam uma música juntos - cada qual em sua língua -, mostrando que pode haver união nas diferenças.
Ao destacar momentos como este, Joaquim também não deixa de ser um retrato de parte da formação cultural do País. E, sem panfletagem, o filme denota como belas tradições e manifestações artísticas foram marginalizadas e ignoradas pela sociedade ao longo dos séculos.
Se as realizações audiovisuais que fazem carreira em festivais ao redor do mundo frequentemente são reconhecíveis pelo tom contemplativo, com cenas longas propícias à reflexão, o longa-metragem em pré-estreia até surpreende pela acessibilidade. Fora uma ou duas sequências que fazem jus ao estigma, o trabalho é composto por uma quantidade de ações que foge à regra. Em cerca de 1h e 40 minutos de duração, muita coisa acontece - e o espectador as descobre sempre pela ótica do protagonista.
Com Julio Machado apresentando a transformação do personagem através do olhar atento e indignado, o longa-metragem só tem sua sobriedade narrativa comprometida quando os comentários sociais extrapolam a realidade apresentada. Mesmo que justificável, uma cena em que Tiradentes idealiza a vida nos Estados Unidos, por exemplo, soa mais como piada para o público do que como diálogo. Dentro de uma obra que explora com inteligência a relação ambígua do homem com seu entorno, é um momento a se estranhar.
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