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Porto Alegre, quinta-feira, 16 de março de 2017. Atualizado às 22h30.

Jornal do Comércio

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Jaime Cimenti

Livros

Notícia da edição impressa de 17/03/2017. Alterada em 16/03 às 17h10min

Conversas infinitas sobre os clássicos

A arte da leitura - Diálogos sobre livros (É Realizações Editora, 128 páginas, R$ 49,90, tradução de Margarita Maria Garcia Lamelo) integra a Coleção Clássica da editora. Acima e antes de tudo, traz uma longa e infinita conversa sobre os clássicos da literatura mundial, protagonizada por dois grandes professores, escritores e intelectuais norte-americanos: Mortimer J. Adler e Charles Van Doren.
Adler (1902-2001), filósofo, professor e teórico da Educação, escreveu mais de 50 livros, foi professor de Psicologia na Universidade de Chicago e fundou o Institute for Philosofical Research, o Aspen Institute e o Center for The Study of the Great Ideas, na Universidade da Carolina do Norte.
Van Doren nasceu em 1926, leciona na Universidade de Columbia e é filho e sobrinho de vencedores do Prêmio Pulitzer. Graduou-se pela High School of Music & Arte pelo St.John's College, e tem mestrado em astrofísica e doutorado em língua inglesa pela Universidade de Columbia.
O livro resultou de 13 encontros, produzidos e publicados pela Enciclopédia Britânica. Grandes amigos, Adler e Van Doren conversaram sobre ler ou não ler; como ficar acordado enquanto se lê; chegar a um acordo com o autor; qual a proposta e por quê?; como ler livros: perguntas a serem feitas sobre um livro; como ler livros: reagir ao autor; como ler livros: classificar livros; como ler obras de ficção; de que forma se faz uma história boa; como ler poesia; ativar poemas e peças; como ler dois livros simultaneamente e a pirâmide dos livros.
Os autores falam de obras imortais como As viagens de Gulliver; As vinhas da ira; O mal-estar na civilização; A divina comédia; Middlemarch; Tom Jones; e Moby Dick; entre dezenas de outras, nas conversas divertidas e infinitas. Os vídeos sobre os encontros estão à disposição numa plataforma exclusiva para conteúdos digitais para os leitores. Na orelha da contracapa do livro está disponível o aplicativo para acessar os vídeos.
Os autores citam poemas, trechos de contos e romances, e a conversa segue bem-humorada, apaixonada e consistente sobre leituras e livros, temas que não se esgotam jamais, por maior que seja a biblioteca.
No 13º diálogo, A pirâmide de livros, os dois intelectuais comentam que em 2007 foram publicados nos Estados Unidos entre 35 mil e 40 mil títulos e que a Biblioteca de Harvard tem 8 milhões de livros. Sugerem que os leitores escolham bem os 200 ou 500 livros que lerão durante suas vidas.
Shakespeare, Hemingway e Aristóteles estão na obra, e os leitores se sentirão estimulados. Conversas sobre histórias e livros nunca terminam. Uns seguem continuando e modificando as histórias dos outros. Assim é a literatura, uma sucessão de narrativas, mundo afora, contadas, recontadas, aumentadas e diminuídas, sempre fascinante. Sem histórias e poemas, não existe vida humana possível e válida.

lançamentos

  • Os pecados da língua: Pequeno repertório de grandes erros de linguagem (AGE, 336 páginas, R$ 62,00), do professor, editor e escritor Paulo Flávio Ledur, com ilustrações bem-humoradas de Sampaulo, trata de palavras, erros que nos ensinam e temas importantes de gramática e linguagem.
  • Tempos de cadeia - A liberdade é o maior dos sentimentos (Evangraf, 56 páginas), do técnico em contabilidade e empresário uruguaianense José Lopes, fala de sua experiência na prisão, depois da mudança para Porto Alegre. Revela a importância da liberdade, como sentimento e direito.
  • TVs Públicas - Memórias de arquivos audiovisuais (Editora Oikos, 320 páginas), organizado por Nádia Maria Weber Santos e Ana Lúcia Coiro Moraes, com textos delas e de 40 especialistas, trata com profundidade e consistência, do arquivo da TVE-RS (16 mil fitas), de seu resgate e outros temas essenciais.

Felicidade

Meio pretensioso falar de felicidade em 3.700 caracteres, mas o importante é ser feliz, e disso eu e as torcidas do mundo não abrimos mão. Tem gente que se atreveu a falar de felicidade em uma palavra ou uma frase. Há quem fale de felicidade apenas com um sorriso silencioso. Precisa mais?
Do javali no jantar na caverna, com a família e as histórias ao pé do fogo, até os atuais infindáveis objetos de desejo e de consumo e a insatisfação civilizada freudiana, muita conversa filosófica, religiosa, sociológica, psicológica e de mesa de bar rolou e rola sobre o tema, que, claro, é subjetivo e infinito como o amor, o sentido da vida e as perguntas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Alguns filósofos gregos associaram a felicidade com aguentar firme (estoicos), outros, com virtude ou prazer e na antiga China, Lao Tse falou em união com as forças da natureza, enquanto Confúcio relacionou felicidade com dever, cortesia e generosidade. Imagina Confúcio hoje por aí! Os budistas pensam em felicidade como superação dos desejos e a atitude mental que ilumine o que nos deixa felizes ou infelizes.
Cristo pensou que felicidade é o amor, enquanto que Maomé enfatizou que seria a caridade e a vida após a morte. Os ingleses dos séculos XVIII e XIX do utilitarismo, refletiram que a felicidade move os humanos e que os governos deviam buscar a felicidade coletiva. O positivismo francês de Comte dos séculos XIII e XIX colocou a felicidade ao lado da razão e da ciência, do altruísmo e da solidariedade.
Depois vieram Marx, com a ideia de sociedade igualitária relacionada com a felicidade, e Sigmund Freud, com seu "o princípio do prazer" e a conclusão de que seremos só parcialmente felizes. Pois é, o mundo e as pessoas teimam em não ser aquilo que a gente imagina e quer. Einstein disse que é tudo relativo.
E aí seguimos, com ideias e desejos de Pibão, inflação baixa, alta renda per capita, poucas doenças, bem-estar e sonhos de morar no Canadá, na Nova Zelândia, na Austrália ou nos países nórdicos, onde - dizem - tem mais felicidade. Sim, lá tem problemas também, rolos com imigrantes, alguns crimes e loucuras humanas. Nada, ninguém e nenhum lugar é perfeito. Pensando bem, a perfeição seria muito chata. Melhor assim, demasiadamente humanos e seres imperfeitos.
Cuidar do corpo, da mente e do espírito, amar, ter família e amigos, trabalhar no que gosta, fazer exercícios, ajudar os outros, adaptar-se, rebelar-se, comer bem, transformar a tristeza, a depressão e as emoções ruins em coisas que prestem, como atitudes positivas, trabalho, arte, esporte e bom convívio; saber que a gente ganha a discussão não começando a discutir; sorrir e lembrar que rir é o melhor remédio; levar a sério a brincadeira, como sérias brincam as crianças; ter forte identidade étnica, pertencer a grupos mas com independência pessoal; gostar do que se é e do que se tem; ser delicado, gentil e prestativo; e, claro, buscar formas individuais e pessoais para ser feliz, que a lista da felicidade jamais será completa, são algumas dicas.

a propósito...

Ser feliz é, também, como disse a Jackie Kennedy, emagrecer alguns quilos e cortar o cabelo, especialmente se for com um cabeleireiro competente como o Marlus Lisboa, que ama sua profissão e trabalha feliz. Ser feliz é não figurar na lista do Janot e saber que o japonês da federal não vai bater na nossa porta nem por engano. Ser feliz é chegar em casa de noite vivo, encontrar a família viva, comer uva pensando em Bento Gonçalves, sozinho ou junto com a galera, e ouvir o Tony Bennet, a Amy Winehouse e a Lady Gaga. Pensando bem, mas pensando muito bem, ser feliz é quando a gente não pensa no assunto e simplesmente aproveita aqueles momentos fugazes e eternos para esquecer da morte, lembrar da vida e sorrir, sem medo do lugar-comum. 
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