Paula é dona da Erva Doce, empresa que surgiu após ser desligada de uma agência de turismo Paula é dona da Erva Doce, empresa que surgiu após ser desligada de uma agência de turismo Foto: JC

Demissão pode ser oportunidade para empreender

Desde o ano passado, o desemprego no Brasil não é novidade para ninguém - o nível de desocupados no País chegou a 12 milhões de pessoas. Com o dinheiro da rescisão trabalhista em mãos, é hora de pensar em como usá-lo para que passe a gerar frutos. Quem sabe não é o momento de empreender? Isso vale também para quem vai recolher as parcelas do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Ouvimos especialistas e pessoas que passaram pela experiência para ajudar quem tem um montante em mãos e não sabe o que fazer

Vamos lá. Antes de pensar o que fazer com o dinheiro, é preciso entender que empreender é um estilo de vida muito diferente que o de ser funcionário. O primeiríssimo passo para mudar esta configuração começa em você, em identificar qual o seu perfil empreendedor, suas potencialidades, talentos e dificuldades. "Um real pode ser muito ou pouco, dependendo de como você utiliza", fundamenta Paulo Bruscato, gerente da Regional Metropolitana do Sebrae-RS.
Depois disso, aí sim, é hora de pensar na gestão, estruturação e viabilidade econômica do negócio, e como efetivamente usar o recurso.
Ao longo de 2015, Paula Bandeira, 33 anos, trabalhava em uma agência de turismo e viu, aos poucos, a equipe de colegas ir diminuindo à metade, sem que as vagas fossem preenchidas novamente. Sob este clima, resolveu estudar algo que há tempos já pensava: costura, inspirada pela mãe. Não deu outra, em agosto do mesmo ano, a vez da demissão chegou até ela, e foi o momento de usar o dinheiro da rescisão, de pouco menos de R$ 6 mil, para iniciar a própria marca de roupas, a Erva Doce. Com a quantia, comprou uma máquina de costura usada, mandou arrumar outra que já tinha e adquiriu os tecidos para criação dos primeiros modelos.
Paula Bandeira dona da empresa Erva Doce.
Paula empreendeu marca de roupas a partir de uma rescisão de pouco menos de R$ 6 mil
"Eu chego a ganhar até um pouco mais do que era o meu salário na agência, mas minha qualidade de vida mudou totalmente. Faço meus horários, fico pela manhã com a minha filha, acordo às 10h", sintetiza. Com modelos próprios e sob encomenda, o ateliê hoje ocupa um cômodo da sua casa, na zona Norte de Porto Alegre.
Incentivada pelo marido e uma amiga, uma das reservas de Paula para iniciar o negócio era a ideia de que não sabia vender. "Mas no Facebook e no Instagram não precisa saber", avisa, empolgada. Além das plataformas virtuais, as peças são comercializadas nas feiras Me Gusta e Tô na rua, em que os preços variam de R$ 20,00 a R$ 150,00. E também em outros dois pontos de venda, as lojas Georgiana Fauri, no Shopping Iguatemi, e Bruna Heemann (na Coronel Bordini, nº 1.665, no Moinhos de Vento). Para o futuro, ela já vislumbra contar com o apoio de mais profissionais ao seu lado.
Sobretudo neste período de recessão, a profissional salienta a importância de adquirir aptidões que aliviem a dependência total de um emprego. "Eu acho importante você saber produzir algo, poder ter autonomia para fazer grana", recomenda.

Franquias: atalho para empreender

Quem tem receio de começar do zero pode apostar nas microfranquias Quem tem receio de começar do zero pode apostar nas microfranquias Foto: FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Com até R$ 80 mil na mão, é possível investir em uma microfranquia. A diferença de abrir um negócio próprio ou optar pelo modelo é que a franquia não inicia do zero: a marca já é conhecida, produtos e funcionamento estão prontos e padronizados, esperando você para coordenar a equipe e botar o negócio em prática.
"O bom franqueado tem que ser um ótimo operador, essa pessoa que pega o negócio e faz ele acontecer no dia a dia", explica Fabiana Estrela, diretora regional da Associação Brasileira de Franchising (ABF) no Rio Grande do Sul.
As energias, neste caso, não estão concentradas no nível macro e estrategista, mas sim em trazer os melhores resultados da hora em que a loja abre até o fim do expediente. O que, claro, também exige muito trabalho. "Antigamente, havia uma ideia errônea de abrir franquia para ganhar dinheiro fácil e não trabalhar. Não é nada disso", alerta.
Heber Aguiar faturou R$ 200 mil no primeiro ano da franquia que abriu após perder o emprego
Para quem procura este modelo, é preciso prestar atenção no tipo de produto ou serviço a franquear. Que, aliás, pode não necessariamente ser aquele que você gosta de consumir. "Tem que ver se o negócio supre as suas expectativas profissionais, se identificar com ele", diz. No Brasil, existem cerca de 3 mil marcas de franquias, que em 2016 geraram um faturamento de R$ 151, 247 bilhões e 1,192 milhão de empregos. No site da ABF há um guia onde se pode filtrar as opções disponíveis.
>> Confira um papo com a diretora regional da Associação Brasileira de Franchising ao vivo pelo Facebook do GeraçãoE nesta sexta-feira (24/01), às 11h. Envie suas dúvidas para geracaoe@jornaldocomercio.com.br
"Uma vantagem da microfranquia é que, como o investimento é baixo, o retorno vem mais rápido também", argumenta Fabiana. Foi o caso do engenheiro curitibano Heber Aguiar. Com o dinheiro da rescisão, ele investiu na microfranquia de manutenção e reparos Help Home, que requer um aporte inicial de R$ 23 mil. Ele fora demitido de uma das maiores mineradoras do País em 2015, após período afastado para tratar um câncer. "Reparos e manutenções serão sempre necessários em algum momento, ainda mais quando as pessoas estão evitando comprar imóveis novos e fazendo obras nos antigos", comenta o empreendedor. Em um ano de atuação, ele faturou R$ 200 mil com a marca.

Planejamento, planejamento e mais planejamento

Essencial: qual o apelo de mercado que seu negócio irá suprir? Essencial: qual o apelo de mercado que seu negócio irá suprir? Foto: DIVULGAÇÃO/JC
A fase crucial para a decisão de investir o dinheiro é a análise de viabilidade econômica e financeira do negócio que você quer montar, uma vez que ele vai vir a ser sua principal fonte de renda. A partir de entender e projetar o retorno do recurso, você vai descobrir inclusive o quanto pode gastar, se injetar tudo ou guardar uma parte.
Isso faz parte daquela coisa que falamos sempre por aqui: a elaboração do plano de negócios. É nesta fase que todas estas projeções são testadas e validadas. "Via de regra, o dinheiro é caro no Brasil. É preciso olhar as taxas às quais será submetido o negócio que se quer abrir", pontua Paulo Bruscato, gerente da Regional Metropolitana do Sebrae-RS. No caso de Paula Bandeira (ao lado), a Erva Doce está dentro do seu registro de microempreendedora individual (MEI), realizado em junho do ano passado, ideal para profissionais autônomos. "À luz do plano de negócios pode-se entender até um fluxo de aporte deste recurso", ou seja, não quer dizer que você vai chegar gastando tudo. "O recurso pode estar ancorado a ponto de o fluxo começar a se pagar, e o dinheiro acabar ficando resguardado", clareia o especialista. "O empreendedor precisa se planejar, e isso é bem amplo. Tem que ter calma, respirar e planejar", reforça.
Isso porque é muito comum de pessoas que recebem uma quantia de dinheiro de uma hora para outra tomarem decisões de maneira intempestiva. Segundo Paulo, esta é a pior coisa que pode vir a acontecer. "Quem não está acostumado a empreender precisa entender que sua vida muda, que é uma nova aposta", salienta. Aposta, inclusive, que pode envolver nenhum recurso ou muito pouco, a exemplo da estilista Paula.
Entender que o cerne de empreender não é sobre resolver um problema para si, mas para o mercado em que quer se inserir é essencial. "Todo empreendedor deveria começar por uma oportunidade, não desemprego ou pressão familiar", afirma Paulo.
Em resumo, pense no que você poderia fazer para suprir uma necessidade coletiva. "É aí que os empreendedores mais sagazes prosperam, atendendo a um apelo de mercado." Certo?
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