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Porto Alegre, segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017. Atualizado às 21h55.

Jornal do Comércio

Economia

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Tecnologia

Notícia da edição impressa de 20/02/2017. Alterada em 20/02 às 21h55min

Redes sociais aumentam vínculos, mas exigem equilíbrio

Celebridades como Neymar usam fotos pessoais como estratégia de comunicação

Celebridades como Neymar usam fotos pessoais como estratégia de comunicação


Odd ANDERSEN/AFP/JC
Patricia Knebel
No Vaticano com o Papa, em uma arquibancada com Neymar, na cerimônia do Oscar, em uma praia paradisíaca ou em uma festa com amigos. O selfie já se tornou quase um código de comunicação das redes sociais e uma ótima estratégia de promoção. Até o Darth Vader já tirou uma foto de si mesmo para inaugurar a conta oficial da franquia Star Wars em uma rede social.
Para alguns, isso nada mais é do que bragging, termo criado para denominar quem gosta de se gabar virtualmente. Em outros, esse hábito pode se tornar até patológico, como o caso de quem tira e publica dezenas de fotos por dia só para receber a atenção dos amigos. Sem falar que é cada vez mais comum as pessoas se arriscarem para fazer fotos inusitadas: jovens já morreram tentando fazer autorretratos com armas, em trilhos de trem ou em penhascos.
Mas nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Especialistas em comunicação e social media têm sido cada vez mais amenos nos julgamentos dessa atividade. E não só da mania de fazer e postar selfies, como nos demais compartilhamentos que as pessoas costumam fazer no Facebook, Instagram, Twitter, Snapchat e tantas outras redes sociais.
"Essa interação pode ser saudável e funcionar como um elemento de comunicação e interação entre os indivíduos", aponta a psicóloga do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Luciana Ruffo. Segundo ela, todo mundo busca aprovação, quer ser gostado, e receber uma curtida ou comentário em alguma postagem, colabora para uma resposta positiva do cérebro.
Quando uma pessoa coloca uma foto de uma festa da qual participou com os amigos ou um texto sobre algo que acredita, isso gera comentários que acabam por aumentar a sua rede social e o potencial de relacionamento. "Esse é o lado gostoso das coisas, pois aumentamos nossos vínculos. Nos sentimos importantes, porque, quando postamos e as pessoas nos dão uma devolutiva por meio de curtidas ou comentários, sentimos que o outro se lembrou e se importa com a gente", explica.
Um estudo conduzido por uma equipe da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, mostra que existem três perfis de tiradores de selfie: os comunicadores, os autobiógrafos e os que fazem as fotos de si mesmo para se autopromover. 
Confira cada tipo de selfier:
  • Comunicadores: querem companheirismo, diálogo, engajamento e reconhecimento nas redes sociais. Buscam estabelecer uma comunicação bidirecional com as pessoas.
  • Autobiógrafos: objetivam documentar, ensinar e inspirar. A situação vivida é uma parte chave da motivação para tirar e compartilhar o selfie (como a comida que estão comendo, os locais que estão conhecendo e as pessoas com quem estão). A meta é mostrar ao mundo quem são.
  • Autopromotores: o foco é construir reputações, redes sociais e auto-estima. Aqui tudo importa ao fazer a foto, mas a imagem deve ter um ângulo perfeito, ser importante e bem recebida pelos outros. Encaixam-se neste tipo muitas personalidades que faturam alto com suas publicações.   
O professor Steve Holiday, um dos responsáveis pela pesquisa, comenta que os três grupos têm um elemento de exibicionismo ou narcisismo, mas as respostas dos entrevistados também mostraram que os indivíduos são complexos, com motivos múltiplos para se engajar no ato de fazer um selfie.
"As pessoas estão envolvidas em uma intensa negociação pessoal entre essa função de memorização e de preservação e o exibicionismo, que é inerente ao ato de tirar uma foto de você, escolher a imagem ideal, editá-la, filtrá-la e compartilhá-la", analisa o professor.
Holiday explica que os selfies são universalmente adotados porque são fáceis de fazer - e a tecnologia tem incentivado o crescimento considerável dessa prática. A invenção da câmera frontal do smartphone e dos aplicativos que permitem o compartilhamento de conteúdo de forma quase instantânea permitem usar essas imagens de forma significativa. Sem falar no selfie stick (o bastão de selfie), que facilitou muito a prática do autorretrato e tem sido muito usados por quem viaja sozinho e quer registrar seus momentos, em eventos com grande número de pessoas, como palestras e shows, ou simplesmente por quem busca um melhor ângulo.

'As fotos transmitem um instante da vida'

Pamela Rutledge analisa impacto das redes
Pamela Rutledge analisa impacto das redes
ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
A psicóloga Pamela Rutledge, que analisa o impacto das redes sociais e da tecnologia na sociedade, não vê o aumento da predileção das pessoas por fazer e compartilhar selfies como um problema da sociedade atual. Nesta entrevista para o Jornal do Comércio, ela destaca as vantagens da comunicação por meio de imagens e acredita que as pessoas, cada vez mais, deverão considerar o que desejam transmitir e para quem, para, dessa forma, terem os seus objetivos atendidos.
Jornal do Comércio - Muitas pessoas são criticadas por gostarem de compartilhar os seus momentos nas redes sociais. O que você acha desse hábito?
Pamela Rutledge - Selfies não são, por si só, um problema. Se você ver isso como algo para se exibir, como alguns fazem, então você vai interpretar o uso de selfies de forma negativa. A chave aqui é considerar o que você está comunicando e o objetivo disso. Eu posso enviar para a minha irmã um selfie vestindo uma camiseta nova que ela me deu de aniversário ou compartilhar com amigos e familiares meu fim de semana em algum local excitante. Nada disso poderia ser considerado negativo.
JC - Qual a importância da foto na comunicação entre as pessoas e como isso tem sido reforçado na internet?
Pamela - As imagens são muito importantes, porque comunicam uma série de informações em uma quantidade muito pequena de tempo e espaço. Além disso, são mais pessoais que os textos e transmitem emoção. Uma foto tem o poder de transmitir um instante da vida e capturar toda a informação sensorial que acompanha aquele momento. Por outro lado, não são necessariamente boas para capturar assuntos ou pensamentos complexos. Há momentos em que as palavras dão mais significado para algo, ou até mesmo os emoticons. É importante considerar o que o receptor pretendido vai pensar e o que você está tentando transmitir.
JC - Quais são os impactos da linguagem da internet nas habilidades de comunicação das pessoas, especialmente em crianças e jovens?
Pamela - A internet permite que as pessoas se conectem através da geografia e do tempo, e criem links que não poderiam estar lá de outra forma. Não tenho nenhuma preocupação de que o texto (teclar) e o Snapchat possam destruir as habilidades verbais. A mídia social tem sua própria linguagem. As pessoas sempre têm a capacidade de aprender novas línguas. Temos que ter em mente que a programação de computadores é outra linguagem que as pessoas estão aprendendo agora. O único impacto negativo seria se os padrões educacionais e a instrução em sala de aula desestimulassem o mundo escrito e as habilidades de pensamento crítico. O comando da linguagem escrita é sempre uma ferramenta poderosa, mas o da comunicação visual pode ser poderoso também. Cada um tem seu lugar. Um bom domínio da palavra escrita e falada ainda é essencial para alcançar o sucesso profissional.

Um em cada 10 usuários diz que distorceria realidade

A busca pela aprovação social na internet faz com que pessoas acabem camuflando a vida real. Uma recente pesquisa da Kaspersky Lab mostra que um em cada 10 usuários distorceria a realidade nas mídias sociais para que mais pessoas interagissem nas suas postagens.
Para obter curtidas, os homens são mais propensos que as mulheres a abrir mão de sua privacidade nas postagens - 13% deles publicariam fotos de seus amigos usando algo comprometedor. Uma em cada 10 pessoas finge estar em algum lugar ou fazendo algo que talvez não seja verdade. No caso dos representantes do sexo masculino, essa porcentagem chega a 14%, o que sugere que muitos preferem a atenção nas mídias sociais do que compartilhar um retrato realista de suas vidas.
Homens são mais afetados pelo número de curtidas que recebem nas redes e, por isso, são mais propensos que as mulheres a mostrar algo vergonhoso ou confidencial sobre seus colegas de trabalho, amigos ou empregadores. Dos entrevistados, 14% disseram que revelariam um segredo sobre um colega de trabalho, em comparação com 7% das mulheres; 13% estão dispostos a postar um segredo de seu empregador; e 12% mostrariam algo vergonhoso sobre um amigo, em comparação com 6% das mulheres. "Em busca pela aprovação nas mídias sociais, as pessoas não enxergam o limite entre o que pode ser compartilhado sem problemas e o que deve continuar privado", alerta o chefe de mídias sociais da Kaspersky Lab, Evgeny Chereshnev.
A psicóloga do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Luciana Ruffo, explica que algumas pessoas se sentem afetadas e angustiadas ao acompanhar a vida dos seus amigos pelas redes sociais. Muitos se sentem excluídos dos eventos ou não pertencentes a determinado grupo. Isso pode gerar depressão e tristeza. "A vida dos outros sempre parece maravilhosa nas redes sociais e, se você está triste, esse sentimento se potencializa", avalia.
Nesses casos, é importante considerar que as pessoas selecionam o que vão postar e, geralmente, optam pelos melhores momentos. Algo similar ao que acontece em uma mesa de bar ou no ambiente de trabalho, em que não costumamos falar dos problemas que estamos enfrentando em casa. "Os humanos fazem isso o tempo todo, e não apenas na internet. Isso nem sempre acontece com o objetivo de a pessoa se exibir, pois tem muito a ver com a necessidade de aceitação para aumentar as interações sociais", analisa.
Um indicativo de que as redes sociais podem estar fazendo mal, relata, é quando a pessoa se torna refém do sentimento que vem dali. Se o indivíduo começar a precisar que as pessoas lhe deem feedbacks o tempo todo para que ele se sinta bem, é bom ligar o sinal de alerta.
O engenheiro de segurança da Norton, Nelson Barbosa, alerta para os riscos à identidade digital que o abuso da exposição pode levar - e que podem chegar ao mundo real. "A vida das pessoas virou um livro aberto, e elas estão menos preocupadas com a privacidade e com a guarda das suas informações. Se eu pudesse dar um conselho, eu diria: cuidado com o que você coloca na internet, pois a sua vida está ali."
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