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Porto Alegre, quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017. Atualizado às 20h39.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Crítica

Notícia da edição impressa de 17/02/2017. Alterada em 16/02 às 16h40min

História e dramaturgia

Tenho aproveitado algumas das atrações do Porto Verão Alegre para conhecer espetáculos que, por um motivo ou outro, deixei de assistir, ao longo de temporadas anteriores e que se firmaram, ao longo deste tempo. São os casos de O anexo secreto, por exemplo, e Frida Kahlo, à revolução!. Ambos os trabalhos são bastante autorais e ambos estão vinculados a acontecimentos da história do século XX.
Frida Kahlo, à revolução! é o mais autoral deles. Trata-se de um projeto de dramaturgia e de interpretação de Juçara Gaspar que aborda a figura da pintora e militante comunista mexicana Frida Kahlo, em algum momento companheira do pintor Diego Rivera e que albergou em sua casa, inclusive, a Leon Trotski, quando este fugiu (infrutiferamente, como se sabe) da perseguição de Stalin.
A seleção de enfoques que Juçara Gaspar apresenta destaca a personalidade individual de Frida, que inclui, evidentemente, sua relação com Diego, mas olvida aquela com Trotski; salienta a perspectiva da artista, mas, sobretudo, preocupa-se em situá-la enquanto uma artista revolucionária, que faz da arte um modo de militância. O espetáculo, por sua relativa brevidade (uma hora) e por ser um trabalho solo, evidentemente é sintético. Por vezes, em demasia. Quem conheça a biografia de artista poderá seguir as referências. No entanto, quem a desconheça, terá dificuldades em entender muitas dessas referências. O que garante o interesse do trabalho, enquanto espetáculo cênico, é a opção, provavelmente do diretor Daniel Colin, pela trilha sonora enquanto fio condutor da narrativa. Assim, Luciano Alves, o músico que se coloca ao vivo e interfere continuamente no espetáculo, acaba repartindo, com a atriz, a atenção do público. Embora o espetáculo tenha tido lotações esgotadas e chegasse a ter uma sessão extra, confesso que esperava mais do trabalho. O que é, de fato, excelente, é a interpretação da atriz. Juçara Gaspar tem o tipo físico ideal para a personagem, que encarna com absoluta convicção. Tem presença cênica, ótima voz e sabe ocupar a cena como poucas atrizes. O espetáculo vale por todo este conjunto.
Quanto a O anexo secreto, é uma revisita ao conhecido diário da menina judia-alemã Anne Frank, que conseguiu esconder-se dos nazistas durante muitos anos, até ter sua família descoberta. Levados a diversos campos de concentração, ela faleceu num deles e seu diário foi encontrado muitos anos depois, salvo pela mesma sra. Miep Gies que os havia escondido. Ela queria tornar-se escritora famosa com aquelas anotações cotidianas. Conseguiu isso e muito mais: fixou, para a eternidade, a prisão em vida a que os nazistas obrigaram milhares de judeus, na tentativa de sobreviverem ao holocausto. O pai, único sobrevivente da família, conseguiu editar o livro e, a partir de então, ele se tornou um dos textos mais traduzidos, editados e lidos do mundo.
A diretora Fernanda Moreno fez a adaptação dramatúrgica do diário e também dirige o espetáculo, nascido nas salas do Departamento de Arte Dramática da Ufrgs, o que significa que seu elenco é inteiramente formado por jovens intérpretes. Mas também aqui a militância ajuda na qualidade do trabalho. Há convicção e interiorização das personagens por parte do grupo de quatro atores, que interpretam variados personagens, desde a cena que ocorre na rua, na parte externa do teatro, e que dramaticamente se passa numa sala de aula, até a encenação interna, que representa o anexo secreto em que a família Frank viveu com outras pessoas, escondidos, até serem, aparentemente, delatados.
Não há uma filosofia específica emanada do espetáculo, a não ser a força da personalidade da menina Anne. Mas também aqui, Fernanda Moreno teve o cuidado de não torná-la heroína: ela é uma menina adolescente, com todas as contradições. Há muitos anos, o diretor Pereira Dias também encenou um Diário de Anne Frank, no teatro de Arena, com excelente repercussão. Neste caso atual, Gabriel Fontoura, Leo Beillo, Madalena Leandra e Natália Vargas Xis nos dão um espetáculo emocionado mas objetivo, em que a luz tem importância capital para o clima criado no trabalho. Excelente experiência a mostrar o amadurecimento de Fernanda Moreno.
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