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Porto Alegre, quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017. Atualizado às 20h39.

Jornal do Comércio

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Jaime Cimenti

Livros

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Notícia da edição impressa de 17/02/2017. Alterada em 16/02 às 17h38min

Precisamos de pontes, não de muros

Jaime Cimenti
Em 9 de janeiro deste ano, faleceu, aos 91 anos, Zygmund Bauman, o grande pensador da modernidade. Autor de dezenas de livros, em especial o best-seller Amor líquido, fundamental para a compreensão das relações afetivas na atualidade e no qual lançou o conceito de "liquidez". Bauman alertou que, em nossa sociedade líquida, a ausência de sentido de solidez e estabilidade é agravada pela globalização, pela internet e pelo consumismo, e o ser humano se tornou mais autônomo, mas passou a conviver com incertezas e ansiedade.
Estranhos à nossa porta (Zahar, 120 páginas, tradução de Carlos Alberto Medeiros), obra de Bauman lançada há poucos dias no Brasil, trata de uma questão crucial: a dos refugiados e imigrantes em várias partes do mundo, especialmente na Europa.
Para o pensador, vivemos uma crise humanitária, e a única saída é rejeitar as tentações traiçoeiras da separação e reconhecer nossa crescente interdependência como espécie. Para o pensador, é preciso encontrar novas formas de convivência em solidariedade e cooperação com aqueles que podem ter opiniões ou preferências diferentes.
Diante do crescimento de ações reacionárias, não só no continente europeu como no resto do planeta e da construção de muros, Bauman propõe uma reflexão atual e necessária. Para ele, é preciso construir pontes em vez de muros. É preciso lidar com a "crise migratória", que gera um pânico mundial e moral. Para o pensador, a política de separação é equivocada e, se pode trazer algum alívio temporário, nos isolando dos estranhos e das irritantes diferenças, a longo prazo se destina ao fracasso.
Em sua obra, o filósofo analisa as origens, os contornos e o impacto desse pânico moral e disseca o pavor provocado pelas migrações e o processo de desumanização dos recém-chegados, além de mostrar como os políticos exploram os temores e as ansiedades que as migrações provocam.
Para Bauman, os problemas gerados pela "crise migratória" atual e exacerbados pelo pânico que o tema provoca pertencem à categoria dos mais complexos e controversos: neles, o imperativo categórico da moral entra em confronto direto com o medo do "grande desconhecido" simbolizado pelas massas de estranhos à nossa porta.
Como se vê, uma obra importante para entender um dos maiores problemas da atualidade. Bauman encanta com um estilo marcado pelo entrelaçamento de conceitos da filosofia e da sociologia, dialogando com a literatura, com a mídia e até com as redes sociais.
Desde o início dos tempos, pessoas batem às portas de outras, fugindo da guerra, da violência ou da fome. Hoje, o encontro dos locais com os hóspedes indesejados é bem mais complicado.

lançamentos

  • Lições de Geometria Fantástica (Penalux, 188 páginas), do médico e poeta José Eduardo Degrazia, traz mais de 90 poemas onde a racionalidade se imbrica com a emoção. Poemas experimentais, lúdicos e conceituais estão na primeira parte e com inquietações estéticas, existenciais e políticas estão na segunda parte.
  • A Teoria das Formas de Governo (Edipro, 208 páginas, tradução de Luiz Sérgio Henriques), do genial professor e pensador italiano Norberto Bobbio, une política e direito e discute o tema de forma rica, abordando pensadores clássicos como Platão, Maquiavel, Hobbes, Montesquieu, Hegel e Marx. É das obras mais importantes do Mestre.
  • Press - Santa Catarina (edição 03, revista editada por Julio Ribeiro), apresenta o melhor de Santa Catarina, da serra à praia, que receberá nove milhões de turistas. Turismo, economia, Bombinhas, Camboriú, Florianópolis e outros temas estão na publicação, que traz entrevista com o empresário Luciano Hang, da Havan.

Sanduíche aberto

Sexta-feira passada aqui falei sobre as comidas de Porto Alegre e de outros locais. O atento e gentil leitor Julio Bacchin, que é fotógrafo e pesquisador, informou que o barreado, prato servido em restaurantes de Curitiba, é uma iguaria com origem em Morretes e Antonina, cidades do litoral paranaense.
Já o leitor Newton Kalil, conhecido e competente advogado, gastrônomo e "chef" de cozinha com grande atuação, especialmente no União Cooks do Grêmio Náutico União, escreveu para dizer que um prato típico de Porto Alegre é o nosso histórico e apreciado sanduíche aberto, provavelmente com origem nos bares e restaurantes de raízes alemãs. Kalil mencionou os clássicos sanduíches da Caverna do Ratão e do Tartare. O do Prinz, com lombinho e molho, segue clássico. O do Chopp Stübel com maionese, lombinho, tomate, pepino e molho de lombinho e o da Caverna com pernil, pão de centeio, tomate, pepino, cenoura, ovo e molho quente há décadas encantam casais, velhos amigos, solitários, e frequentadores assíduos, que não gostam de deixar o sanduíche sozinho e pedem chope, cerveja e outras bebidas para acompanhar. O sanduíche do Tartare leva lombinho, filé tartare, frios e salmão, e também gosta do acompanhamento de um chope ou de uma loira gelada.
É bom lembrar que o sanduíche aberto é o prato nacional da Dinamarca, país que tem a monarquia mais antiga do mundo, mas que tem como marcas a democracia, a simplicidade e a civilidade. O "morrebrod", o sanduíche aberto dos dinamarqueses, é tão importante como andar de bicicleta, tomar cerveja e conversar em casa ou no bar, na beira da lareira, para espantar o frio e a escuridão de boa parte do ano por lá.
O sanduíche dos dinamarqueses tem mais de 100 variações e é cuidadosamente preparado, em termos de ingredientes e apresentação. Pães claros e escuros, arenque, salmão defumado, caviar, manteiga, molhos, maioneses, queijos e vegetais variados e o que mais a criatividade permitir são utilizados. Os nativos e os turistas já saem comendo o sanduíche com os olhos e gostam da leveza e da saúde dos sanduíches, que, em muitos casos, é o prato principal. A alegria e a simplicidade dos dinamarqueses têm tudo a ver com o "morrebrod", palavra que na verdade significa pão com manteia ou gordura e que é o bisavô do sanduíche aberto.
Em Porto Alegre e no Interior, o sanduíche aberto faz parte das nossas melhores memórias de paladar, envolto em boas lembranças de convívio com a família, os amigos, os amores e até em reuniões de negócios. Usamos salame, presunto, queijos, ovo de codorna ou galinha, azeitonas e o que mais for gostoso na preparação dos sandubas. Como disse o Kalil, é um dos pratos tradicionais de Porto Alegre. O sanduíche aberto, por seus ingredientes e modos de fazer, é democrático, internacional e colorido. Tem a cara de Porto Alegre, uma cidade com múltiplas origens, opiniões e dois campeões mundiais. Noto que chamei o sanduíche de Internacional, talvez pelos dois serem eternos e amados. Dona Mimi Moro e o Anonymus Gourmet explicam.

a propósito...

Depois do que escrevi, convido os donos de bares e restaurantes e todos que gostam de sanduíche a buscarem novas receitas, novos ingredientes e novas formas de apresentação do lendário sanduíche aberto, e que desfrutem muito, de preferência com a família, amigos, colegas e com boa bebida. Não esquecendo de que, se você bebe sozinho, ninguém vai carregar seu caixão. Num mundo com sons, palavras, imagens, agressões, violências e muita coisa demais e complicada, a simplicidade do sanduíche aberto é uma reserva ecológica do bem e um elo entre gerações e gerações. 
 
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