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Porto Alegre, quinta-feira, 05 de janeiro de 2017. Atualizado às 21h36.

Jornal do Comércio

Colunas

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Jaime Cimenti

Livros

Notícia da edição impressa de 06/01/2017. Alterada em 05/01 às 16h19min

Não há ganho sem alguma dor

"Não há ganho sem dor" ou, em inglês, "no pain, no gain" repete Audie, protagonista do romance Placebo Junkies (Fábrica 231, 304 páginas), da norte-americana J.C. Carleson. Ela é ex-agente da CIA, atuou em zonas de guerra, saltou de aviões e trabalhou em linhas de frente em conflitos internacionais. Publicou, anteriormente, The tyrant's Daughter, Cloaks and veils e Work like a spy: Business tips from a former CIA officer.
Audie é uma legítima rata de laboratório, uma cobaia profissional. Para ela e seus amigos, "voluntariado" é dinheiro fixo e rápido, conseguido através da submissão a testes farmacológicos na poderosa indústria farmacêutica. Os laboratórios gostam de escolher a pele mais macia das cobaias, a mais delicada e lisa, a do interior do antebraço ou aquela atrás da orelha. E daí que venham bolhas, picos, calombos, erupções, fendas e pústulas?
Claro, efeitos colaterais horríveis acontecem. Faz parte. As alergias e as reações da segunda são enfrentadas pelas drogas da terça. Na quinta, vão ser tratados os efeitos das dores de cabeça da quarta, e aí, na sexta, com bastante grana, vem, graças a Deus, o fim de semana.
Com sua narrativa impactante, sua irreverência brutal, seu tema visceral e mais doses cavalares de humor negro, o romance lembra Trainspoting e Drugstore Cowboy e escancara a bizarra, mas real, subcultura das cobaias farmacológicas.
Audie acha que, apesar de tudo, está tudo sob controle e está juntando dinheiro para comemorar o aniversário de 18 anos de Dylan, seu namorado, que é vítima de uma doença terminal. Ela acha que o esforço vale cada centavo e repete: "não há ganho sem dor". Audie procura esquecer sobre os efeitos dos comprimidos que corroem seu corpo e sua mente e segue em frente, mas sente que começa a perder o controle sobre a realidade.
A nova topografia epidérmica, com inchaços e hematomas, marcas e cicatrizes, que transformou a pele macia e lisa de Audie, mostra que nada será como antes e que as mudanças externas e internas a acompanharão para sempre.
Como pode constatar o leitor, o romance trata de tema pouco enfocado pela literatura mundial e mostra como pessoas que necessitam do dinheiro que ganham como cobaias acabam auxiliando, de modo indireto, a milhões de consumidores de medicamentos em todo o planeta. Isso pode ser paradoxal, mas é bem atual e mostra como muitas vezes funciona a indústria farmacêutica.
"Meu objetivo foi criar uma história que, ao mesmo tempo, emocionasse e desafiasse os leitores. Placebo Junkies pretende questionar afirmações e levantar questões e discussões. E é minha esperança sincera que eu consiga fazer isso", escreve a autora, na página final do livro.
Pelo visto, J.C. Carleson atingiu seu objetivo, escrevendo um romance envolvente, que mostra realidades contundentes.

lançamentos

  • A neta de Gardel (BesouroBox, 232 páginas), romance mais recente do médico, professor e escritor Waldomiro Manfroi, fala de memória, de tango, de riso, de amor e outras relevâncias. "A neta de Gardel é um livro que se pode dançar, rir, entristecer e amar de novo", diz Marco Cena, na apresentação.
  • Emily Dickinson - Não sou ninguém - Poemas (Editora Unicamp, 192 páginas), edição revista e ampliada, traduções de Augusto de Campos, traz poemas de uma das maiores escritoras norte-americanas de todos os tempos, como 'Não sou ninguém! Quem é você? Ninguém também? Então somos um par? Não conte!
  • É tudo noite (Editora Bestiário,104 páginas), de Fátima Parodia, é seu livro de estreia. Assis Brasil, na apresentação, diz: "saúdo a nova autora que começa em altíssimo nível". Cassio Pantaleoni no prefácio: "Na coleção de histórias ela nos oferece o tecido rugoso com o qual essa gente de vida simples se cobre".

Perspectivas e esperanças para 2017

Uma das melhores coisas deste janeiro novinho em folha, cheirando a óleo Johnson, é que as retrospectivas ou "réu-trospectivas" de 2016, como disse o outro, vão escasseando e chegando ao fim. Ninguém aguenta mais ouvir falar de 2016! Chega! Deu! Vai te embora 2016! Já foi tarde! Vê se nos esquece! Está bem, está bem, te acalma, vamos lembrar das Olimpíadas, do Museu do Amanhã, das cerejas frescas que pontualmente chegam em dezembro, vindas do Chile e de outras bandas e de uns outros lances. Nem tudo foi ruim ou perdido, 2016, vai. Mas vamos adiante que é melhor.
Tomara que em 2017 o Inter suba a lomba de primeira, mesmo que seja a Lucas de Oliveira. Tomara que os governantes arrumem uma forma de resolver os rolos dos caixas públicos sem ter que, pela enésima vez, aumentar os impostos. Morrer e pagar impostos, as duas únicas certezas quando ao futuro. Bem que deveríamos pagar menos taxas, impostos e contribuições. Tomara que em 2017 venham reformas boas, pacíficas, conversadas e que sejam úteis para o todo, o coletivo. De uma vez por todas a gente precisa entender que não existe "dinheiro público". Existe dinheiro dos contribuintes, dos cidadãos. Eles é que pagam o que está aí.
Tomara que em 2017 você vá a muitos sebos, livrarias, bibliotecas e bancas de jornais e que largue um pouco de mão a selva de pedra digital. Não seja tão "paperless". Mais book, menos face. Nada como a liberdade de pegar um livro e outro, que são paraísos e jardins portáteis. Por acaso ou por escolha, curta a liberdade infinita de imaginar, viajar e andar por mil universos. Curta a possibilidade de ser outros, muitos, milhares. Curta essas coisas que nem consigo listar todas e que só os livros impressos são capazes de te presentear.
Tomara que em 2017 vocês tenha mais momentos para simplesmente olhar o dia nascendo, o sol, a luz, o mar, as montanhas, as estrelas, a lua, as pessoas, as águas e simplesmente agradecer por ter a graça de estar vivo, sem maiores indagações. E daí que a vida é sopro, breve passagem? E daí que uns dizem que a vida é um vale de lágrimas? Pois nessa breve passagem aproveite para olhar, ao menos um pouco, para dentro de você e sentir, ao menos por segundos, quem você é, de onde veio, para onde vai e por quê? Se as respostas não vierem, não tem problema, que na vida mais vale perguntar que responder, quem é que não sabe? Vá em frente.
Tomara que em 2017 você não se preocupe tanto com filosofanças cansativas, conselhos chatos, regras tirânicas, orientações marciais e manuais de sobrevivência e papos sérios demais. Tomara que a simplicidade, o bom humor, o amor, o carinho físico e a paz te peguem de vez em 2017. Tomara que em 2017 tua vida corra limpa, clara, sorridente, cristalina e fluente como água de rio.
Tomara que 2017 seja pessoal, único e intransferível para você e que depois me conte as novidades.

a propósito...

Como disse o poeta, o último dia do ano não é o último dia do tempo. A gente inventou o calendário para começar (ou pensar que começa) tudo de novo, para pensar que a vida é tipo o sol, se renovando a todo dia. Esse negócio que o mundo vai acabar... esse negócio acabou faz tempo... de mais a mais, se o mundo acabar, vem outro mundo, novinho, pronto e daí? Para que pensar tanto? Se preocupar tanto? Como dizem os italianos, os homens vivem cem anos e se preocupam por mil. Menos, né? Na singela ceia da Liz, no fim do ano, tinha um cálice de champanha, salada, lombinho, doce de abóbora, flores, simplicidade, gratidão, esperança e a aura de um simpático 2017 e mais não precisava. 
 
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