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Porto Alegre, quinta-feira, 05 de janeiro de 2017. Atualizado às 21h36.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

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Notícia da edição impressa de 06/01/2017. Alterada em 05/01 às 17h03min

Vidas amargas

O segundo filme realizado pelo estilista Tom Ford, este Animais noturnos não deixa dúvida alguma sobre o talento cinematográfico do realizador, que, depois de uma carreira vitoriosa no mundo da moda, praticamente troca de atividade e surpreendentemente enriquece o cinema. O talento do agora cineasta se manifesta em todo o desenrolar da narrativa, dividida em três linhas principais, fora as sugestões de outros dramas paralelos, que vez por outra, habilmente sintetizados, aparecem de forma a tornar ainda mais rico um filme incomum e fascinante por vários motivos.
Um hábil orientador de intérpretes, um criador de personagens, portanto, Ford utiliza figuras humanas para chegar ao centro dramático e às causas dos dramas narrados. A cena do restaurante, um áspero diálogo entre mãe e filha, é um exemplo da forma como o diretor em poucos minutos sabe aumentar a dramaticidade de seu relato, colocando a personagem central diante da figura que é a síntese de um autoritarismo que vai se espalhar pelo filme todo, assumindo formas diversas, mas quase sempre presente. O mundo que o diretor coloca na tela tem na deformação a sua marca, como se fosse modelado por forças destinadas a criar um grotesco revelador de verdades ocultas. A sequência inicial, que torna animadas as criaturas de Lucian Freud, causa impacto e também é outro momento que resume a proposta principal.
Ford é um dos produtores do filme, baseado num romance de Austin Wright, e também o roteirista, fatores que certamente lhe possibilitaram atuar em um espaço bem amplo, sem sofrer restrições além daquelas inerentes à realização cinematográfica. São três as linhas narrativas. No presente, o vazio de uma proprietária de galeria de arte, traída pelo marido. No passado, o casamento frustrado dela com um amor da juventude. E a terceira linha é aquela que introduz a ficção na realidade, um romance que se transforma em imagens, vale dizer: em filme. Este é a parte mais impressionante, pois é criada pela imaginação do primeiro marido, que finalmente conseguiu êxito como romancista. Esta história de uma família desfeita pela irracionalidade tão presente na atualidade alcança uma culminância dramática na qual a violência expressa um grotesco transformado na maior das agressividades.
E quando a lei dos homens aparece, representada por um policial condenado e disposto a ultrapassar todas as barreiras, as imperfeições voltam a se impor e o caos se impõe. O epílogo dessa história de ficção, dentro da ficção que é o próprio filme, focaliza a autodestruição, a violência que se volta contra o seu portador.
A visão de um mundo no qual a desumanidade, o grotesco e a violência predominam é expressa por imagens poderosas e sequências muito bem pensadas e realizadas. O trecho final, por exemplo, é primoroso ao mesclar ficção e realidade e ao expressar, novamente, a solidão da protagonista. É quando uma figura do passado se mistura ao pai cuja família havia sido dizimada. A espera será infinita, pois é impossível o retorno do passado, assim como a volta ou a transformação de um personagem fictício em figura real. Animais noturnos é um filme voltado para a descoberta de mecanismos ocultos e agressividades nem sempre contidas. Os ambientes sofisticados das galerias de arte são substituídos pela noite ameaçadora numa estrada deserta. Os trajes elegantes cedem lugar a vestes que expressam irreverências. A lei é representada por um personagem sem futuro e sem interesse por normais legais. As formas de arte estão distantes do belo e as narrativas literárias se estruturam sobre situações reveladoras da grande crise.
O cinema de Tom Ford, no entanto, não é desprovido de esperança, pois coloca no centro de tudo uma personagem que procura escapar de um quadro desalentador. Em seu sofrimento, a protagonista do filme tem um olhar crítico para o que a rodeia. E ao mostrar um mundo assim deformado, Ford coloca o espectador diante de uma realidade que necessita ser transformada. Apela para que visitantes de galerias de arte e espectadores de cinema abandonem a simples contemplação e se transformem em agentes da lucidez, primeiro passo para qualquer transformação.
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