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Porto Alegre, terça-feira, 20 de dezembro de 2016. Atualizado às 17h50.

Jornal do Comércio

Política

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entrevista especial

Notícia da edição impressa de 19/12/2016. Alterada em 20/12 às 18h51min

Fátima quer resgatar empreendedorismo em Novo Hamburgo

"Administrar Novo Hamburgo não é só administrar o caixa"

"Administrar Novo Hamburgo não é só administrar o caixa"


MARCO QUINTANA/JC
Bruna Suptitz e Lívia Araújo
Oriunda do setor da construção civil e ex-presidente da Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo, Fátima Daudt tem a intenção de recuperar o ambiente empreendedor na cidade, depois do enfraquecimento do setor coureiro-calçadista. “Precisamos criar esse ambiente confiável para o empreendedor colocar sua empresa na cidade e o empreendedor local também ter incentivo para fazer com que sua empresa venha a crescer”, acredita. Para tal, Fátima quer criar a Sala do Empreendedor, destinada a tirar as dúvidas de quem quer investir na cidade.
Tal como outros nomes do PSDB eleitos para as prefeituras gaúchas, a prefeita eleita terá como medida básica a redução da estrutura administrativa, por meio do corte de cargos em comissão e a diminuição do total de secretarias: serão 77 CCs, e quatro secretarias, de um total de 18, com uma economia estimada de R$ 6,5 milhões.
Em entrevista ao Jornal do Comércio, Fátima também comentou o fato de ter sido a primeira mulher eleita para a prefeitura de Novo Hamburgo, e de outras seis mulheres ocuparem o Executivo na metade das cidades do Vale do Sinos. “Isso mostra que o Vale não é mais tão conservador, as pessoas já pensam diferente, e as mulheres estão colocando seus nomes à disposição para a política”, acredita.
Jornal do Comércio – Como está sendo o trabalho de transição da atual para a futura gestão?
Fátima Daudt – Esse momento de transição não é uma tarefa fácil. Estamos saindo de uma administração do PT para uma administração do PSDB, então há algumas dificuldades. Mas estamos superando todas e já encaminhamos à Câmara de Vereadores, por meio do atual prefeito, um projeto de lei para uma reforma administrativa, aonde reduzimos o número de CCs (cargos comissionados) e organizamos algumas atividades, de forma que possamos otimizar a gestão dentro da prefeitura de Novo Hamburgo.
JC – Quando fala em dificuldades, quais são?
Fátima – As dificuldades vêm muito na obtenção de números. Protocolamos vários ofícios requerendo documentos, contratos, para que possamos ter essa visão, esse diagnóstico melhor da gestão, de como está hoje a prefeitura, e a dificuldade vem na obtenção desses documentos.
JC – Quando fala em cortes de CCs, e redução de secretarias, com que número trabalham e qual o impacto financeiro?
Fátima – O projeto traz uma economia para o município em torno de R$ 6,5 milhões ao ano, com corte de 77 CCs da administração direta e quatro secretarias, de um total de 18. Reorganizamos, na verdade, para que não haja nenhum tipo de problema administrativo ou que seja prejudicial dentro da administração. Alguns cargos foram remanejados, então nós contemplamos de forma bem otimizada a parte administrativa e os cargos.
JC – Na câmara, só entrou uma vereadora pertencente à coligação com a qual a senhora concorreu. Já conversou com os outros partidos para constituir uma base com maioria na Câmara?
Fátima – Sim. Uma das medidas foi fazer uma confraternização com os vereadores eleitos, logo após a eleição, e ali se abriu o diálogo. Conversamos bastante, muitos deles já se colocaram a favor. Foi muito bom, uma abertura de diálogo importante para essa próxima legislatura.
JC – A senhora atua no setor de construção civil. Como acredita que poderá aplicar essa experiência na administração pública?
Fátima – Tenho uma construtora e, depois de ter vencido as eleições, estou tornando inativa minha empresa e vou me dedicar exclusivamente à prefeitura. Considero importante a experiência que trago do ambiente privado para o público, sei que é preciso fazer uma compensação, não é possível trazer tudo, mas especialmente gestão. Dentro do urbanismo e da gestão estratégica de cidades, a gente trabalha muito a regularização fundiária, consegue ver a cidade como um todo, a mobilidade urbana. E quero colocar junto a isso a questão econômica, afinal fui presidente de uma associação comercial e sei da importância em fazer com que a economia de um município pulse, que tenha vitalidade. Quero conseguir conciliar as duas coisas, tanto a gestão estratégica da cidade como desenvolvimento econômico. Mas principalmente ouvir bastante o cidadão.
JC – Durante a campanha, que demandas ouviu mais do eleitorado?
Fátima – O que mais escutava eram pedidos de emprego. Novo Hamburgo vem de uma desindustrialização bastante grande. Perdemos muitas empresas e isso ficou bastante evidente, agora que o país passa por uma crise econômica. Há um compromisso de campanha para essa revitalização econômica da cidade. A gente precisa fazer com que a economia pulse.
JC – Esse processo de perda de empresas e fechamento de postos de trabalho acontece há quanto tempo?
Fátima – Há bastante tempo. O empreendedor local acaba não tendo o apoio necessário por parte da prefeitura. E muitas vezes só o que ele busca é uma resposta, não é um apoio financeiro. E as empresas, para voltarem à cidade, querem um ambiente confiável. Sempre que eu questionava “Porque não vão a Novo Hamburgo colocar suas plantas lá?”, eles diziam que ‘Não, Novo Hamburgo é muito complicado”. Esta não é uma cidade complicada e nós precisamos criar esse ambiente confiável para o empreendedor colocar sua empresa na cidade e o empreendedor local também ter incentivo para fazer com que sua empresa venha a crescer.
JC – Como a prefeitura pode contribuir nesse sentido?
Fátima – Vamos implementar a Sala do Empreendedor, respondendo aos questionamentos. Dessa forma, a prefeitura pode auxiliar para que o empreendedor venha a fazer com que sua empresa cresça e tenha mais vontade de permanecer no município.
JC – Nessa eleição, a senhora concorreu pela primeira vez a um cargo público eletivo, já ao Executivo. Porque decidiu entrar na política?
Fátima – Sempre tive muito envolvimento com a comunidade. Eu sou de Novo Hamburgo, onde cresci e trabalhei minha vida inteira. Esse envolvimento, dentro da associação comercial e em outras atividades fez com que eu me tornasse conhecida na cidade. Sempre gostei de estar envolvida com política, apesar de que eu não tinha nenhuma filiação partidária. Muitas vezes fui convidada a me filiar a partidos políticos, mas sempre dizia não. Faço política sim, mas dentro das entidades. Com tudo que vinha acontecendo no meu pais, na minha cidade, eu com esse olhar urbanista via que a cidade estava passando por um problema bastante sério, havia muitos pedidos para que eu concorresse, foi aí que eu decidi que chegou a hora, é o momento de termos pessoas novas na política, outra forma de pensar, outra forma de ver a administração pública.
JC – A senhora é a primeira prefeita de Novo Hamburgo, e o Vale dos Sinos tem metade das prefeituras com mulheres eleitas. Algum fator que influencie?
Fátima – Vejo que tudo tem a ver com essa questão da mudança. Isso mostra que o Vale não é mais tão conservador, as pessoas já pensam diferente, e as mulheres estão colocando seus nomes à disposição para a política. Ainda é pouco, mas já é um bom caminho... Quando fui presidente da ACI, fui a primeira mulher a ser eleita em 86 anos. Eu fiquei presidente cinco anos e no fim do meu mandato, a partir de uma pesquisa da Feevale, saí com 89,9% de aprovação. Então foi um trabalho muito bom, que eu tenho bastante orgulho de ter feita. Da mesma forma, quero me empenhar na prefeitura.
JC – Tem como vice um médico da rede pública...
Fátima – Sim, o doutor Rogério Fagan é médico no Hospital Municipal de Novo Hambrugo, conhecedor da situação da saúde da cidade e já vai assumir como secretário de Saúde, acumulando os dois cargos. Ele já está trabalhando nessa transição, que é mais delicada, então foi necessário que o Dr. Fagan se apresentasse como secretário para tomar as medidas necessárias, porque no dia 1 de janeiro o hospital não fecha.
JC – O que já tem encaminhado nesse período de transição?
Fátima – Nos pavilhões da Fenac, queremos que haja um incremento nas feiras, até para que a cidade tenha uma movimentação maior de turismo, principalmente o turismo de negócios que é uma das identidades do município. Na área econômica, começamos com esse diagnóstico de toda situação em que se encontra o município, auditando o que será necessário, para que a gente possa passar para o cidadão com transparência a realidade da cidade.
JC – O que tem se apresentado em outras campanhas, pelo próprio PSDB, é a questão da austeridade. É esse também o seu discurso?
Fátima – Vamos ter um cuidado muito grande com as contas públicas, tanto que entramos com esse projeto na câmara onde vamos fazer uma redução e economia muito grande. Então terá austeridade neste sentido. No entanto nós queremos também abrir, ir para o novo, porque isso, porque administrar uma cidade não é administrar o caixa. A gente tem que ter outra linha de que precisamos criar o novo, fazer diferente, olhar para o futuro, uma cidade planejada, pensando sempre no futuro.
JC – Tanto a aprovação da PEC 55 e o pacote de austeridade estadual terão impacto nos municípios. Como imagina um cenário nesse sentido? Vários prefeitos reclamam de como os recursos chegam aos municípios.
Fátima – Não é o melhor cenário quando a União concentra os recursos, no entanto é o cenário que nós temos. Dentro da nossa administração temos uma equipe para busca e captação de recursos, vai estar ligada ao gabinete da prefeita, porque é de extrema importância. Mas tudo isso que está acontecendo no país mostra o quanto nós municípios temos que ser mais autossuficientes também. Quando eu digo que nós vamos ter que abrir a cidade, buscar mais investimentos, fazer com que as empresas locais cresçam, nossos empreendedores tenham esse incentivo é justamente por isso, vamos precisar revitalizar a economia do município porque hoje a dependência do estado ou da união se tornou muito difícil.
JC – Falou que está tendo dificuldade em conseguir números. Tem ideia da situação financeira do município?
Fátima – Vamos receber o município numa situação bastante difícil. Há dívidas, há um passivo oculto que nós temos também que apurar. Não será fácil, mas isso é a situação de muitos municípios.
JC – Disse que recebeu outros convites de outros partidos. Por que a escolha pelo PSDB?
Fátima – O primeiro convite que eu tive para me filiar a um partido foi em 2006, pelo falecido Júlio Redecker (PSDB, falecido em 2007), deputado federal, e ele, durante bastante tempo... nós tínhamos muitas reuniões, eu já era presidente da ACI. Outros partidos fizeram o mesmo convite, mas sempre houve uma boa relação minha com o Lucas Redecker e também até com o então deputado Nelson Marchezan Júnior, a governadora Yeda Crusius também... então tivemos um relacionamento mais próximo devido às demandas da região. Quando houve esta vontade de me filiar a um partido, e concorrer à prefeitura, eu vi no PSDB esse apoio necessário para concorrer.
JC – Então sua escolha por concorrer à prefeitura é anterior à filiação?
Fátima – Pelo meu envolvimento com a cidade, os convites sempre vieram desta forma, com esta intenção, que eu me filiasse ao partido para concorrer à prefeitura. Então, foi natural isso, na conversa com o PSDB.
JC – Foi uma primeira disputa exitosa. Tem pretensão de seguir na carreira política?
Fátima – Minha pretensão agora são quatro anos de administração de sucesso em Novo Hamburgo. Quero trabalhar muito por Novo Hamburgo, pela minha cidade. Eu não estou pensando além dos quatro anos.
JC – Fala em criar sala do empreendedor, em utilizar os pavilhões da Fenac, e tentar fortalecer o trabalho do empreeendor local ou abrir para empresas de fora. Como você conversaria com esses empresários e fazer esse convite?
Fátima – para mim isso é muito natural, porque durante cinco anos fui presidente de uma associação comercial e representava 1250 empresas. Eu já tenho essa afinidade em entender o que ele precisa e a linguagem fica muito próxima. Então, tornar efetiva uma mesa de negociação com o empresariado... considero que terei bastante facilidade para isso. Novo Hamburgo está de portas abertas e a prefeitura será uma administração que dará ao empreendedor um ambiente confiável para que ele tenha sua empresa.

Perfil

Fátima Daudt tem 50 anos e é nascida em Novo Hamburgo. É formada em Arquitetura e Urbanismo e possui pós-graduação em Gestão Estratégica de Cidades pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). É empresária local no ramo da construção civil há mais de 20 anos. Integra os conselhos de entidades como Fecomércio e Federasul. Até 2016, atuou também como professora universitária e articulista na imprensa local. Foi a primeira mulher a ser eleita para a presidência da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Novo Hamburgo, Campo Bom e Estância Velha, entre os anos de 2006 e 2011, quando a entidade já possuía 86 anos. Filiou-se ao PSDB em abril de 2016, especificamente para concorrer ao cargo de prefeita da maior cidade do Vale do Sinos. Liderou a coligação composta por PSDB, PPS, PSB, PSD, PTdoB e PROS, saindo vitoriosa no pleito de outubro, com 36.435 votos válidos. Fátima será a primeira mulher a chefiar o Executivo de Novo Hamburgo.
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