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Porto Alegre, quinta-feira, 05 de janeiro de 2017. Atualizado às 21h36.

Jornal do Comércio

Colunas

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Antônio Hohlfeldt

Teatro

Notícia da edição impressa de 06/01/2017. Alterada em 05/01 às 16h01min

O ano fechou em tom maior

No fechamento da temporada de 2016, um inesperado espetáculo ocupou os espaços da sala 503, na Usina do Gasômetro. Já ao longo do ano, tivemos a montagem de Perto do fim, dramaturgia e direção de Bob Bahlis, para a interpretação de Gisela Sparremberger e Bruno Palharini, sobre a vida da poeta norte-americana Sylvia Plath, que vem sendo gradativamente descoberta pelos leitores brasileiros.
Pois Pulso, a que fomos convidados a ver, retoma a mesma personagem, mas de certo modo faz um recorte diverso, pois se fixa no próprio suicídio como clímax de um processo de deterioração e contradição que a escritora vivia em sua vida particular. A presença deste espetáculo se deu no conjunto de intercâmbio de espaços propiciado pela Cia. Rústica, de Porto Alegre, e que trouxe o grupo Vulcão, de São Paulo. Na verdade, a atriz Elisa Volpatto é gaúcha, mas está fora do Estado há algum tempo. Ela veio dirigida por Vanessa Bruno, que articulou um espetáculo dinâmico em torno da personagem da poeta, com intensa preparação vocal e corporal de Lívia Vilela.
O espetáculo, com cerca de uma hora de duração, ocorreu numa noite extremamente quente na sala 503 que estava absolutamente lotada! Se era calor e a gente suava em bicas, por outro lado também foi extremamente quente a encenação em que a atriz tem um desempenho absolutamente extasiante. Alternando aspectos de sua pacata vida de esposa, mãe e dona de casa, ao lado do poeta Ted Hughes, a quem ela culpa por tê-la traído, e sua veia criativa de escritora, Pulso é intenso e bastante marcado pela exploração de todas as potencialidades da atriz, além da escolha de uma sensível trilha sonora (Edson Secco), de excelente qualidade que, ao mesmo tempo em que contextualiza a época dos acontecimentos, serve para criar um clima e comentar as ações dramáticas.
Sylvia Plath nos surge, de certo modo, como uma fera na jaula. Uma jaula que é seu próprio compromisso familiar, de um lado e, de outro, os compromissos que ela tem para com a lteratura. Esta ambivalência sugere, segundo os responsáveis pelo espetáculo, uma espécie de deterioração de sua identidade, o que a levará até o suicídio.
No cenário de Britney Federline, e a exemplo da peça antes mencionada, temos no centro da cena, o fogão, mesmo que, espacialmente, tanto num quanto no outro espetáculo, ele se encontre à margem do palco. Se em Perto do fim acompanhávamos os acontecimentos desde fora, como espécie de voyeurs, mesmo que intrometidos no espaço da casa da personagem, aqui, de certo modo, a narrativa se desenvolve desde dentro da personagem. Se isso for possível de se pensar, é como se participássemos diretamente de um fluxo de consciência da personagem: não há narrativa, propriamente dita, justamente porque as coisas vão acontecendo umas como desdobramento das outras, inclusive com as incessantes trocas de clima e de emoção por que passa a personagem. Por isso foi importante a preparação vocal e corporal da atriz: ela precisa de absoluto controle de voz e de corpo para o desenvolvimento da encenação, como que girando em torno de sai mesma, enrolando-se e desenrolando-se (aliás, um dos movimentos cênicos é exatamente este: a personagem gira nervosamente no pequeno espaço de que dispõe, como uma fera enjaulada. Talvez que a decisão do suicídio não esteja ainda suficientemente preparada e justificada, cenicamente. Ela surge abruptamente, quase que num impulso (mas o espetáculo se chama Pulso, como que a sugerir uma alternância entre movimentos fortes e fracos: num destes movimentos fortes ela teria chegado ao suicídio, sem maior raciocínio e consciência?)
De qualquer modo, o trabalho desenvolvido por Elisa Volpatto e sua equipe é admirável. Ainda que incomodados pelo calor e os ruídos que vinham do corredor do prédio, como se as pessoas não soubessem que ali ocorria um espetáculo, todos os espectadores estavam absolutamente ligados, tensos, acompanhando o desenrolar as ações. Era como se, mesmo sabendo aquilo que já aconteceu, de certo modo pudéssemos intervir no drama e impedi-lo, sobretudo porque Sylvia Plath se coloca diante de nós com extrema vitalidade, que não nos permite acreditar que chegaríamos ao desdobramento a que, de fato, ela chegou.
Este é o tipo de espetáculo que precisa voltar e encontrar melhores condições de apresentação para que um público mais amplo possa apreciar e valorizar o trabalho desenvolvido. De qualquer modo, fica um registro de admiração, pelo trabalho a que assistimos e, sobretudo, pela reiteração da força expressiva do teatro, quando bem realizado. O ano fechou em tom maior.
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