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Porto Alegre, quinta-feira, 22 de dezembro de 2016. Atualizado às 21h11.

Jornal do Comércio

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Hélio Nascimento

Cinema

Notícia da edição impressa de 23/12/2016. Alterada em 22/12 às 17h05min

Momento de decisão

Após a realização de Bird, uma cinebiografia de Charlie Parker, a obra de Clint Eastwood, atualmente com 86 anos, tem sido marcada por personagens reais. Assim, desde o general Tadamichi Kuribayashi, que foi focalizado em Cartas de Iwo Jima, até o atirador de elite Chris Kyle, protagonista de Sniper americano, passando por Invictus, celebração da capacidade de articulação e o humanismo de Nelson Mandela, A troca, baseado na luta de Christine Collins para reencontrar o filho desaparecido, J. Edgar, reconstituição da carreira e a influência exercida pelo primeiro diretor do FBI, e Em busca da música, sobre um conjunto popular, a filmografia do realizador apresenta uma tendência bem clara. Importante é também não esquecer que Coração de caçador era um retrato disfarçado de John Huston. Não é uma contradição o fato de que Os imperdoáveis e A menina de ouro, ambos premiados com o Oscar, sejam os pontos mais altos da obra do cineasta e tenham sido escritos diretamente para o cinema.
Neles, as regras do realismo cinematográfico foram devidamente respeitadas, o que significa que ambos formam, com os demais filmes, inspirados ou não em fatos reais, um todo harmonioso. Quando concederam a Eastwood uma Palma de Ouro especial pelo conjunto da obra, os organizadores do festival de Cannes ressaltaram no texto justificativo que os filmes do diretor formam um conjunto que reúne as principais características de John Ford, Roberto Rossellini, Robert Bresson e Satyajit Ray. As citações de tais nomes não têm intenções comparativas, e sim ressaltar algo que une todos: o culto disciplinado e criativo do realismo de cena.
Eastwood é também um discípulo de Don Siegel e Sergio Leone, para os quais trabalhou como ator e aos quais dedicou Os imperdoáveis. O primeiro trabalhou principalmente com o filme de ação e o segundo foi um adepto da retórica operística, mas sem abandonar a preocupação por figuras humanas colocadas acima de qualquer virtuosismo narrativo. O tema principal da obra do realizador é o do conflito entre o indivíduo e as forças que procuram controlá-lo. Tais forças são sempre vistas como entidades limitadoras e repressoras. É o que fica bem claro nas duas obras-primas citadas nas quais o sistema questionado é desfigurador e autoritário. O conflito daí resultante poucas vezes resulta numa vitória completa do ser humano rebelado, como em Invictus, pois, como em Rastros de ódio, talvez o maior dos filmes de Ford, a vitória do humano também resulta na retirada de cena do protagonista. Em Menina de ouro, a busca da filha perdida é simbolicamente concretizada, antes de um desfecho tão inesperado quanto pungente. O novo filme de Eastwood é um resumo de todos os outros, como sempre acontece com os verdadeiros cineastas. Sully, o herói do Rio Hudson retoma o tema do conflito, tantas vezes abordado pelo diretor. Outra vez, acontecimentos verídicos são recapitulados e personagens verdadeiros colocados em cena. Mas não estamos diante de um documentário reconstituído. Eis um filme que procura falar sobre um mundo abalado por lembranças terríveis, por pesadelos assustadores.
Certamente que não é por acaso que a narrativa tem início com uma cena de grande impacto, quando, ainda sem imagens, ouve-se o som e as palavras que antecedem um voo. É como se a plateia do cinema estivesse participando da ação. A lembrança do acontecimento terrível, transformada em angústia noturna, não está relacionada apenas ao pouso no rio. Em várias passagens do filme, as imagens trazem a lembrança do 11 de setembro. O avião que se aproxima do rio é enquadrado pela câmera de forma a realçar a presença dos edifícios. E há mesmo uma referência direta, quando um dos personagens diz que, há muito tempo, não se ouvia uma boa notícia sobre Nova Iorque e aviões. O procedimento padrão, em tais casos, não impede que o filme trate os investigadores como um tribunal inquisidor, tanto na construção das imagens como na caracterização de cada figura. E, ao realçar a capacidade de improvisação, Eastwood, um admirador do jazz, recoloca em cena o seu personagem favorito, sempre decisivo na hora da grande ameaça.
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