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Porto Alegre, segunda-feira, 12 de dezembro de 2016. Atualizado às 17h49.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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Mercado de trabalho

Notícia da edição impressa de 12/12/2016. Alterada em 12/12 às 18h54min

Crise eleva desigualdade de saláriode mulheres em cargosde chefia

Em 2015, o rendimento das trabalhadoras equivalia a 76% do salário recebido pelos homens, aponta pesquisa do IBGE

Em 2015, o rendimento das trabalhadoras equivalia a 76% do salário recebido pelos homens, aponta pesquisa do IBGE


STOCKVAULT/DIVULGAÇÃO/JC
Embora permaneça em queda de modo geral, a diferença salarial entre homens e mulheres que ocupam cargos de chefia aumentou no País nos últimos anos. De acordo com dados da Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de ganhar menos, as mulheres no Brasil dedicam duas vezes mais tempo do que os homens com afazeres domésticos. Em 2015, o rendimento das mulheres equivalia a 76% do dos homens, cinco pontos percentuais a mais do que em 2005. A diferença de salários é ainda maior em cargos de gerência ou direção, segundo os dados do IBGE. Neste caso, o salário médio das mulheres equivale a 68% do valor pago aos homens. Em 2005, equivalia a 71%.
"Com a crise, houve maior corte em chefias que geralmente são mais ocupadas por mulheres, como recursos humanos e comunicação", analisa Carmem Migueles, professora de cultura organizacional da FGV. "Além disso, ainda é forte o estereótipo de que o homem tem um perfil mais agressivo, que tem maior demanda em tempos de crise", completa. Os dados do IBGE mostram que ainda é grande a desigualdade na ocupação de cargos de chefia. Em 2015, entre os brasileiros acima de 25 anos, 6,2% dos homens ocupavam cargo de chefia. No caso das mulheres, são apenas 4,7%. No ano passado, o rendimento médio real do trabalhador brasileiro foi de R$ 2.012. Já a trabalhadora recebeu, em média, R$ 1.522,00.
Apesar da alta de 38,2% no rendimento das mulheres em 10 anos, o valor observado em 2015 ainda é menor do que os R$ 1.552,00 que os homens ganhavam em 2005. Para Migueles, a diferença reflete o fato de as mulheres serem maioria em posições com menores salários, como auxiliar administrativo ou atendente de telemarketing. Os dados do IBGE indicam ainda que há maior informalidade entre as trabalhadoras, já que a jornada média de trabalho é menor do que 40 horas semanais. Segundo a pesquisa, a jornada média das mulheres foi de 34,9 horas por semana em 2015, enquanto a dos homens foi de 40,08 horas.
Ainda assim, as mulheres têm uma jornada total maior, de 55,1 horas por semana, considerando os afazeres domésticos. Para os homens, a jornada média total é de 50,5 horas semanais. Isso significa que, durante uma semana, os homens dedicam 10 horas a atividades em casa. Já a dedicação das mulheres é de 20,5 horas. Migueles diz ainda que a desigualdade na divisão dos afazeres domésticos é um dos fatores que dificultam a ascensão das mulheres no mercado de trabalho. "Ainda vivemos uma cultura bastante machista de que o homem precisa ser servido em casa. Em outros países, há tarefas de casa que são exclusivamente masculinas, como limpeza pesada e coisas que exigem maior esforço físico", comenta ela.
 

Brasileiros começam a trabalhar cedo

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ARQUIVO/JC
No momento em que o País se prepara para uma reforma da Previdência, que vai exigir que as pessoas trabalhem por mais tempo para garantir a aposentadoria, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o brasileiro ainda começa a trabalhar cedo. Em 2015, 44,2% dos ocupados maiores de 14 anos haviam iniciado antes de completar essa idade. Há 10 anos, esse indicador era pior: representavam 56% do total de pessoas trabalhando.
A entrada precoce no mercado de trabalho é mais comum entre os idosos: em 2015, dois terços deles (67,7%) tinham começado a trabalhar com até 14 anos. Entre os ocupados de 15 e 29 anos de idade essa parcela também é expressiva: 29,2% entraram no mercado de forma ilegal, já que a legislação brasileira proíbe o trabalho para jovens até 14 anos. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE.
Na avaliação do professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) João Saboia, a parcela dos trabalhadores jovens (entre 15 e 29 anos) que entra cedo no mercado de trabalho é muito alta e prejudica as perspectivas para a vida profissional dessas pessoas. "Esse jovem ou não estuda ou estuda pouco, o que compromete seu futuro e o do País, porque há grandes chances de ter baixa produtividade."
Para o professor da Universidade Candido Mendes e especialista em previdência Paulo Tafner, a idade de entrada do trabalhador no mercado está subindo. A tendência de expansão da população idosa e redução dos mais jovens vai aumentar o ônus para os trabalhadores arcarem com a previdência no futuro. Na avaliação do professor do Instituto de Economia da UFRJ João Saboia, a parcela dos trabalhadores jovens (entre 15 e 29 anos) que entram cedo no mercado de trabalho é muito alta e prejudica as perspectivas para a vida profissional dessas pessoas.

Um em quatro jovens não estuda nem trabalha

Geração nem-nem, em sua grande maioria, é formada por rapazes e homens adultos
Geração nem-nem, em sua grande maioria, é formada por rapazes e homens adultos
FREEPIK.COM/DIVULGAÇÃO/JC
Na última década, o número de brasileiros de 18 a 24 anos que não estudam nem trabalham, a chamada geração "nem-nem", cresceu no País, passando de 22,6% da população nessa faixa etária para 27,4%, ou seja, mais de um a cada quatro. Os dados são da Síntese de Indicadores Sociais 2016 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Quando se amplia o grupo etário para 15 a 29 anos, observa-se que o percentual dos que não trabalham, não estudam nem procuram trabalho passou de 12,8% para 14,4% de 2005 a 2015. Entre eles, há ainda os "nem-nem-nem-nem", aqueles que também não ajudam nos afazeres domésticos, incluindo aí os cuidados com os filhos. Eles chegaram a 23,8% em 2015. A Síntese de Indicadores Sociais é feita pelo IBGE desde 1998.
A proporção dos chamados "nem-nem" cresceu 2,5 pontos percentuais em relação a 2014 (20%) e 2,8 frente a 2005 (19,7%). Apenas entre 2014 e 2015, mais de 1 milhão de pessoas entraram nesta categoria. Já os "nem-nem-nem-nem", calculados por uma tabulação especial com base nos dados do IBGE, eram 16,5% em 2005, ou seja, o aumento na década foi de 7,3 pontos percentuais.
São, em sua grande maioria, rapazes e homens adultos, uma vez que 91,6% da população feminina de 15 a 29 anos inativa e que não frequentava escola declarou ocupar-se das tarefas da casa. Os entrevistados homens admitiram não participar das tarefas de limpeza, cozinha e atenção aos filhos, ainda que tenham tempo livre.
O motivo provável é a cultura machista arraigada na sociedade brasileira. "No caso dos 'nem-nem-nem-nem', os motivos são estruturantes, independem da conjuntura econômica. Não varia ainda que o nível de ocupação diminua. Eles podem estar desencorajados diante do mercado, podem achar que não vão encontrar nada compatível com sua qualificação. Mesmo se o cenário melhorar, os percentuais devem continuar parecidos em 2017", avaliou a analista do IBGE Luanda Botelho.
No caso da carioca Paola Borges, de 24 anos, a inatividade é a contragosto. Ela se formou em Arquitetura há três meses e enfrenta o desemprego com o noivo, engenheiro. "Estou procurando emprego on-line, mas está bem difícil, por causa da crise. Tenho sorte porque moro com meus pais. Meu noivo estava prestando serviço em uma empresa e foi dispensado porque os projetos diminuíram. Quero sair de casa e morar com ele, mas só com os dois trabalhando", lamentou Paola.
Quando se comparam homens e mulheres que trabalham fora, a persistência da sobrecarga sobre elas quanto aos afazeres domésticos fica clara. De 2005 a 2015, o número de horas semanais que os homens gastaram com esse tipo de atividade não se alterou: ficou em 10 horas. Já entre as mulheres o dispêndio de tempo é o dobro disso. Somada à jornada de trabalho fora, a jornada total semanal feminina é em média cinco horas maior.
A pesquisa verificou que os índices de gravidez na adolescência caíram 22,1% em dez anos. Outro dado foi quanto à chamada "geração canguru", pessoas de 25 a 34 anos que continuam morando com os pais. Essa população parece não basear suas escolhas no cenário socioeconômico do País. Em 2004, representavam 21,7% dessa população; em 2015, 25,3%. São pessoas mais escolarizadas e que trabalham, em sua maioria, mas estendem a permanência com a família por ainda estarem concluindo os estudos, por acomodação ao padrão de vida dos pais ou por dependência emocional deles.
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