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Porto Alegre, domingo, 06 de novembro de 2016. Atualizado às 21h31.

Jornal do Comércio

Política

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entrevista especial

Notícia da edição impressa de 07/11/2016. Alterada em 06/11 às 20h11min

Ascensão do PSDB se deu no vácuo do PT, avalia Grohmann

Para Grohmann, tucanos são o contraponto político de petistas.

Para Grohmann, tucanos são o contraponto político de petistas.


Jonathan hecler/jc
Carolina Hickmann
Após as eleições municipais, um em cada quatro brasileiros será governado por um prefeito do PSDB. Este número representa 23,9% do eleitorado e é a maior faixa populacional dominada por um partido desde 2004. O cientista político Gustavo Grohmann vê esse movimento como natural, tendo em vista a queda do desempenho do PT nas mesmas eleições municipais.
Para Grohmann, tucanos são o contraponto político de petistas. "Os dois atuam praticamente no mesmo campo, um mais para a esquerda, outro mais para a direita", explica. O antipetismo ficou claro no segundo turno. Dos sete candidatos da sigla que participaram da segunda etapa do pleito, apenas um saiu vitorioso. "Vivemos o que outros países já viveram. As esquerdas tradicionais estão sem capacidade de fazer intervenção", comenta como sendo um fator para o que vimos nas urnas.
Sobre as eleições de Porto Alegre, Grohmann é claro: Sebastião Melo (PMDB) perdeu o pleito por ser da situação e por uma crise na segurança emprestada do governo do Estado. Quanto ao governo de Nelson Marchezan Júnior, o cientista político alerta que as privatizações nem sempre são positivas, mas avalia haver espaço para a medida na cidade. "O que não sabemos são as consequências e os custos. Em um primeiro momento, se alguma coisa está dando prejuízo, é muito fácil dizer que privatizando resolve. Não resolve", alega.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o cientista político ainda avalia como positiva a proibição das doações empresariais para campanhas. Além disso, contesta a intenção dos políticos em manter afastados dos debates e TVs os partidos que não tenham representação no congresso.
Jornal do Comércio Qual a sua avaliação das eleições municipais?
Gustavo Grohmann - O fator mais evidente, e que é muito comentado, é a queda rápida do PT no processo eleitoral. Houve um decréscimo significativo da votação e com isso também da votação à esquerda. Ele não foi substituído por outros partidos do mesmo espectro. Por outro lado, também não assistimos uma emergência de partidos à direita. O que foi reforçado foi a votação nos partidos de centro. Ora mais à esquerda, ora mais à direita - como o PMDB e o PSDB. A sigla que se colocava como sinalizadora de uma política ideológica é a que naufragou.
JC - E o PSDB ganhou mais força...
Grohmann - Ele nunca saiu do cenário político. Sempre foi o contraponto político ao PT. Os dois atuam praticamente no mesmo campo, um mais para a esquerda, outro mais para a direita. Vejo como natural que, no vácuo deixado pelo PT, o PSDB entre com tudo. Também é natural o PMDB estar em segundo, sempre foi o partido com mais prefeituras e mais vereadores no Brasil. É um partido nacionalmente enraizado.
Confira um trecho da entrevista:
JC - E como fica a esquerda no Brasil com essa queda?
Grohmann - A esquerda brasileira aderiu ao projeto petista com a sigla na presidência. Aquela crise econômica que se inaugurou em 2008 no mundo também era uma crise do capitalismo. E não havia mais uma esquerda ou uma social-democracia capaz de colocar um projeto alternativo. O setor financeiro, no mundo inteiro, dominou a cena. A esquerda no Brasil viveu um período de excepcionalidade a partir de 2008. Houve uma conjuntura que lhe favoreceu e ela estava no poder. Agora veio a conta da crise para o país. Vivemos o que outros países já viveram. As esquerdas tradicionais estão sem capacidade de fazer intervenção, o que se refletiu nas urnas. Ainda não é uma virada para o campo da direita, mas o campo da direita está se constituindo.
JC - Aqui no Brasil, esses movimentos antipetistas não apontam nesse sentido?
Grohmann - Sim. Mas o MBL ainda não é uma alternativa consistente.
JC - O prefeito eleito de Porto Alegre foi apoiado pelo MBL...
Grohmann - Não acredito que eles tenham relações umbilicais. Acredito que ele tenha um outro perfil e outra família política. Essa família política do MBL nasceu agora. Ela não têm uma raiz consistente e cabe avaliar o que virá. Os três vereadores eleitos, apoiados pelo movimento, só mostram a quantidade de recursos. Eles têm a capacidade é de galvanizar antigos eleitores de setores mais conservadores e representar, na cabeça dessas pessoas, talvez uma renovação.
JC - E quanto a Sebastião Melo (PMDB)?
Grohmann - Melo sofreu desgaste por ser da situação. A cidade está com muitos problemas. Há uma degradação evidente em relação aos mandatos do PT, que fizeram coisas realmente importantes para a cidade. Os problemas aconteceram mais recentemente. Também há uma crise por empréstimo. Estamos com problema de segurança. Melo é do partido do governador. Quem acha que isso não contamina está redondamente enganado. Apostou-se em um candidato jovem, com um discurso dinâmico, e que tem capital político. Ele não é um aventureiro. Ele tem uma família política. Não uso esse termo por ele ter um pai que foi político da Arena, mas ele é enraizado politicamente em grupos políticos. Cabe ver agora o que irá acontecer.
JC - Existe espaço para as privatizações, citadas por Marchezan como uma possibilidade?
Grohmann - Tem espaço. O que não sabemos são as consequências e os custos. Em um primeiro momento, se alguma coisa está dando prejuízo, é muito fácil dizer que privatizando resolve. Não resolve. Estou muito desconfiado desse prejuízo da Carris, por exemplo. Agora falam que praticamente 30% ou mais é déficit pela gratuidade. É um índice muito alto. Tem alguma outra coisa acontecendo. Com todos esses processos informatizados, é muito fácil auditar todas essas coisas. A ideia é sempre de que se tem corrupção no meio. Esse é o senso comum. Não diria que é só corrupção não.
JC - Má gestão?
Grohmann - Também. A falta, justamente, de um relacionamento mais tranquilo com os setores ativos da cidade, como movimentos sociais. Uma coisa de construção de alternativas. Não basta, para o governo, colocar em votação um projeto, ganhar ou perder. Um governo tem que construir alternativas. Me parece que isto não é feito.
JC - O orçamento participativo não seria uma maneira de buscar isso?
Grohmann - O Orçamento Participativo decaiu bastante em sua capacidade de veicular políticas. Ele pode ser um canal, mas talvez tenham burocratizado a perspectiva do OP. Deu certo e deixaram como estava, em vez de avançar nas formulações para alcançar um grau maior de eficiência nas políticas públicas.
JC - O próximo gestor precisa consultar mais a população?
Grohmann - Não é somente a consulta. É uma construção conjunta. O gestor pode até ter uma boa proposta, mas, por não convencer o conjunto da população, perde legitimidade e capacidade de implementação. A política tem isso. Quem tem viés autoritário rapidamente esquece disso. Por mais iluminada que a proposta seja, tu tens que convencer aos outros que ela é boa e fazer com que uma boa parte das pessoas ainda colabore com a tua perspectiva. Além de criar um processo de responsabilização coletiva
JC - De alguma maneira, a população já não faz isso? A exemplo das ocupações nas universidades contrárias à PEC 241.
Grohmann - A PEC sendo aprovada não vale para os Estados e prefeituras, mas tendência é ela ser puxada para eles. Como no Brasil as leis pegam ou não, no sentido de aplicação, tenho dúvidas de que essa PEC se sustente durante os 20 anos que estão propondo. Se coloca outra PEC para desmanchar com essa. O problema é de ordem orçamentária e que não tem necessariamente a ver com limitação de gastos. Ela é uma maneira inteligente de burlar os percentuais de orçamento que irão para a saúde e educação. Tendo uma arrecadação menor de dinheiro, o restante que entrar é livre.
JC - A discussão de propostas durante a campanha, entre os candidatos, foi positiva?
Grohmann - Dado que tu não tens uma organização da sociedade em termos de política ideológica muito clara, mistura um certo pragmatismo político com fisiologismo em várias culturas políticas, e esses partidos ocupam um espectro meio de centro, a tendência é sempre calcar muito nas questões de ordem pessoal. Acho que até que, com todas as dificuldades, teve alguma coisa na campanha no sentido de este está na atual administração. Conheço e não gosto. Este não está e propõe algumas mudanças.
JC - Melo disse, durante toda a campanha, que o PSDB havia composto o governo. Como fica isso?
Grohmann - Na verdade, depois que se elegem, todos os que têm afinidade política se juntam.
JC - Então não é difícil imaginar que tenhamos quadros no PMDB na próxima gestão.
Grohmann - Pode ter sim. É possível, não sei se é provável por eles estarem em uma briga braba. Precisamos aguardar para ver qual grupo terá mais poder de convencimento, mostrando os benefícios e malefícios. No Brasil é complicado colocar porteira fechada, há um grau de fragmentação muito grande e não se formam maiorias fáceis. E quando estes partidos assumem os governos, não há quadros qualificados para compor. Mesmo que haja um grupo, é muito cargo para pouco staff.
JC - Da mesma maneira, haverá uma política de alianças também no Legislativo de Porto Alegre?
Grohmann - Sim, o prefeito precisa ter maioria na Câmara. Senão ele terá a sua vida dificultada. É o mesmo dilema da presidência. No Brasil, as pessoas acham que a presidência é a toda poderosa. Isso é uma falsa aparência. Os prefeitos, governadores e presidentes tem uma certa limitação.
JC - Marchezan tem um vereador do PSDB...
Grohmann - Ele terá que negociar com todo mundo. E é aí que as coisas começam a complicar. Mesmo o Melo, que tinha uma das principais bancadas, precisaria compor.
JC - E como fica o não voto nessa conjuntura? Tivemos um volume recorde de abstenções, e votos brancos e nulos. De alguma maneira, isso deslegitima o governo?
Grohmann - Isso não deslegitima. Está previsto no ordenamento institucional e esse resultado é respeitado. Cria uma dificuldade para os políticos em geral, já que uma boa parte da população não os vê como alternativas concretas de exercer o poder. Tu não tens a ausência ou não formação de um governo, das autoridades legislativas. Elas são legítimas.
JC - E o voto nulo?
Grohmann - É uma outra espécie. O nulo tende a ser mais um voto de protesto. Claro que no nulo se tem enganos e indecisões. Houve aumento, mas não foi o suficiente para deslegitimar o governo. Isso não significa coisa nenhuma na atual conjuntura que não uma insatisfação de certos setores. Não é uma insatisfação generalizada.
JC - Uma renovação de quadros ajudaria?
Grohmann - Ajudaria. Pessoas novas...
JC - O PT ter apostado em Raul Pont, que já foi prefeito da Capital, pode ter prejudicado de alguma maneira a candidatura?
Grohmann - Se o PT viesse com o rei da Dinamarca pintado de ouro, não iria emplacar. A conjuntura ficou muito desfavorável.
JC - O que levou o PT a esta situação?
Grohmann - Vários fatores. A disputa se acirrou e houve uma combinação de investigações em relação a atos deste partido - que outros também fizeram - e uma concentração midiática muito forte. As forças que se opõem ao PT e ao que ele representa, ao menos simbolicamente, jogaram todas as fixas para a realização do afastamento do PT do poder. Só que neste processo assistimos algumas coisas preocupantes. Não diria preocupante a emergência de setores claramente à direita. Isso faz parte do jogo democrático. Diria que as idas e vindas institucionais, tendo em vista seus objetivos, foram muito ruim para o país.
JC - E qual a sua avaliação da minirreforma política?
Grohmann - A mais significativa foi o corte de recursos. Gostei do efeito. Tirou muito do fator econômico da eleição. Alguns candidatos foram eleitos por terem aporte de dinheiro. Cabe à Justiça Eleitoral dar mais transparência para estes processos todos. Realmente proibir o financiamento empresarial. Eles não tem que colaborar enquanto empresas, se quiserem colaborem enquanto pessoas.
JC - Então, de saída, as novas medidas foram positivas?
Grohmann - Na primeira vez ninguém está acostumado a fazer sem dinheiro. Bom, mas na segunda ou terceira, provavelmente, vão achar o caminho.
JC - E a necessidade de cadeiras no Congresso para participar de debates é saudável para a democracia?
Grohmann - Não. No Brasil, montam as coisas institucionais como puxadinhos. Se os pequenos incomodam tanto assim, tu tens que fazer leis restritivas do ponto de vista eleitoral para aumentar o grau de competitividade dos partidos. Não tornar a vida de um pequeno partido fácil do ponto de vista eleitoral. Esse tipo de medida preserva a possibilidade de negociatas. Eles não querem terminar com os pequenos partidos. Do jeito que está hoje tu tem o efeito da coligação que mete para dentro dos congressos os pequenos partidos. Tem uma liberalidade de pular de partido que também incentiva isso. Esse negócio do tempo é uma esperteza, não é bom para a sociedade. Aí que se dá o fechamento da política.

Perfil

Luis Gustavo Mello Grohmann nasceu em 2 de janeiro de 1960 e é natural de Porto Alegre. Atualmente, Grohmann coordena o grupo de trabalho Comportamento e Instituições Políticas do Centro de Estudos Internacionais de Governo (Cegov) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), instituição na qual atua como docente do departamento de Ciência Política, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Antes disso, Grohmann foi professor na Universidade Federal de Santa Maria. Concluiu seu doutorado em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) em 2003, com estudo sobre os vetos presidenciais no Brasil. Em seu mestrado, estudou a representação política, o sistema eleitoral e o sistema partidário no Rio Grande do Sul. O professor tem mais de 30 textos publicados em periódicos e participação em, ao menos, seis livros. Grohmann atua na área de Ciência Política, em especial nas linhas de pesquisa "Comportamento e Instituições Políticas".
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