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Porto Alegre, segunda-feira, 31 de outubro de 2016. Atualizado às 08h28.

Jornal do Comércio

Empresas & Negócios

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consumo

Notícia da edição impressa de 31/10/2016. Alterada em 28/10 às 18h49min

Poder de compra cai 9% em dois anos no País

População está mais pobre e sem condições para poupar

População está mais pobre e sem condições para poupar


Asierromero/Freepik.com/Divulgação/JC
O orçamento cada vez mais apertado trouxe novos hábitos para a vida da consultora de beleza Karen Lima Piasentim. Com a renda em queda, ela trocou o antigo hobby de comprar sapatos por uma nova mania: colecionar tabloides de liquidação e traçar estratégias para conseguir comprar ao menor preço possível. A ideia é mapear os trabalhos fora de casa e os supermercados que estão na mesma rota. "Assim, consigo comprar o produto mais barato e não gasto combustível", conta a consumidora, que também virou visitante assídua de sites de desconto.
O malabarismo feito por Karen tem sido rotina para grande parte das famílias que viram os gastos extrapolarem a renda de 2014 pra cá. Em dois anos, o poder de compra da população brasileira - um cálculo que leva em conta a renda do mercado de trabalho, a renda da previdência, o crédito, os juros e a inflação - caiu de R$ 3,49 trilhões para R$ 3,17 trilhões, queda de 9,1% chegando ao menor patamar desde 2011, segundo a Tendências Consultoria Integrada. 
Neste ano, segundo o economista João Morais, autor do levantamento, o principal limitador do poder de compra das famílias brasileiras foi o mercado de trabalho. Em dois anos, a taxa de desemprego do País saltou de 5% para 11,6%. Junta-se a isso o aumento dos juros e a escalada dos índices de preços ao consumidor, que corroeram a renda do brasileiro (algo em torno de 24% de 2014 pra cá).
No dia a dia, o efeito desse conjunto de taxas e cifras é a sensação de que o mesmo salário não dá conta das mesmas despesas do passado. "Tivemos dois anos de inflação alta e reajustes salariais abaixo dos índices", lembra Morais. Para encaixar as despesas ao orçamento, os consumidores cortam quantidades, trocam marcas, eliminam produtos considerados não essenciais e mudam hábitos.
Só neste ano, o consumo de combustíveis caiu 4,44%; o de energia elétrica, 1,25%; e a venda de veículos novos recuou 22,8%. "Temos percebido uma mudança no padrão de consumo dos brasileiros, que passaram a racionalizar até na alimentação", afirma Christine Pereira, diretora comercial da Kantar Worldpanel, que consulta 11,3 mil lares no Brasil inteiro.
Segundo ela, esse movimento se reflete em marcas mais populares e no aumento das idas ao supermercado em busca de promoções. "As famílias estão fazendo malabarismo. Mesmo nas promoções, para comprar algum produto 'premium', só com uma marca mais popular", diz a executiva. Karen confirma a tese de Christine. "Antes, tinha preconceito com algumas marcas. Hoje, experimento coisas que não conheço."

Retomada deve ser lenta e leva à readaptação do orçamento familiar

A queda no poder aquisitivo fez o brasileiro rever alguns hábitos adquiridos nos tempos de bonança da economia. As idas aos restaurantes escassearam, e a frequência nos supermercados subiu - afinal, cozinhar em casa é mais barato. De acordo com o boletim Consumer Thermometer, da Kantar Worldpanel, de agosto, 22,7 milhões de lares aumentaram a frequência em supermercados em busca de liquidações.
"Percebemos que as famílias estão comprando ingredientes para fazer a comida em casa, como leite condensado, creme de leite, linguiça e hambúrguer", diz a diretora comercial da Kantar, Christine Pereira. Segundo ela, desde o início da crise, os produtos que mais crescem na lista de compras são linguiça, açúcar e café torrado. E essa mudança de hábito deve demorar a ser revertida.
Segundo João Morais, economista da Tendências Consultoria Integrada, o poder de compra dos brasileiros deve começar a se recuperar a partir de agora, mas lentamente. Em seus cálculos, no ano que vem, o poder de compra deve crescer algo em torno de R$ 50 bilhões, de R$ 3,17 para R$ 3,22 trilhões - muito pouco diante das perdas acumuladas. No cenário de Morais, essa pequena retomada será impulsionada pelo crédito e redução dos juros.
Enquanto o cenário de crise não é revertido, a regra é se adaptar. A representante comercial Tatiana Arjona parou de comer fora, trocou o Nespresso, em cápsulas, pelo café Pilão, em pó, e deixou de ir ao salão de beleza para fazer unha em casa. "Está tudo muito caro. Parece que o dinheiro não vale mais nada", diz. Ela fechou uma empresa por causa da crise e passou a ser representante comercial ao lado do marido, Ivan. Nesse processo, a renda do casal caiu 40%.
Até mesmo durante a semana, em que precisa comer fora, ela tem racionalizado. "Costumávamos almoçar num restaurante específico e trocamos por um mais barato para se encaixar no novo orçamento."
Como ela, outros milhares de brasileiros têm seguido o mesmo caminho. O tíquete médio nos restaurantes por quilo - que mostra quanto cada pessoa paga por refeição - caiu 13% no último semestre e o do prato feito, 3%. Por outro lado, houve aumento de 15% na frequência em que o consumidor optou pelo sanduíche na hora do almoço, segundo a Kantar.
Na casa da consultora de beleza Karen Piasentim, até a tradicional pizza entrou na dança. Pesquisadora voraz de promoções e liquidações, ela encontrou um local no bairro onde a pizza custa metade do preço. "Pagava R$ 40,00 e agora compro por R$ 24,00. E é gostosa." Outra estratégia adotada por ela é usar o tíquete alimentação do noivo para fazer as compras do mês. "Eu cozinho, e ele leva marmita. Fica muito mais barato."
"Sem dúvida, a maior redução ocorreu no setor de serviços, seja de alimentação ou de beleza", diz o diretor executivo da consultoria Plano CDE, Maurício de Almeida Prado. Segundo ele, a diminuição de saídas para comer fora não só impulsionou idas ao supermercado como também elevou a demanda por alguns serviços. Estudo feito pela consultoria detectou que houve aumento na busca por pacotes de internet, além da estabilidade nas assinaturas de TV.
A explicação é que a classe C usou esse mix de internet e TV a cabo para preencher o vácuo deixado pela redução dos programas de lazer. Na opinião de Prado, outra característica desse momento é a mudança para marcas mais populares. "É quase uma volta atrás no consumo. Hoje, os brasileiros priorizam e valorizam mais o custo dos produtos." A psicóloga Michelle Dehn não só troca as marcas como também os produtos de acordo com o preço. Se uma determinada mercadoria está cara, ela compra uma similar ou simplesmente corta da cesta do mês. Ao perder o emprego em um hospital, o orçamento familiar ficou bastante reduzido, conta ela. Hoje, seu rendimento vem do consultório, onde a renda também foi reduzida. "Não perdi paciente, mas tive de renegociar preço." Para se adaptar à nova realidade, Michelle colocou a filha para estudar apenas meio período. Na escola do outro filho, negocia uma bolsa. Se não conseguir, terá de procurar uma escola mais barata. "Sentimos muita falta dos passeios de fim de semana, das viagens e dos restaurantes, mas tentamos compensar com a reunião de amigos."

Vendas no varejo têm queda em agosto ante julho, diz IBGE

As vendas do comércio varejista caíram em seis das oito atividades pesquisadas em agosto ante julho, na série com ajuste sazonal, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A maior queda foi verificada na atividade de venda de equipamentos para escritório e informática, com tombo de 5,0% em agosto ante julho. Na contramão, as vendas nos supermercados, que representam o maior peso no varejo restrito, subiram 0,8%.
Na varejo ampliado, a venda de veículos tombou 4,8% em agosto ante julho. O IBGE também revisou a queda na venda de veículos em julho ante junho, de -0,3% para -1,4%, contribuindo para a revisão de -0,5% para -1,0% no varejo ampliado como um todo.
A recuperação dos indicadores de confiança ainda não se traduziu em vendas, afirmou a gerente da coordenação de serviços e comércio do IBGE, Isabella Nunes. Mais cedo, o IBGE anunciou que as vendas do varejo caíram 0,6% em agosto ante julho. Sobre agosto de 2015, a queda é de 5,5%.
A pesquisadora lembrou que as pesquisas de confiança medem a percepção sobre o futuro. "O futuro a Deus pertence", disse Isabella. Segundo o IBGE, em agosto, o volume de vendas no varejo ficou 12,9% abaixo do pico registrado em novembro de 2014. Isabella não vê elementos nos dados de agosto para afirmar que o pior já passou para o setor varejista.
A alta de 0,8% nas vendas dos supermercados em agosto ante julho, na contramão da queda de 0,6% no varejo restrito, foi um movimento de acomodação, explicou Isabella Nunes. Segundo a pesquisadora, o quadro de inflação pressionada, desemprego em alta e juros elevados, que segue inibindo o consumo, leva as famílias a ajustarem seus orçamentos, adiando gastos, sobretudo com bens duráveis.
"As famílias evitam todo o consumo que podem postergar ou substituir. Daí sobram recursos para uma atividade que não dá para postergar, que é supermercado", afirmou Isabella, em entrevista coletiva. De acordo com ela, esse movimento de acomodação ocorre desde maio. Como os dados divulgados hoje são de agosto, ainda não há nenhum efeito relacionado ao alívio da inflação, mais concentrado em setembro, disse a pesquisadora.
Isabella chamou atenção ainda para o fato de que, na comparação com agosto de 2015, as vendas dos supermercados caem 2,2%. É a atividade que mais contribuiu para o recuo de 5,5% nas vendas do varejo restrito nessa base de comparação.
"Embora tenha movimento de acomodação na margem, porque as famílias têm disponibilidade maior de recursos, na comparação com agosto de 2015, a queda é de 2,2%", disse Isabella.
O Índice Cielo de Varejo Ampliado (ICVA) também recuou e registrou queda de 4,9% em setembro em relação a igual mês do ano passado, após ter caído 6,2% em agosto, na mesma base de comparação, na série com ajuste de inflação. Em termos nominais, o indicador, que registra a receita de vendas do comércio varejista, mostrou alta de 4,1% em setembro ante o mesmo mês de 2015, um resultado melhor do que o apurado em agosto (3,7%). No terceiro trimestre, a retração no ICVA, descontada a inflação, foi de 4,9% em relação ao mesmo período de 2015.
A Cielo aponta, em nota, que, "apesar do desempenho ainda negativo, a curva deste ano mostra uma estabilização no ritmo de retração do varejo, que antes vinha numa trajetória descendente". Em setembro, o relatório da Cielo apontou pouco impacto dos efeitos dos calendários se comparado ao mesmo mês do ano passado. Segundo a Cielo, se esses efeitos fossem retirados, o ICVA teria registrado queda de 5,1%, mesmo número de agosto na série com ajustes de calendário. "Os números indicam, portanto, estabilidade no ritmo do varejo ampliado em relação ao mês anterior", afirmou a nota técnica da Cielo.
Todas as regiões apresentaram leve recuperação no varejo em relação a agosto medida pelo ICVA deflacionado, embora ainda estejam em terreno negativo. A maior retração ocorreu no Norte (9,4%), seguido do Nordeste (5%), Sudeste (4,7%), Centro-Oeste (4,6%) e Sul (2,9%).
Entre os setores que compõem o varejo ampliado, os que comercializam bens duráveis e semiduráveis, que geralmente tem maior tíquete médio e menor frequência de compra, seguem com a maior retração do índice.
Dentro do bloco que representa os bens duráveis, os setores de Supermercados, Hipermercados e Postos de Combustíveis registraram mais uma desaceleração na margem, mas os demais segmentos, como Cosméticos, Drogarias e Varejo Alimentício Especializado apresentaram aceleração no desempenho mensal.
Já o grupo Serviços, apesar de continuar apresentando retração, ficou acima da média do varejo em setembro. Turismo e Transporte mostrou aceleração em relação a agosto, enquanto Recreação e Lazer apresentou desaceleração, uma vez que a Olimpíada no Rio de Janeiro chegou ao fim. Alimentação em Bares e Restaurantes também desacelerou na passagem mensal.
O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) acompanha mensalmente a evolução do varejo brasileiro de acordo com a sua receita de vendas, com base em um grupo de mais de 20 setores mapeados pela Cielo, de pequenos lojistas a grandes varejistas. O peso de cada setor dentro do resultado geral do indicador é definido pelo seu desempenho no mês.
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