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Porto Alegre, terça-feira, 13 de setembro de 2016. Atualizado às 01h10.

Jornal do Comércio

Internacional

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Notícia da edição impressa de 13/09/2016. Alterada em 12/09 às 21h17min

Desequilíbrio de poderes abriu espaço para conflitos

Intervenções ocidentais no Oriente Médio expuseram papel das diferenças culturais que potencializam guerras

Intervenções ocidentais no Oriente Médio expuseram papel das diferenças culturais que potencializam guerras


AHMAD AL-RUBAYE/AFP/JC
Juliano Tatsch e Suzy Scarton
A derrocada da União Soviética (URSS), no início dos anos 1990, revirou as peças no tabuleiro da geopolítica internacional. O historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012) aponta que, com o fim da URSS, o sistema de grandes potências - baseado na bipolaridade com os Estados Unidos, com algumas exceções - que controlou os conflitos internacionais deixou de existir. A instabilidade surgida com a desintegração da união das repúblicas socialistas do Leste desequilibrou a balança de poderes. Assim, abriu-se caminho para a explosão de embates localizados e intervenções armadas de países mais fortes em outros.
As ações militares norte-americanas no Afeganistão e no Iraque como resposta aos ataques de 11 de setembro de 2001 são um exemplo disso. A retórica de que os EUA precisam agir como um tipo de mediador das forças internacionais, levando liberdade aos oprimidos, se mostrou frágil. Hobsbawm chama de "imperialismo dos direitos humanos" a prática de nações poderosas intervirem militarmente para "preservar ou impor os direitos humanos em uma era de crescente barbárie, violência e desordem".
O acadêmico salienta que as duas recentes guerras travadas pelos EUA não ocorreram por razões humanitárias, "embora tenham sido justificadas perante a opinião pública humanitária com base na destituição de regimes detestáveis". A prova de que os cenários políticos das duas nações não mereceriam uma atenção especial norte-americana, conforme o britânico, reside no fato de que, não fosse pela ocorrência do 11 de Setembro, as situações dos dois países não seriam consideradas como merecedoras de uma invasão imediata.
Ou seja, foi o ataque em seu território e a necessidade de defender os seus interesses e alimentar a popularidade de seus governantes que fez os EUA agirem - não um sentimento de solidariedade a nações que sofriam com o jugo de um ditador sanguinário e de uma milícia opressora.
Para o acadêmico, autor do clássico "A era dos extremos", a história recente de intervenções armadas não é de êxito e isso se deve a uma premissa e uma crença. A premissa é a de que regimes bárbaros e tiranos são imunes à mudança interna, de modo que apenas a força externa pode os extinguir e produzir os valores e instituições políticas e legais do país invasor. Já a crença é a de que os atos de força podem produzir instantaneamente grandes transformações culturais. "A difusão de valores e de instituições através de sua súbita imposição por uma força estranha é tarefa quase impossível, a menos que já estejam presentes no local condições que os tornem adaptáveis e sua introdução, aceitável", diz Hobsbawm.
No caso em questão, as diferenças mais evidentes se centralizam nas religiões praticadas em cada região. A imagem de um islamismo fanático, irracional e quase desumano criada no Ocidente majoritariamente cristão acentuou o embate que carrega consigo aspectos diversos, mas tem nos interesses econômicos um trampolim para as ações de agressão.
O coordenador do programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), André Luiz Reis da Silva, corrobora a visão de Hobsbawn. "O problema é querer transportar diretamente os valores e as instituições democráticas para sociedades com experiências e culturas diferentes. A construção democrática é feita internamente, às vezes com derramamento de sangue, mas é um longo processo de aprendizado", explica.
 

Ocidente e Oriente: falta de aceitação do outro leva a choque cultural

Uma das principais críticas feitas às grandes potências ocidentais - principalmente os EUA, a Grã-Bretanha, a Alemanha e a França - diz respeito ao modo como elas enxergam o Oriente. Por Oriente, neste caso, entende-se as nações mais pobres da região e aquelas com cultura totalmente distinta, principalmente as nações árabes.
O intelectual palestino Edward Said (1935-2003) chamou essa visão distorcida do outro pelo nome de Orientalismo. Said definia o Orientalismo como "o modo ocidental de dominar, restruturar e exercer o poder sobre o Oriente". Para ele, essa era a forma criada para a perpetuação dos estereótipos acerca daquilo que era visto como diferente.
Assim, pelo olhar de Said, a razão pela qual a Europa e a América têm dificuldade em lidar com os países árabes, principalmente, reside no fato de que o Ocidente não entende o Oriente. E, na tentativa de fazê-lo ao seu modo, se apodera da outra cultura, desfigurando-a e assimilando seus traços. Ou seja, os ocidentais criam um imaginário próprio para observar e descrever os orientais e, a partir daí, organizar a sua percepção do outro e o modo como o trata, criando valores próprios, baseados em seus interesses, e não nas realidades existentes na cultura diferente.
Para Silva, o Orientalismo identificado por Said pode ser descrito como um estudo sobre o Oriente feito por intelectuais no final do século XIX e início do século XX. "A crítica que ele fazia era que esse Oriente que o Ocidente pesquisava era idealizado, que não deixava os orientais falarem por si mesmo - a ideia do exótico, da mulher sensual, do homem bárbaro -, e isso criou uma série de estereótipos com pouco vínculo com a realidade", opina o coordenador.
Com o tempo, a teoria vai se reciclando e criam-se duas vertentes, uma que deseja conservar esse imaginário exótico e outra que prefere destruir essas visões diferentes do Oriente. "A própria divisão entre Oriente e Ocidente já impede a compreensão. É uma visão maniqueísta, e, se não houver abertura para dialogar com diferentes sociedades, é impossível compreendê-las", explica.

Transformações não podem ser impostas por potências estrangeiras

Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Bruno Biazetto aponta que a superação dos problemas internos dos países árabes passa, necessariamente, por mudanças oriundas das próprias sociedades em questão. "Não é algo que vai ser levado por nós. Eles precisam achar um jeito de essas coisas funcionarem dentro dos seus próprios valores. É algo que tem que ser feito de dentro para fora", diz.
Para exemplificar a intolerância das culturas ocidentais, o professor de Relações Internacionais da Ufrgs Paulo Fagundes Visentini cita a recente polêmica que ocorreu na França, quando as autoridades proibiram o uso do traje de banho muçulmano, chamado burkini. "A França possui um modelo econômico que não oferece emprego aos cidadãos, e recebe estrangeiros, mas os obriga a se comportarem, a se vestirem e a agirem como os franceses. Eles irritam, tratam mal e são racistas, e chega um determinado momento que as pessoas começam a se incomodar muito com essa situação", pondera. O resultado é que alguns dos atentados são cometidos por pessoas que nem pertencem a grupos, mas que querem dar um recado porque se sentem marginalizadas e sem perspectivas.
Professor titular e diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense, Eurico de Lima Figueiredo, por sua vez, acredita que tanto a Europa quanto a América compreendem muito bem o que se passa no Oriente Médio. Entretanto, as poderosas nações ocidentais preferem priorizar seus interesses a colaborar de forma prática para a resolução dos conflitos locais naqueles países - conflitos esses que acabam sendo terra fértil para o surgimento de grupos extremistas.
"Antes de mais nada, estão os interesses econômicos. O petróleo, apesar de todo esforço de fontes alternativas, ainda é a energia que move o mundo. Enquanto não tivermos uma alteração na geopolítica do petróleo, acredito que esses embates devam continuar, até que seja possível identificar e explorar economicamente novas fontes de energia", afirma.
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