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Porto Alegre, quinta-feira, 21 de julho de 2016. Atualizado às 21h57.

Jornal do Comércio

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Jaime Cimenti

Livros

Notícia da edição impressa de 22/07/2016. Alterada em 21/07 às 16h57min

A complicada iniciação de Karl Ove Knausgard

Uma temporada no escuro (Companhia das Letras, 496 páginas, R$ 59,90, tradução de Guilherme da Silva Braga) é o quarto volume - de um total de seis - da série autobiográfica Minha luta, do consagrado autor norueguês Karl Ove Knausgard, que hoje faz parte do star system literário mundial e esteve na última Flip, em Paraty.
Por ter rompido as amarras da ficção, pela criatividade, pelo alto grau de confessionalismo e pelo impacto de tamanho amazônico que já causou pelo mundo, com prêmios importantes e edições em vários países, Knausgard tem sido chamado de antiproust ou Marcel Proust Nórdico. Cada leitor poderá decidir como quer qualificar o escritor que nasceu em Oslo em 1968, estudou literatura na Universidade de Bergen e hoje vive em Malmo, na Suécia, com a mulher e os filhos.
Uma temporada no escuro trata da vida de Knausgard quando ele, aos 18 anos, tinha acabado de se formar e foi para uma vila de pescadores no Norte da Noruega dar aulas a adolescentes pouco mais jovens que ele. Aquele ano fora de casa era desculpa para juntar um dinheirinho, viajar e começar a se dedicar à escrita.
Quando o inverno e aquela escuridão do Ártico chegam, o escritor principiante, pressionado pelo mundo exterior, atrapalha-se com sua perda de virgindade e enfrenta as primeiras agruras de quem pretende produzir uma obra extraordinária. O fracasso da virilidade e as dificuldades sociais levam Knausgard ao consumo excessivo de álcool, e aí a escuridão exterior e interior toma conta.
O volume tem sido considerado o mais rápido e engraçado dos seis da famosa série autobiográfica de Knausgard e tem o ritmo da palavra escrita no diário do jovem Karl de 18 anos: rock n' roll. Jeffrey Eugenides, autor de As virgens suicidas, escreveu no New York Times que o espírito do livro é o grito de um garoto com uma coleção incrível de discos que sonha em se tornar escritor, redigido pelo grande escritor que ele enfim se tornou.
O alto grau de sinceridade do autor e o fato de escrever de forma totalmente aberta e direta sobre si, família, amigos e temas que outros escritores evitam, como embriaguez do pai, bullying, depressão, sentimento de fracasso, frustração e fuga da realidade que o afetaram diretamente têm causado polêmica e problemas para Karl com familiares, leitores, críticos e mídia.
Mas, por outro lado, Knausgard hoje, com suas palavras e silêncios, conquistou seu espaço e revelou, como disse, que ele é simples, mas sua literatura, não. "Tentei escrever de forma totalmente aberta: não estou mostrando nada, simplesmente é o que é, um estado mental", disse o autor em entrevista, sintetizando seu fazer literário que o coloca, ao lado da italiana Elena Ferrante e do japonês Harukio Murakami, entre alguns outros, no primeiro time da literatura internacional.

O Centro Histórico vai ficar na História?

Fiquei em dúvida se escrevia o que vou escrever. Mas admiro as fotos e os textos do melhor página três do Cone Sul, The Fernando Albrecht, de terça-feira passada, no lépido octogenário Jornal do Comércio. Aí pula a inspiração e a coragem para cumprir minha tarefa de cronista e falar do Centro Histórico de Porto Alegre neste frio inverno de 2016, frio, aliás, que deixa o Centro ainda mais gris e triste.
Por motivo de trabalho, durante a semana vou ao Centro, no 10º andar do prédio número 1.234 da Rua da Praia, o mais alto da cidade, com um terraço com vista de 360º na cobertura que merecia ser ponto turístico.
Desço do lotação ou do ônibus de olho na vizinhança, para não ser surpreendido por algum meliante. Caminho pela Rua da Ladeira, onde, esses dias, às 10 da manhã, dei de cara com sangue fresco na calçada. Dei graças a Deus que não era o meu sangue, que tinha escapado daquele tiro. E de outros tiros em outros bairros, cidades e países, que o mundo anda, literalmente, um terror. Antigamente, a gente tinha medo da bomba atômica, que ia acabar com o mundo. Hoje é homem-bomba, bomba disso e aquilo e terror variado lá por tudo, noticiado demais pela imprensa. A imprensa antes não noticiava os suicidas com dor de cotovelo que ouviam as músicas do Lupicínio e se atiravam do Viaduto da Borges. Será que não era melhor a imprensa mais discreta da época? Os jornalistas achavam que noticiando poderiam incentivar os suicidas e que deviam respeitar os mortos e as famílias.
Fico triste vendo o Centro assim, ainda sem a prometida revitalização da Rua da Praia, sem as obras do Cais do Porto e cada vez com menos vida e movimento de pessoas. Comércio informal tomando conta, frutas, verduras e mercadorias variadas nas calçadas, moradores de rua, prédios inteiros vazios, salas e apartamentos desocupados. O que salva a pátria são algumas atividades comerciais, de serviços públicos e privados remanescentes e alguns músicos de rua de boa qualidade, que tentam sobreviver no palco mais digno, a praça pública. Alguns trechos residenciais do Centro Histórico ainda conservam vida fora do horário comercial, mas de noite, mais do que de dia, como, aliás, em quase toda a cidade, a insegurança aprisiona os sobreviventes do inverno gaúcho em suas tocas.
O Mercado Público, alguns bares, restaurantes, hotéis restantes, templos religiosos, prédios públicos e alguns prédios com atividades culturais nos animam um pouco, nos fazem ter alguma esperança de que o Centro Histórico não vai ficar para a História.
Sei que a sugestão é polêmica, mas acho que só povoando mais o Centro a coisa muda. Sem misto de moradores e trabalhadores no Centro, as noites e os fins de semana seguirão assim ou pior. Muitos prédios estão vazios, construções inacabadas e outros espaços podem ser pensados. É uma alternativa. As faculdades e a Universidade Federal poderiam construir prédios para estudantes no Centro. Como disse, a sugestão é polêmica, mas é preocupante pensar que o Centro não tem solução e que vai piorar.

lançamentos

  • Sem gentileza (Dublinense, 160 páginas, tradução Hilton Lima), da africana Futhi Ntshingila, é uma narrativa polifônica que permite conhecer muitas mulheres, Áfricas e tempos. Em meio ao apartheid, nos guetos da África, mãe e filha sobrevivem à pobreza e à Aids, numa bela história de superação.
  • Nery & Beck - encordoando histórias do tênis (Edição do autor, 80 páginas), do professor e historiador Silvio Romero Martins Machado, fala de tênis de 1968 a 1986, questões nacionais e internacionais, de indivíduos e instituições, especialmente a Nery&Beck, marco na consolidação do esporte no RS.
  • Quer ser feliz? Ame e perdoe - Reflexões para a sua vida (Editora Globo, 176 páginas), do conhecido e admirado padre Alessandro Campos, traz 30 reflexões simples, belas e inspiradoras sobre mãe, pai, amigos, traição, fidelidade, ego, cura, entre outros tópicos.

a propósito...

Ainda carrego esperança quando caminho pela Rua da Praia. Esperança pelo futuro da gente, do Estado e do País. Não é fácil. Sem o antigo Correio do Povo, a Masson, o Bromberg, a Casa das Sedas, a Kopenhagen, a Sloper, a Casa Louro, os cinemas, o comércio da Dr. Flores e as referências de um passado com mais pilas, é difícil. Mas vamos lá, torcer pelo melhor, tomar um cafezinho com o João Klee no Haiti, na Otávio Rocha, depois curtir a salada de fruta e a bomba na Banca 40 do Mercado. Aquela é a bomba boa. E não venham me dizer que em outras cidades aconteceu o mesmo com o Centro. Digam que em outras cidades revitalizaram o Centro, onde vivem as memórias e sonhos de criança, o mais importante. (Jaime Cimenti)
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