Comentar

Seu comentário está sujeito a moderação. Não serão aceitos comentários com ofensas pessoais, bem como usar o espaço para divulgar produtos, sites e serviços. Para sua segurança serão bloqueados comentários com números de telefone e e-mail.

500 caracteres restantes
Corrigir

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Porto Alegre, quarta-feira, 28 de dezembro de 2016. Atualizado às 10h29.

Jornal do Comércio

Política

COMENTAR | CORRIGIR

entrevista especial

Notícia da edição impressa de 06/06/2016. Alterada em 28/12 às 11h33min

Meio ambiente deve mobilizar toda a sociedade, diz Lara

"A crise pode reorientar o modelo do projeto de revitalização do Cais Mauá"

"A crise pode reorientar o modelo do projeto de revitalização do Cais Mauá"


FOTOS: MARCO QUINTANA/JC
Marcus Meneghetti
Ao avaliar a gestão ambiental de Porto Alegre, a bióloga Lara Lutzenberger - filha do pioneiro do movimento ambientalista, José Lutzenberger - não hesita ao afirmar que é preciso avançar em muitos aspectos (manutenção da vegetação urbana, dos parques, tratamento do esgoto etc). Por outro lado, também reconhece avanços, como por exemplo o aprimoramento da coleta do lixo urbano.
Entretanto, acredita que os problemas ambientais só serão superados com a atuação conjunta do poder público, empresas e indivíduos. "Não podemos mais esperar que só o poder público ou só o empresariado resolva. Tem que haver uma ação concatenada em todos os setores da sociedade. Cada um de nós precisa passar a pensar o que pode fazer dentro da sua esfera de atuação para dar a sua contribuição", pondera.
Ao falar do pai, Lara não consegue evitar a emoção. "Não quero ser como o meu pai, mas quero dar continuidade ao seu legado. Aprendi muito com ele. Era um homem que não só apontava os problemas, mas principalmente buscava soluções", afirmou ao final desta entrevista ao Jornal do Comércio, com lágrimas nos olhos. Ela também avaliou o projeto do Cais Mauá, a relação da cidade com o Lago Guaíba e a arborização da Capital.
Jornal do Comércio - Como avalia a gestão ambiental da Capital, tanto do ponto de vista da gestão pública, quanto das ONGs ambientalistas?
Lara Lutzenberger - A gestão ambiental da nossa cidade, como provavelmente a de todas as cidades brasileiras, tem muito a melhorar. A cidade sofreu muito ao longo das décadas, sobretudo agora, em meio a essa grande crise política. Também é verdade que não é só uma questão de gestão pública, é também uma questão de sociedade. A sociedade brasileira é, em grande parte, descuidada com a natureza, com o meio ambiente. Então, não atribuo as falhas - o descaso que temos com a arborização urbana, com a manutenção dos nossos parques etc. - só ao poder público. Por que não temos, por exemplo, mais canteiros públicos floridos, mais sofisticados nos nossos parques? Em grande medida, porque a nossa sociedade os depredaria. Então, a gente não tem o cuidado, o respeito para cuidar dos espaços públicos. Isso também acontece com a mobília pública, monumentos, ruas etc.
JC - Apesar disso, Porto Alegre é considerada uma das cidades mais arborizadas do Brasil...
Lara - Porto Alegre até pode ser uma cidade arborizada. Mas, durante décadas - apesar do tratamento correto da vegetação urbana ser uma das bandeiras do meu pai -, a maior parte das árvores foi extremamente mal cuidada: sofreu agressões, teve um tratamento inadequado ou simplesmente não teve os cuidados necessários para crescer de forma saudável, para resistir melhor ao tempo. A maior parte das árvores teve podas equivocadas meu pai dizia que as mutilaram. Ou então sofreu danos pelas intempéries, que não foram tratados, o que as tornou mais frágeis. Muitas árvores que poderiam estar frondosas não estão, por causa dos descuidos ao longo do tempo. Por isso, muitas árvores caem com qualquer vento, qualquer chuva.
JC - E os parques...
Lara - Os nossos parques são extremamente limitados, comparados aos europeus e norte-americanos. Em Porto Alegre, eles se resumem basicamente a árvores e gramados: não têm canteiros realmente planejados e cuidados; a diversidade dos parques é limitada, normalmente com o monocultivo de determinadas espécies. Por exemplo, o Parque Marinha do Brasil é um corredor verde muito bonito, mas composto praticamente só por tipuanas, que, ainda por cima, é uma planta exótica. Então, há descuidos, que vêm de décadas e, infelizmente, ainda não foram sanados.
JC - Então não houve muitos avanços na gestão ambiental...
Lara - Na verdade, houve avanços, sim, em alguns aspectos. E é importante reconhecer isso. Mesmo na manutenção da arborização da cidade, percebo melhorias, especialmente na capacitação do pessoal que faz as podas. Por exemplo, nas semanas que antecederam o temporal que assolou a cidade em 29 de janeiro, vibrei com a qualidade dos trabalhos em torno das árvores no Parque Marinha do Brasil: as podas foram feitas corretamente e ainda foi implantada uma rede de iluminação muito bonita. Foi uma grande lástima que quase todo esse esforço tenha se perdido por consequência da tempestade. Também houve avanços significativos no processo de coleta seletiva do lixo urbano, tanto na expansão para todos os bairros, quanto no aprimoramento da infraestrutura e das condições trabalhistas dos catadores. Recentemente, tenho percebido um esforço crescente em iniciativas que visam à mobilização da sociedade para auxiliar com a separação do lixo a partir das suas residências. Além disso, está para ser lançado um material educativo sobre isso, no qual o meu pai é um personagem na forma de cartum, ilustrado pelo cartunista Edgar Vasquez.
JC - O saneamento também é uma questão central na gestão ambiental...
Lara - O saneamento é um dos problemas mais graves que temos no Brasil. Nos últimos anos, avançamos muito pouco em relação ao tratamento dos resíduos sólidos e dos efluentes. E, à medida que a população aumenta, os passos que damos para melhorar são anulados pelo aumento populacional, pois gera mais efluentes e resíduos. Não conseguimos avançar em uma velocidade suficiente para contrapor-se ao aumento do problema.
JC - De que forma isso pode ser solucionado?
Lara - Os países europeus demonstram que é possível solucionar o problema do saneamento básico. Eles também tiveram crises e, mesmo assim, ao longo das últimas décadas, conseguiram reverter a poluição por efluentes em vários grandes rios de Londres, Paris, Alemanha. Eles desenvolveram processos eficientes, mas muito onerosos, o que implica um compromisso sério do governo em planejar e executar essas medidas a longo prazo.
JC - O Programa Integrado Socioambiental (Pisa), cuja meta é chegar ao tratamento de 77% do esgoto de Porto Alere, vem sendo implementado desde os anos 2000, por vários governos que passaram pela prefeitura. Como vê a evolução do programa ao longo desses anos?
Lara - Rotineiramente, vejo notícias de que ele está sendo efetivado. Só que, como acontece com frequência no Brasil, num prazo mais lento do que o previsto. Nessa questão do tratamento dos efluentes, achei muito boa a iniciativa da empresa de segurança que financiou a implantação de uma ecobarreira no arroio Dilúvio. Foi uma iniciativa empresarial que promoveu um benefício coletivo. Apesar de singela, tem um impacto enorme ao evitar que toda a poluição despejada sobre o Dilúvio desemboque no Guaíba.
JC - A participação de empresas privadas pode ser uma saída?
Lara - As iniciativas empresariais, individuais e das ONGs podem, sim, contribuir. Acredito que, diante do tamanho do desafio que enfrentamos hoje, só o somatório de todas as iniciativas pode nos trazer alguma experiência de reversão (dos danos ambientais). Não podemos mais esperar que só o poder público ou só o empresariado resolva. Tem que haver uma ação concatenada em todos os setores da sociedade. Cada um de nós precisa passar a pensar o que pode fazer dentro da sua esfera de atuação para dar a sua contribuição. Isso não exime o poder público da sua tarefa, mas soma a esse esforço outras iniciativas.
JC - A questão ambiental se tornou mais importante para a sociedade hoje?
Lara - Creio que sim. As pessoas estão começando a procurar mais o alimento orgânico, a alimentação saudável, porque está cada vez mais claro que uma alimentação industrializada equivocada repercute na nossa saúde: gera obesidade, favorece o surgimento de tumores, várias doenças. Da mesma forma, está cada vez mais claro que a água que bebemos está saindo do controle, por conta da poluição. Se antigamente ambientalistas - como o meu pai - apenas traziam um alerta para a sociedade sobre a possibilidade de isso acontecer no futuro, hoje já vivemos isso. Está cada vez mais claro que ou diminuímos nossa pegada sobre o meio ambiente e passamos a zelar por ele, ou a vida se tornará insustentável. Socialmente, essa mudança ambiental também repercute no estado de espírito das pessoas, desagrega a sociedade, repercute negativamente no tecido social. Por isso valorizamos cada vez mais essas iniciativas que parecem trazer alguma segurança, uma luz no fim do túnel, nesse momento em que vemos o avanço da poluição, o risco sobre a segurança alimentar, a má gestão dos recursos hídricos.
JC - Se fala muito em Porto Alegre que "a cidade deu as costas para o Guaíba". Concorda?
Lara - Isso é a coisa que mais me parte o coração quando penso em Porto Alegre. É uma cidade localizada em uma região privilegiada, junto a um estuário imenso, junto à Lagoa dos Patos, uma das maiores do mundo. Todas as cidades que têm encostas exploram essas áreas de maneira comercial e cultural de forma tão charmosa... Aqui, realmente, demos as costas para o rio. Só vemos os armazéns do porto quando chegamos de avião. Senão, nos deparamos com um muro (da avenida Mauá). A maior parte da orla também não é transitável. É o caso da encosta aqui do lado da avenida Edvaldo Pereira Paiva (Beira-Rio). É verdade que, nos fins de semana, se libera a rua só para os pedestres, mas, no dia a dia, não são locais que possam ser usufruídos. Vejo um potencial tremendo em Porto Alegre, não só turístico, mas também de qualidade de vida para os seus cidadãos, que é desconsiderado. Mesmo quando se tentam iniciativas de revitalização da orla, são feitas de maneira tão intempestiva, tão improdutiva.
JC - Como enxerga o projeto para o Cais Mauá, que propõe uma mudança naquela região...
Lara - Não sei nem mais se vai sair do papel, porque as empresas interessadas naquela região já estão recuando. Do jeito que está, é um desgaste, um abandono total, que faz com que a cidade não consiga usufruir de forma alguma. Só estamos dando tempo para que tudo aquilo se transforme em ruína. Por outro lado, entendo que, ao se fazer um trabalho de revitalização, é fundamental que se pense em um projeto que sirva à sociedade, que a população possa ocupar o espaço de forma prazerosa, democrática, além de se tornar um ponto turístico. O projeto aprovado é equivocado: está centrado em uma proposta elitista que enxerga os shoppings como única alternativa cultural, comercial. Não são as grandes redes (comerciais) que o cidadão espera encontrar em um local como os armazéns do Centro Histórico. Recuperar aqueles armazéns seria uma forma de recuperar a vitalidade da região. Se instalar um shopping lá, estaremos virando as costas para o Centro de novo. O que nós queremos é ocupar o bairro, a cidade, tornar ela um centro vivo, com pessoas dos mais diversos setores sociais convivendo. Com a crise econômica, acredito que os empreiteiros estão percebendo que o que eles projetaram provavelmente não vai ser exequível. Os shoppings estão vivendo uma grande crise nesse momento. Talvez por aí, se consiga reorientar esse projeto. Se forem feitas algumas adequações, ele pode se tornar o ideal.
JC - Como avalia as licenças ambientais concedidas pelo poder público?
Lara - É extremamente falho o sistema dos licenciamentos ambientais. Inclusive porque o poder público está completamente desestruturado. Ou falta equipe, ou existe uma vulnerabilidade muito grande para fazer conchavo com os licenciados. Não só na esfera pública local, como na estadual e na nacional.
JC - Como está a Fundação Gaia? E a empresa Vida?
Lara - Hoje, a fundação está concentrada no Rincão Gaia, onde fica a nossa sede, próximo à cidade de Pantano Grande. É um local de muita natureza e diversidade de ambientes, no qual consolidamos um centro de convergência de todas as pessoas que atuam na promoção de um mundo mais sustentável. Lá, o que fazemos é um trabalho voltado para a educação, a sensibilização e mobilização da sociedade para com o meio ambiente. Promovemos cursos, oficinas e projetos sociais ligados à educação ambiental. E a empresa também segue bem. O foco é reciclagem de resíduos industriais, mais especificamente no âmbito da celulose. Temos a situação de que a CMPC (grupo proprietário da Celulose Riograndense, para a qual a Vida presta serviço) quadruplicou sua unidade em Guaíba, o que significa que também aumentamos o volume do nosso trabalho, que é o de dar um destino a todos os resíduos da empresa. Também temos uma filial na Bahia.

Perfil

Filha do ambientalista José Lutzenberger, a bióloga Lara Lutzenberger nasceu em 24 de fevereiro de 1970, no Marrocos. Quando tinha 11 meses, a família veio para Porto Alegre, onde Lara passou a maior parte da sua vida. Estudou no colégio Santa Rosa de Lima, na época dirigido por freiras dominicanas, e no Santa Inês. Aos 17 anos, em 1987, ingressou no curso de Biologia, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde permaneceu até 1993, quando se formou. Como ela própria explica, levou seis anos para concluir a graduação (enquanto a maioria dos alunos termina em quatro), porque, durante a faculdade, acompanhava o pai em viagens para conferências e palestras em diversos lugares do mundo. Quando o ambientalista faleceu, em 2002, Lara assumiu a presidência da Fundação Gaia, organização não governamental criada por Lutzenberger para difundir um modelo de vida sustentável. Também passou a dirigir a Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico Ltda., empresa especializada na reciclagem de resíduos industriais idealizada pelo ecologista.
COMENTAR | CORRIGIR
Comentários
Seja o primeiro a comentar esta notícia