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Porto Alegre, sexta-feira, 10 de junho de 2016. Atualizado às 09h31.

Jornal do Comércio

Viver

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Entrevista

Notícia da edição impressa de 10/06/2016. Alterada em 10/06 às 09h31min

Por menos 'jeitinho' e mais organização

Bruna Lombardi fala sobre seus projetos, política e o papel da cultura em momentos de crise

Bruna Lombardi fala sobre seus projetos, política e o papel da cultura em momentos de crise


JONATHAN HECKLER/JC
Michele Rolim
Atriz, escritora e roteirista, Bruna Lombardi, 63 anos, se define como "uma pessoa múltipla". Atualmente, ela mantém uma fanpage no Facebook com mais de 2 milhões de assinaturas. Lançou neste ano o filme Amor em Sampa, dirigido pelo marido Carlos Alberto Riccelli e pelo filho Kim Riccelli. O longa, com roteiro assinado por ela, retrata cinco histórias de amor e de so nhos que se entrelaçam.
Na semana passada, a artista esteve em Porto Alegre para realizar uma sessão de autógrafos do livro Jogo da felicidade. A publicação é uma espécie de oráculo, que conta em 21 capítulos o processo sobre a busca e a realização de desejos pessoais. E também mediou um painel sobre cinema no 9º Fórum Instituto Unimed/RS Desafios Culturais e Éticos em Tempos de Crise. No mês passado, a atriz recusou o convite do presidente interino Michel Temer para assumir a pasta da Secretaria Nacional da Cultura, órgão criado por ele (e já desfeito devido aos protestos) que visava a fusão do Ministério da Cultura e da Educação. Em conversa com o Jornal do Comércio, a musa do poeta gaúcho Mario Quintana falou de seus projetos, de política e sobre o papel da cultura em momentos de crise.
JC - Viver - Você produziu trabalhos neste ano, que de alguma maneira, falam da felicidade, como a publicação do livro Jogo da felicidade e o lançamento do filme Amor em Sampa. Quanto mais crise, mais é preciso ter esperança?
Bruna Lombardi - Vejo pela minha página no Facebook, muitas pessoas falam: "O que você faz me ajuda a viver". Esse tipo de retorno constante tem sido uma coisa muito estimulante. No momento de crise é quando as pessoas mais precisam lembrar de escolher a felicidade como amiga. Sempre no que faço tem essa busca.
Viver - Qual o papel da cultura nesse momento do País?
Bruna - Ela acaba refletindo o momento político. Por mais que a gente acredite que temos uma cultura forte, a visão maior disso é que temos uma cultura extraordinariamente enfraquecida há muito tempo, é uma cultura que mal se segura nas pernas. Na verdade, temos grandes guerreiros e combatentes da cultura tentando levar para frente um carro com a força das mãos. Para a cultura existir, tem que ser um segmento sustentável, ela tem que poder, inclusive, se reorganizar. Por que grande parte da cultura é produzida no Rio de Janeiro? Por que não temos o intercâmbio cultural dentro do Brasil? Por que não existem polos de produção cultural em todos os estados fortes? É uma macrovisão da cultura que estamos precisando hoje, precisamos compreender a posição que o Estado, o público e os artistas ocupam e fazer esse desenho maior com uma verdadeira gestão. É isso que está faltando.
Viver - E qual é a posição do artista?
Bruna - O artista no Brasil acaba sendo uma pessoa que faz tudo, nós não temos justamente uma indústria. O artista - que deveria ser só criador - acaba fazendo a gestão do seu trabalho tendo uma série de questões paralelas para que ele possa sobreviver, pois não foi criada uma economia sustentável. O Brasil hoje precisa de uma administração, temos um País que vem sendo por muito tempo mal pensado. Não é esse governo, nem os governos anteriores, são séculos de uma coisa que vai sendo feita na base do "jeitinho" e não na base de uma estrutura, de um pensamento. Cada um dos segmentos dos bens de produção e mercado tem a sua própria força. O cinema, por exemplo, sofre uma avalanche de outros filmes de fora do Brasil. Obviamente, temos um cinema incipiente, não tem como não ser. A distorção começa na raiz do pensamento. 
Viver - Como você avalia o cinema brasileiro contemporâneo?
Bruna - O cinema teve uma grande retomada e ele achou vários caminhos, mas o que está faltando ainda é exatamente o caminho que fortalece as indústrias regionais. Isso não só no cinema, nas artes em geral. Não é possível que tudo tenha que migrar para um só ponto.
Viver - Para você, qual o lugar que as mulheres ocupam nessa indústria do fazer cinematográfico? Ainda é difícil esse empoderamento feminino?
Bruna - Não é dentro do cinema só, tem uma discussão enorme do papel da mulher em todas as áreas, em todos os setores. Estamos vendo discussões que parece que andamos para frente e depois para trás, como o debate recente se estupro é causado pela vítima. São discussões infames, tudo isso vem de uma ausência de uma sociedade preocupada em cuidar dos seus filhos, de um pensamento maior no dia a dia. A mulher não é um fator isolado, é um deles, assim como a questão ambiental, social etc. O funil de tudo é a educação. Temos um País que deliberadamente não educou sua população há muitos séculos e estamos colhendo o fruto dessa semente distorcida que plantamos. O Brasil acreditou que não educando seus filhos poderia ter maior domínio, agora vai ter que emancipar isso, vai levar tempo para chegar em um ponto de equilíbrio.
Viver - E, por fim, como é trabalhar em família? Quais os próximos projetos?
Bruna - Criamos uma dinâmica que funciona legal. Trabalhar em família é um sonho, você poder trabalhar com as pessoas que você ama. Claro que tem a sua dificuldade, a proximidade, você trabalha o tempo todo, tem essa coisa que invade muito a tua vida. Por outro lado, criamos esse universo gostoso de realizar, produzir e criar juntos, mesmo que briguemos, temos a mesma maneira delicada de olhar o mundo. Temos referências parecidas, gostamos das mesma coisas, isso ajuda. O próximo trabalho é um série que iremos fazer para a televisão, eu vou atuar e escrever o roteiro, mas não posso revelar mais do que isso.
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