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Tecnologia Notícia da edição impressa de 23/11/2015. Alterada em 23/11 às 10h46min

O desafio de inspirar mais mulheres para a tecnologia

FREDY VIEIRA/JC
Da esquerda para a direita: Letícia Batistela, Ivana Lech, Maria Fernanda Bermúdez, Deborah Pilla Villela e Gabriela Cardozo Ferreira

Patricia Knebel

Mobilidade, big data, cloud, social business, internet das coisas. Difícil pensar no mundo dos negócios e na vida pessoal de hoje sem considerar a total dependência da tecnologia. Mais do que isso, é da transformação de bits e bytes em soluções inteligentes que dependem as cidades e a construção de um mundo melhor para vivermos. Para isso tudo acontecer, um dos desafios é atrair mais talentos para esse mercado - o déficit só na TI é de 92 mil profissionais no Brasil, segundo a Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro. E isso envolve incluir mais mulheres, capazes de pensar a tecnologia sob o prisma da inovação, da colaboração e da criatividade.
 
Pode ser em um grande evento, na sala de aula da faculdade, na empresa ou em uma competição de startups. Se a temática for tecnologia, certamente você vai olhar para o lado e perceber a presença massiva de homens. A participação das mulheres nas áreas de Engenharia, Tecnologia e Ciências é um pouco maior ou menor de décadas em décadas, mas, via de regra, é sempre muito baixa. Apenas para usar o exemplo da Tecnologia da Informação (TI), dos mais de 580 mil profissionais que atuam no Brasil, apenas 20% são do sexo feminino, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
É assim não só aqui, mas também nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia. "Existe uma divisão de profissões ditas femininas ou masculinas que ainda influencia boa parte das famílias. Muitas meninas enfrentam resistência quando decidem atuar nessas áreas", comenta a socióloga e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, Maria Rosa Lombardi.
Tradicionalmente, motivações culturais e biológicas ajudam a explicar porque isso acontece. A grande questão que se coloca, porém, é: como partir dessa realidade para algo diferente? Um dos caminhos é colocar o tema em debate. Para especialistas, a conscientização sobre o papel que as mulheres podem ocupar em mercados ditos mais masculinos depende muito da educação e de esforços coletivos.
O trabalho que vem sendo feito por Camila Achutti é um exemplo disso. Aos 21 anos, ela é sócia-fundadora da Ponte21, uma consultoria de inovação que promove a conexão da tecnologia com as pessoas. É influenciadora digital na Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap), onde lidera projetos como a Semana da Mulher na Tecnologia e, desde 2010, administra o blog chamado Mulheres na Computação. "Temos que mostrar como elas podem mudar o mundo a partir da tecnologia", defende.
Em maio deste ano, Camila conquistou o prêmio Women of Vision - categoria Student of Vision ABIE Award do Instituto Anita Borg, voltado para o incentivo da inclusão de mulheres no mundo digital. "Muitas vezes, as meninas que atuam com tecnologia andam como se estivessem com um holofote em cima da cabeça, o que gera uma pressão incrível", diz, com a vivência de quem se formou, em 2013, como única mulher no curso de Ciências da Computação em uma turma de 30 alunos.
Os desafios são enormes, tanto para as que querem investir em uma carreira mais técnica como de programação, quanto as que almejam liderar segmentos voltados para a tecnologia. "As mulheres marcam mais presença nesses mercados, mas precisam dar provas eternas da sua competência. São ambientes em que elas estão chegando também para disputar postos de poder", diz a socióloga Maria Rosa. 
Ter referências a serem seguidas é um dos segredos para que a participação aumente. Levantamento realizado pela Harvard Business Review mostra que a escassez de modelos femininos nas áreas de Ciência, Tecnologia e Engenharia deixa muitas profissionais em dúvida sobre o que é preciso para crescer: 44% das norte-americanas e 57% das chinesas sentem que, para progredir, precisam se comportar como um homem.
Assim como Mark Zuckerberg e Steve Jobs - fundadores do Facebook e da Apple - funcionam como modelos para muitos meninos, elas também precisam ter em quem se inspirar, e alguns modelos começam a surgir. É o caso de Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, e Marissa Mayer, CEO do Yahoo!.
No Brasil, multinacionais de tecnologia têm mulheres nos principais cargos - como Cristina Palmaka, presidente da SAP Brasil, e Paula Bellizia, presidente da Microsoft. "Existe um movimento importante em curso para incentivar a participação feminina nessas áreas e alguns resultados positivos estão aparecendo. Se isso vai permanecer ao longo do tempo, ainda não se sabe, mas é fundamental começar a quebrar esses paradigmas", observa Maria Rosa.

Elas podem motivar outras profissionais a desbravar a tecnologia


No Rio Grande do Sul, um grupo de mulheres tem chamado a atenção pelo trabalho que realiza, junto com seus times, para acelerar o ritmo da tecnologia e da inovação nas suas empresas, instituições e entidades. Assim como elas, muitas outras profissionais estão ocupando o seu espaço e, dessa forma, contribuindo para mostrar que as representantes do sexo feminino podem ter uma atuação decisiva em áreas onde a presença dos homens ainda é massiva.
Letícia Batistela, presidente da Assespro-RS
Lei é TI para Letícia Batistela, presidente da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação (Assespro-RS), entidade que conta com 230 empresas associadas. Formada em Direito, ela criou, em 1998, o seu próprio escritório e, um ano depois, foi chamada pela Assespro-RS para apoiar as empresas associadas, que temiam o que poderia acontecer com o bug do milênio. Acabou ficando. Assumiu a diretoria Jurídica da entidade, cargo que também ocuparia durante 10 anos na Sucesu-RS. "O setor de TI está em constante transformação e isso me encanta", comenta. Ao longo desse tempo acompanhando a dinâmica do setor, Letícia não acredita que a TI continue afastando as mulheres. "Antes elas enxergavam a tecnologia como uma profissão sem criatividade e até chata, mas isso está mudando", avalia. Segundo ela, o sucesso das mulheres depende de um trabalho competente, mas também de como elas se comportam frente a um cenário muitas vezes machista. "Claro que existem atitudes inapropriadas, mas isso pode ser contornado com uma das nossas maiores qualidades, como a resiliência", exemplifica.
Ivana Lech, CIO do Hospital Moinhos de Vento
Quando Ivana Lech entrou na Faculdade de Análise de Sistemas, na Pucrs, cerca de 50% da sua turma era formada por mulheres e 50% por homens. Hoje, a maioria das suas ex-colegas não está mais no mercado de TI. Em cargos de CIO, então, é ainda mais difícil encontrá-las - Ivana é uma das únicas representantes femininas que atualmente ocupam esse cargo, no caso, no Hospital Moinhos de Vento. Ela conta que nos dois primeiros anos da faculdade, as disciplinas eram técnicas e envolviam muita programação. Foi nos dois últimos anos, mais voltados para gestão, que ela realmente se encontrou. "Atuei desde cedo como analista de negócios e isso me possibilitou estar mais em contato com pessoas e menos com a máquina. A tecnologia foi uma ferramenta que me propiciou conhecer profundamente os processos e os negócios das empresas em que trabalhei", observa. Ivana atua na área de TI desde a década de 1980. Já passou por empresas como Braskem, Gerdau e Vonpar. É CIO do Moinhos de Vento desde 2013. "Nunca percebi segregação nos processos seletivos dos quais participei. E, agora, como gestora, acho muito importante trabalhar com equipes mistas, pois isso ajuda a equilibrar profissionais com qualidades diferentes", destaca.
Deborah Pilla Villela, vice-presidente da Procergs
Ela é a vice-presidente da Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Sul (Procergs), uma das maiores empresas de tecnologia do Estado, com 1,2 mil funcionários. No cargo, pela primeira vez ocupado por uma mulher, Deborah Pilla Villela é responsável pelo planejamento e gestão, pelas regionais e pelo relacionamento com os clientes. "Sempre vi a tecnologia como uma área de futuro", conta. Determinada a atuar nesse mercado, se formou em Análise de Sistemas, estudou dois anos em Londres e completou a sua formação no Brasil com um pós-graduação em Economia e Finanças e um MBA em Gestão Empresarial. Empreendeu e teve algumas experiências na iniciativa privada até que foi convidada a ingressar na área pública. E como vencer em uma atividade em que a presença feminina ainda é tão pequena? "Muito estudo, esforço dobrado e vontade. Não tem nada de graça na vida e a gente colhe o que planta. Simples assim", diz. Antes de chegar à Procergs, foi secretária de Inovação e Tecnologia de Porto Alegre, e vice-presidente da Frente Nacional dos Prefeitos na Área de TIC. "É muito importante que tenhamos mais lideranças femininas e fóruns para discutir a essa participação, até para que elas se sintam à vontade", defende.
Gabriela Cardozo Ferreira, diretora de Inovação e Desenvolvimento da Pucrs
O dia a dia da diretora de Inovação e Desenvolvimento da Pucrs, Gabriela Cardozo Ferreira, envolve menos tecnologia pura e mais habilidades de gestão. "Gerir um processo de inovação vai além da técnica, pois está muito relacionado a articular recursos e identificar mercados", explica ela, com a experiência de quem, desde 2002, lidera iniciativas importantes sobre esse tema dentro da universidade. Gabriela tem mestrado em Economia e doutorado em Administração - esta última, uma área em que homens e mulheres atuam de forma mais equilibrada em relação ao que acontece, por exemplo, na Engenharia Agronômica, curso em que se graduou. Na sua turma da faculdade, eram quatro mulheres de um total de 36 alunos. "Eu sabia que era uma profissão ocupada basicamente por homens. Parei, pensei, mas segui adiante. Acho que muitas vezes é uma questão de atitude", relata. Gabriela comenta que nunca se sentiu prejudicada na sua trajetória profissional por ser mulher. A carreira acadêmica, então, é ainda menos suscetível a esse tipo de situação. Mas ela admite que nem sempre é assim. "Não dá para fechar os olhos e fazer de conta que o preconceito não existe. Falar sobre esse tema pode ajudar a mudar essa realidade", acredita.
Maria Fernanda Bermúdez, secretária de Inovação e Tecnologia de Porto Alegre e coordenadora do Gabinete de Inovação e Tecnologia (Inovapoa).
A estreia da advogada Maria Fernanda Bermúdez na área aconteceu há cerca de três anos, quando ela assumiu como secretária adjunta na Secretaria de Inovação e Tecnologia de Porto Alegre, pasta que hoje lidera. "Os desafios são enormes, pois esse setor é muito dinâmico. Mas estamos em uma trajetória de ascensão, estruturando um sistema de inovação para a cidade e juntando atores que irão nos acompanhar nesses projetos", relata. Ela já morou em Brasília, onde trabalhou em órgãos como o Senado Federal e Ministério do Trabalho. Mas foi no poder público gaúcho que fez a maior parte da sua carreira, atuando, entre outros, no Tribunal de Contas e Ministério Público. Maria Fernanda comenta que não há como fugir da prerrogativa de que as mulheres precisam, cada vez mais, ser multitarefas para enfrentar a rotina. "É preciso conciliar a carreira com a vida familiar, especialmente a educação dos filhos", diz.

Formação escolar costuma reforçar barreiras da entrada


O primeiro passo para aumentar a participação das mulheres em profissões que envolvem tecnologia, engenharia e ciências é derrubar a barreira da identificação desses setores com a masculinidade, algo que foi criado e reproduzido nas últimas décadas. Quem faz esse alerta é a professora do Departamento de Sociologia da Universidade de Campinas (Unicamp), Bárbara Castro. Ela, que é especialista em sociologia do trabalho de gênero e já realizou estudo sobre a atuação das mulheres no mercado de tecnologia, explica que, desde a revolução industrial, a ideia das máquinas pesadas e da graxa já começava a criar essa associação com o universo masculino.
"Na escola, os materiais didáticos geralmente utilizam imagens de meninos para ilustrar teorias da física e de equações, como compra de bola de gude, por exemplo, nos exercícios de matemática", exemplifica. Para Bárbara, a escola é fundamental na criação da identidade de gênero, e a formação que as meninas e os meninos recebem reforça a imagem de que elas são de humanas e eles de exatas.
"Ainda existem algumas barreiras culturais na atuação das mulheres nas áreas técnicas", destaca a diretora comercial e sócia da agência digital Aldeia, Melissa Lesnovski, formada em Arquitetura. No entanto, ela defende que isso não é um impeditivo. "Não existe essa que mulher tem que lidar só com coisas fofas e que a menina que faz Engenharia ou Ciência da Computação vai ser menos mulher por isso", afirma.
O diretor do Center for Data Science da Universidade de Nova Iorque (NYU), Roy E. Lowrance Named Managing, diz que não há requisitos específicos de cada sexo para um profissional ser excelente em áreas mais técnicas, como cientistas de dados. No ano letivo de 2015, ele comenta que 37% dos alunos que se inscreveram no Master of Science da NYU eram do sexo feminino. "Uma das nossas principais cientistas de dados é a brasileira Juliana Freire, com várias iniciativas de pesquisa em sistemas escaláveis e reprodutibilidade", exemplifica.
Para o diretor do Instituto de Informática da Ufrgs, Luis Lamb, essa área precisa muito de pessoas criativas e de diversidade de pensamentos. "Isso leva a novas ideias e a resultados inovadores. A presença feminina é crucial, e gostaríamos que ela fosse muito maior do que nas últimas décadas."

Êxodo é realidade a ser combatida


Estudos mostram que muitas meninas têm interesse em atuar com ciência e tecnologia. Elas chegam a ingressar na faculdade ou no mercado de trabalho, mas, depois de um tempo, desistem. No Brasil, por exemplo, dados da PNAD mostram que 79% das mulheres que entram nas faculdades da área abandonam o curso no primeiro ano. E esta é uma realidade global. Estudo da Harvard Business Review com cientistas, engenheiras e tecnólogas já alertava, em 2008, para essa realidade. Nos EUA, 45% das mulheres que trabalham nesses mercados são mais propensas do que os homens a deixar a indústria.
As representantes femininas destas três áreas - nos EUA, Brasil, China e Índia - estão comprometidas com o seu trabalho. Mais de 80% das norte-americanas amam o que fazem; no Brasil, China e Índia, os números estão perto de 90%. O que explicar, então, esse êxodo? O relatório aponta para a existência de um ambiente hostil às mulheres, que inclui desde a criação de uma espécie de fraternidade masculina ligada à cultura geek até a glorificação das horas extremas dedicadas à pesquisa o que, consequentemente, penaliza profissionais que precisam de flexibilidade para cuidar dos filhos.
A socióloga Bárbara Castro afirma que a maternidade costuma ser uma fase de expulsão da carreira. "A maioria das empresas de tecnologia no Brasil é de micro e pequeno portes, consegue clientes prometendo custo e prazo menores e, por isso, todos precisam se desdobrar. Isso se torna um problema para as mães, pois elas passam a não estar mais tão disponíveis."
Essa realidade - de todas as profissões, aliás - faz com que muitas mulheres decidam empreender. Dados da Rede Mulher Empreendedora mostram que as brasileiras estão à frente de 45% de micro e pequenos negócios. "As corporações não estão preparadas para terem uma mulher com filhos pequenos. Para se manterem na ativa e terem flexibilidade de horário, muitas estão optando por empreender", explica a fundadora da iniciativa, Ana Fontes.
A má notícia para as áreas de tecnologia é que elas empreendem, especialmente, nos setores em que possuem experiências passadas. "O empreendedorismo reflete o que acontece nas empresas, ou seja, esse é um mundo dominado pelos homens. Como poucas delas vêm da tecnologia, não optam por começar negócios nesse mercado", observa. Apenas 5% das mulheres estão empreendendo em tecnologia.
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