Quando Clotilde Garcia ingressou na
Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande
do Sul, em 1972, já era conhecida na Santa Casa.
"Eu vivia dentro do hospital. Sonhava em ser médica
e adorava acompanhar o trabalho dos enfermeiros e amigos
médicos que atendiam no local", recorda. Durante
o curso, os estágios foram sendo cumpridos no mesmo
hospital, ao mesmo tempo em que optava pela Nefrologia
no lugar da Medicina Clínica. "O rim é
um órgão vital e complexo, e assim mesmo
pode ser implantado e funcionar muito bem em outras pessoas.
É a possibilidade de uma nova vida, o que é
maravilhoso", explica. Quando acabou a faculdade,
a Santa Casa já era o principal local de trabalho
da médica Clotilde Garcia, que também tinha
optado por se dedicar à Nefrologia Pediátrica.
"Na minha opinião, a criança deve ter
prioridade na lista de transplantes, já que a diálise
atrapalha seu crescimento. Apesar de a maioria receber
o rim de seus pais, as poucas que estão na fila
merecem a preferência", acrescenta.
Nesta história de quase 30 anos dentro da Santa
Casa, Clotilde Garcia tem várias conquistas para
enumerar e outras tantas para recordar. Além dos
títulos de mestrado e doutorado, atualmente a médica
representa a área da pediatria na Sociedade Brasileira
de Nefrologia, é council da Sociedade Internacional
de Nefrologia Pediátrica, leciona as disciplinas
de Nefrologia na Fundação Faculdade Federal
de Ciências Médicas e responde pela equipe
clínica que dá assistência às
crianças transplantadas no Hospital Santo Antônio,
do complexo Santa Casa. "Este hospital foi uma grande
conquista. Hoje temos uma estrutura excelente e os pequenos
dispõem de uma UTI completa, algo impensável
anos atrás. Quando lembro que atendíamos
as crianças num ambulatório da Santa Casa,
me dou conta do quanto éramos corajosos",
salienta.
A rotina da médica inclui o acompanhamento de
pelo menos 120 crianças transplantadas, que hoje
levam uma vida normal. Mas, segundo ela, cada transplante
feito no Hospital Santo Antônio é cercado
pela mesma expectativa do primeiro, que ela acompanhou
em 1977, quando ainda era estudante. "A torcida para
que tudo dê certo é a mesma. Como médicos,
temos a possibilidade de mudar o curso de uma história
que teria um final trágico. E é por isso
que me fascina trabalhar com crianças".
A luta feita com afeto facilita tudo
Apesar de "viver" dentro da Santa Casa, Clotilde
encontra tempo para atender seus pacientes particulares
na clínica que divide com o marido - também
nefrologista -, no Morro Santa Teresa, numa ampla casa
que herdou do avô. Casada há 26 anos e mãe
de dois filhos já universitários, a médica
se considera uma mulher realizada. "Acho que uma
mulher de classe média e com nível universitário
tem todas as condições de conquistar o que
quiser. Além do mais, lutamos com afeto, o que
facilita tudo", destaca.
Clotilde acredita que a força para suas conquistas
- incluindo uma bem-sucedida cirurgia para remover um
câncer do seio realizada há um ano - vem
dos conselhos da sua mãe, mulher de origem judia
que já trabalhava muito na década de 1950.
"Ela morreu quando eu tinha dez anos, mas nunca esqueci
dos seus conselhos para seguir com os estudos e batalhar
sempre pelo que eu queria", conta.