Porto Alegre, Terça-Feira, 2/12/2008

 
 
Melhores Mulheres
 
 

Quando Clotilde Garcia ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1972, já era conhecida na Santa Casa. "Eu vivia dentro do hospital. Sonhava em ser médica e adorava acompanhar o trabalho dos enfermeiros e amigos médicos que atendiam no local", recorda. Durante o curso, os estágios foram sendo cumpridos no mesmo hospital, ao mesmo tempo em que optava pela Nefrologia no lugar da Medicina Clínica. "O rim é um órgão vital e complexo, e assim mesmo pode ser implantado e funcionar muito bem em outras pessoas. É a possibilidade de uma nova vida, o que é maravilhoso", explica. Quando acabou a faculdade, a Santa Casa já era o principal local de trabalho da médica Clotilde Garcia, que também tinha optado por se dedicar à Nefrologia Pediátrica. "Na minha opinião, a criança deve ter prioridade na lista de transplantes, já que a diálise atrapalha seu crescimento. Apesar de a maioria receber o rim de seus pais, as poucas que estão na fila merecem a preferência", acrescenta.

Nesta história de quase 30 anos dentro da Santa Casa, Clotilde Garcia tem várias conquistas para enumerar e outras tantas para recordar. Além dos títulos de mestrado e doutorado, atualmente a médica representa a área da pediatria na Sociedade Brasileira de Nefrologia, é council da Sociedade Internacional de Nefrologia Pediátrica, leciona as disciplinas de Nefrologia na Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas e responde pela equipe clínica que dá assistência às crianças transplantadas no Hospital Santo Antônio, do complexo Santa Casa. "Este hospital foi uma grande conquista. Hoje temos uma estrutura excelente e os pequenos dispõem de uma UTI completa, algo impensável anos atrás. Quando lembro que atendíamos as crianças num ambulatório da Santa Casa, me dou conta do quanto éramos corajosos", salienta.

A rotina da médica inclui o acompanhamento de pelo menos 120 crianças transplantadas, que hoje levam uma vida normal. Mas, segundo ela, cada transplante feito no Hospital Santo Antônio é cercado pela mesma expectativa do primeiro, que ela acompanhou em 1977, quando ainda era estudante. "A torcida para que tudo dê certo é a mesma. Como médicos, temos a possibilidade de mudar o curso de uma história que teria um final trágico. E é por isso que me fascina trabalhar com crianças".

A luta feita com afeto facilita tudo

Apesar de "viver" dentro da Santa Casa, Clotilde encontra tempo para atender seus pacientes particulares na clínica que divide com o marido - também nefrologista -, no Morro Santa Teresa, numa ampla casa que herdou do avô. Casada há 26 anos e mãe de dois filhos já universitários, a médica se considera uma mulher realizada. "Acho que uma mulher de classe média e com nível universitário tem todas as condições de conquistar o que quiser. Além do mais, lutamos com afeto, o que facilita tudo", destaca.

Clotilde acredita que a força para suas conquistas - incluindo uma bem-sucedida cirurgia para remover um câncer do seio realizada há um ano - vem dos conselhos da sua mãe, mulher de origem judia que já trabalhava muito na década de 1950. "Ela morreu quando eu tinha dez anos, mas nunca esqueci dos seus conselhos para seguir com os estudos e batalhar sempre pelo que eu queria", conta.

 
 


 
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