Uma pequena gráfica em Novo Hamburgo guarda um
patrimônio que faz parte da história da impressão
no Rio Grande do Sul. Fundada pelo pastor protestante
Paul Saile, em julho de 1897, a Gráfica Saile ainda
hoje tem em suas dependências algumas preciosidades
como tipos de letras esculpidos um a um na madeira e que
foram usados no início da operação.
Bisneto do fundador, Roberto Saile mostra com orgulho
as peças mais antigas e relembra a trajetória
dos antepassados. Imigrante alemão procedente de
Wuttemberg, Paul Saile instalou a gráfica como
um segundo ofício para impressão de material
usado na sua missão como pastor.
“Ele trouxe o sistema da Alemanha, esculpindo letra
por letra na madeira”, conta Roberto. A madeira
recebia depois um tratamento especial para adquirir resistência
e poder ser usada várias vezes. Muitos desses clichês
em madeira fazem parte do acervo do museu Visconde de
São Leopoldo. Na gráfica, várias
gavetas de madeira guardam os mais variados tipos de letras
ainda usados na impressão. Entre outros trabalhos,
saiu da Gráfica Saile, ainda na década de
20 do século passado, o primeiro jornal impresso
em Novo Hamburgo, o Sontagst Blat, que circulava aos domingos.
Milena, mulher de Roberto, conta que também foi
impresso pela Saile “O Monóculo”, um
cartoon humorístico que fez sucesso na época.
A Sociedade Aliança, tradicional clube da região,
tem um livro em letras góticas impresso na gráfica
com o nome de todos os sócios. Ela gosta de preservar
a história e guarda com carinho a reprodução
ampliada de um cartão de visitas de Paul Saile
feito por ele mesmo com tipos esculpidos em madeira.
Trabalhando na gráfica junto com o pai desde os
14 anos, Roberto é contador de profissão
e acabou aplicando seus conhecimentos no empreendimento
da família. “Sou o primeiro a entrar e o
último a sair”, revela. O pai faleceu há
dois anos e ele administra a empresa junto com a mulher,
que cuida da livraria instalada na parte da frente do
prédio. Atualmente há seis pessoas trabalhando
no estabelecimento. A venda de material escolar e artigos
para escritório começou há 50 anos
e serve para complementar a receita da gráfica.
Ele conta que a parte mais nova do prédio foi construída
pelo pai.
Com duas máquinas sempre funcionando, a Saile tem
nos impressos comerciais uma das principais demandas,
mas o carro-chefe é a produção de
bilhetes para passagens de ônibus das maiores transportadoras
de passageiros da região. Segundo Roberto, mensalmente
são impressos entre 40 mil a 50 mil blocos de bilhetes,
cada um com cem folhas. A tradição e credibilidade
junto aos empresários são as principais
ferramentas de marketing da gráfica. “Não
temos vendedores, mas contamos com uma clientela cativa”,
orgulha-se Roberto. A gráfica ainda é responsável
pela maior fatia do faturamento.
Dedicado ao patrimônio que começou a ser
formado por seus antepassados, Roberto, de 55 anos, além
de ser responsável pela parte administrativa da
empresa, gosta de trabalhar na gráfica fazendo
corte de papel e cuidando dos acabamentos. “Enquanto
tiver saúde, pretendo continuar aqui”, afirma.
Mesmo sendo uma empresa pequena, há planos de crescimento,
um deles envolve a computação gráfica
para acompanhar a evolução.
Gráfica Saile Ltda (1897)
Fundador: Paul Saile
Diretor: Roberto Saile