Porto Alegre, Quarta-Feira, 20/8/2008

 
 
Crédito cooperativo - Estado foi o berço do sistema na América Latina
 

“Se uma grande pedra se atravessar no caminho e 20 pessoas quiserem passar, não conseguirão se um por um procurar removê-la individualmente. Mas, se as 20 pessoas se unem e fazem força ao mesmo tempo, sob a orientação de um deles, conseguirão solidariamente tirar a pedra e abrir caminho para todos”. O ensinamento do padre suíço Theodor Amstad, responsável pela introdução do cooperativismo de crédito no Brasil, está simbolizado em um monumento erguido em Nova Petrópolis, berço desse sistema no País e na América Latina. O monumento foi inaugurado no final de 2002, durante as comemorações do centenário do cooperativismo de crédito e mostra sete figuras humanas em bronze segurando uma pedra, numa concepção do artista uruguaio Gustavo Nackle.
O padre jesuíta chegou ao Brasil em 1885. Era profundo conhecedor do cooperativismo de crédito europeu e introduziu a idéia como solução aos problemas que os pequenos agricultores enfrentavam na época. O principal era a grande distância dos centros urbanos. O projeto foi lançado em outubro de 1902 em uma reunião do Sindicato Agrícola Bauerverein, entidade também criada pelo padre Amstad. Na ocasião, porém, como não havia representatividade de todos os distritos da Grande Sebastião do Caí, foi marcado um novo encontro, enquanto os estatutos eram elaborados. No dia 28 de dezembro de 1902, no salão de bailes de Nikolaus Kehl, em Linha Imperial, em Nova Petrópolis, um grupo de 19 sócios aprovou o estatuto da Sparkasse Amstad (Caixa de Economia e Empréstimos, também conhecida como Caixa Rural), origem da atual Sicredi.
A notícia da criação da Caixa Rural espalhou-se rapidamente e em fevereiro do ano seguinte 15 novos sócios aderiram à iniciativa. Foi eleita a primeira diretoria e criados postos de coleta de depósitos em vários pontos da região. Outras comunidades seguiram o exemplo e, em pouco tempo, havia uma rede estruturada de cooperativas de crédito. A semente gerou muitos frutos porque preencheu uma lacuna de comunidades distantes do centro financeiro da capital. Um ano depois de sua fundação, por exemplo, a Caixa Rural concedia empréstimo para a construção da igreja evangélica de Nova Petrópolis.
A evolução do sistema foi rápida e logo transformou-se na instituição financeira de todos e não só dos pequenos agricultores. Em alguns momentos havia tanto dinheiro que foi preciso limitar os depósitos porque havia mais oferta do que demanda. Até 1953, a Sociedade Cooperativa Caixa de Economia e Empréstimos de Nova Petrópolis funcionou sem cobrança de aluguel nas casas de seus gerentes. A partir daí conquistou sua sede própria, primeiro em Linha Imperial e depois em Nova Petrópolis. Até 1964, quando houve a reforma bancária, a instituição tinha condições de financiar integralmente, por exemplo, a construção de casas e aquisição de terras ou terrenos para os sócios e em longos prazos.
Com as restrições impostas ao crédito cooperativo pela Lei 4595/64, entre as quais a proibição de captar dinheiro de não-associados, financiar apenas projetos agrícolas e somente associar pessoas ligadas ao setor agrícola ou pecuarista, o sistema perdeu competitividade e enfrentou uma grande crise. Em 1967 existiam apenas 62 cooperativas no Rio Grande do Sul e em 1981 tinham sobrado só 12.
No livro Cooperativa de Crédito - Instrumento de Organização Econômica da Sociedade, Ademar Schardong relata que no início da década de 80 diante da exaustão das fontes de financiamento subsidiado, especialmente ao setor agropecuário, com forte impacto no equilíbrio econômico-financeiro das cooperativas agropecuárias, a Federação das Cooperativas de Trigo e Soja (Fecotrigo) encampou a idéia de construir um sistema alternativo de financiamento aos produtores rurais. Novamente a inspiração veio do modelo europeu onde as cooperativas de crédito aparecem como principais instituições financeiras a serviço das comunidades.
Com o apoio das cooperativas agropecuárias foram reunidas as nove cooperativas de crédito remanescentes e constituída, em 1980, a Cooperativa Central de Crédito do Rio Grande do Sul (Cocecrer) para evitar o processo de liquidação de suas filiadas e discutir com o Banco Central a reformulação das normas aplicadas ao sistema. Nascia, a partir deste fato, o novo sistema de crédito cooperativo, atualmente Sicredi-RS, cuja marca surgiu em 1992. Com a retomada das atividades, as cooperativas de crédito assumiram parte das funções do governo no financiamento rural e até hoje mantém uma grande especialização no crédito rural.
Na década de 90, as autoridades monetárias aumentaram o espectro operacional dessas cooperativas autorizando o funcionamento de bancos cooperativos. Em 1995, as cooperativas filiadas à Central do Sicredi-RS constituem o Banco Cooperativo Sicredi S/A - Bansicredi, primeiro banco cooperativo privado brasileiro, para ter acesso a produtos e serviços bancários vedados às cooperativas pela legislação e para administrar seus recursos financeiros em maior escala. Em 1999, O Bansicredi foi autorizado pelo governo federal a operar o crédito rural com encargos equalizados pelo Tesouro Nacional e no ano seguinte o Conselho Monetário Nacional aprovou resolução facultando aos bancos cooperativos a sua transformação em bancos múltiplos.
O Sistema Sicredi está concluindo a primeira etapa da construção do novo Centro Administrativo, num terreno de 28 mil metros quadrados na Avenida Assis Brasil, em Porto Alegre. A primeira das três torres vai abrigar o Bansicredi, Confederação e Corretora de Seguros e terá 12 andares e dois subsolos. Cerca de 600 pessoas vão trabalhar no local. De acordo com o projeto, mais duas torres serão erguidas em um período de 10 anos.

Benefícios para a comunidade

Passados mais de cem anos desde a sua implantação no País, o cooperativismo de crédito está consolidado e tornou-se efetivamente um instrumento de organização econômica da sociedade. Há várias instituições de crédito cooperativo no Brasil e a estimativa é de que 2% dos depósitos totais do Brasil estejam em poder de cooperativas de crédito. No caso do Sicredi está presente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo. São 129 cooperativas e um total de 726.685 associados, representando em 2003 um crescimento de 21,1% em relação ao ano anterior. O total de depósitos chega a R$ 1,9 bilhão, uma expansão de 36,2% no ano passado. O Sicredi responde por 40% do volume de crédito movimentado pelas cooperativas de crédito brasileiras.
A forte ligação com sua área de atuação é um dos diferenciais em relação a instituições financeiras convencionais. Os recursos depositados pela comunidade sempre retornam em seu benefício. Embora a origem tenha sido o meio rural e ainda hoje seu peso seja significativo, está ocorrendo um expressivo crescimento no crédito urbano e o Sicredi é o instrumento para financiar novos empreendimentos. Há parceria, por exemplo, com cooperativas paulistas por meio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O presidente da Confederação das Cooperativas ligadas ao Sicredi, Alcenor Pagnussatt, diz que o sistema é uma espécie de franquia e “estimula as comunidades a formarem sua cooperativa”.
Segundo ele, o cooperativismo de crédito avançou muito nos últimos anos e agora está na expectativa, por exemplo, de aprovação da caderneta de poupança rural. “Vai possibilitar mais captação de recursos”, acrescenta. A decisão depende do Banco Central, mas como o cooperativismo é uma das bandeiras do governo federal, há boas chances de aprovação. Outra meta é a possibilidade de obtenção de recursos do FAT. Pagnussatt afirma que com o fim das restrições normativas e de serviços o sistema mantém perspectivas muito boas e pretende continuar crescendo mais de 30% ao ano.

Cooperativa para pequenas empresas

Está pronta para começar a operar a cooperativa de crédito Sicredi-Empreendedores, voltada para as pequenas empresas. A iniciativa de implantar uma cooperativa de crédito de micro e pequenas empresas é resultado de uma parceria entre o Sebrae/RS e o Sicredi. A criação da Sicredi Empreendedores foi aprovada pelo Banco Central em dezembro passado. A estimativa é de que a cooperativa tenha 700 associados nos próximos 12 meses, podendo chegar a um capital social de R$ 600 mil.
A Sicredi-Empreendedores vai oferecer linhas de crédito, financiamento, emissão de cartão de crédito, desconto de duplicatas, cheques e outros serviços financeiros a micro e pequenas empresas instaladas na Capital e Região Metropolitana de Porto Alegre. A cooperativa agregará representantes da indústria, comércio e serviços. Além de micro e pequenas empresas em geral, podem se associar profissionais liberais e pessoas que trabalhem com entidades afins, como, por exemplo, o Sebrae/RS. O empresário deverá ter faturamento de até R$ 1,2 milhão, endereço comercial na área de atuação da cooperativa e pagar uma cota de R$ 200,00 para pessoa física e de R$ 800,00 para pessoa jurídica, parcelados em até quatro vezes.

 
 

 
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