“Se uma grande pedra se atravessar no caminho e
20 pessoas quiserem passar, não conseguirão
se um por um procurar removê-la individualmente.
Mas, se as 20 pessoas se unem e fazem força ao
mesmo tempo, sob a orientação de um deles,
conseguirão solidariamente tirar a pedra e abrir
caminho para todos”. O ensinamento do padre suíço
Theodor Amstad, responsável pela introdução
do cooperativismo de crédito no Brasil, está
simbolizado em um monumento erguido em Nova Petrópolis,
berço desse sistema no País e na América
Latina. O monumento foi inaugurado no final de 2002, durante
as comemorações do centenário do
cooperativismo de crédito e mostra sete figuras
humanas em bronze segurando uma pedra, numa concepção
do artista uruguaio Gustavo Nackle.
O padre jesuíta chegou ao Brasil em 1885. Era profundo
conhecedor do cooperativismo de crédito europeu
e introduziu a idéia como solução
aos problemas que os pequenos agricultores enfrentavam
na época. O principal era a grande distância
dos centros urbanos. O projeto foi lançado em outubro
de 1902 em uma reunião do Sindicato Agrícola
Bauerverein, entidade também criada pelo padre
Amstad. Na ocasião, porém, como não
havia representatividade de todos os distritos da Grande
Sebastião do Caí, foi marcado um novo encontro,
enquanto os estatutos eram elaborados. No dia 28 de dezembro
de 1902, no salão de bailes de Nikolaus Kehl, em
Linha Imperial, em Nova Petrópolis, um grupo de
19 sócios aprovou o estatuto da Sparkasse Amstad
(Caixa de Economia e Empréstimos, também
conhecida como Caixa Rural), origem da atual Sicredi.
A notícia da criação da Caixa Rural
espalhou-se rapidamente e em fevereiro do ano seguinte
15 novos sócios aderiram à iniciativa. Foi
eleita a primeira diretoria e criados postos de coleta
de depósitos em vários pontos da região.
Outras comunidades seguiram o exemplo e, em pouco tempo,
havia uma rede estruturada de cooperativas de crédito.
A semente gerou muitos frutos porque preencheu uma lacuna
de comunidades distantes do centro financeiro da capital.
Um ano depois de sua fundação, por exemplo,
a Caixa Rural concedia empréstimo para a construção
da igreja evangélica de Nova Petrópolis.
A evolução do sistema foi rápida
e logo transformou-se na instituição financeira
de todos e não só dos pequenos agricultores.
Em alguns momentos havia tanto dinheiro que foi preciso
limitar os depósitos porque havia mais oferta do
que demanda. Até 1953, a Sociedade Cooperativa
Caixa de Economia e Empréstimos de Nova Petrópolis
funcionou sem cobrança de aluguel nas casas de
seus gerentes. A partir daí conquistou sua sede
própria, primeiro em Linha Imperial e depois em
Nova Petrópolis. Até 1964, quando houve
a reforma bancária, a instituição
tinha condições de financiar integralmente,
por exemplo, a construção de casas e aquisição
de terras ou terrenos para os sócios e em longos
prazos.
Com as restrições impostas ao crédito
cooperativo pela Lei 4595/64, entre as quais a proibição
de captar dinheiro de não-associados, financiar
apenas projetos agrícolas e somente associar pessoas
ligadas ao setor agrícola ou pecuarista, o sistema
perdeu competitividade e enfrentou uma grande crise. Em
1967 existiam apenas 62 cooperativas no Rio Grande do
Sul e em 1981 tinham sobrado só 12.
No livro Cooperativa de Crédito - Instrumento de
Organização Econômica da Sociedade,
Ademar Schardong relata que no início da década
de 80 diante da exaustão das fontes de financiamento
subsidiado, especialmente ao setor agropecuário,
com forte impacto no equilíbrio econômico-financeiro
das cooperativas agropecuárias, a Federação
das Cooperativas de Trigo e Soja (Fecotrigo) encampou
a idéia de construir um sistema alternativo de
financiamento aos produtores rurais. Novamente a inspiração
veio do modelo europeu onde as cooperativas de crédito
aparecem como principais instituições financeiras
a serviço das comunidades.
Com o apoio das cooperativas agropecuárias foram
reunidas as nove cooperativas de crédito remanescentes
e constituída, em 1980, a Cooperativa Central de
Crédito do Rio Grande do Sul (Cocecrer) para evitar
o processo de liquidação de suas filiadas
e discutir com o Banco Central a reformulação
das normas aplicadas ao sistema. Nascia, a partir deste
fato, o novo sistema de crédito cooperativo, atualmente
Sicredi-RS, cuja marca surgiu em 1992. Com a retomada
das atividades, as cooperativas de crédito assumiram
parte das funções do governo no financiamento
rural e até hoje mantém uma grande especialização
no crédito rural.
Na década de 90, as autoridades monetárias
aumentaram o espectro operacional dessas cooperativas
autorizando o funcionamento de bancos cooperativos. Em
1995, as cooperativas filiadas à Central do Sicredi-RS
constituem o Banco Cooperativo Sicredi S/A - Bansicredi,
primeiro banco cooperativo privado brasileiro, para ter
acesso a produtos e serviços bancários vedados
às cooperativas pela legislação e
para administrar seus recursos financeiros em maior escala.
Em 1999, O Bansicredi foi autorizado pelo governo federal
a operar o crédito rural com encargos equalizados
pelo Tesouro Nacional e no ano seguinte o Conselho Monetário
Nacional aprovou resolução facultando aos
bancos cooperativos a sua transformação
em bancos múltiplos.
O Sistema Sicredi está concluindo a primeira etapa
da construção do novo Centro Administrativo,
num terreno de 28 mil metros quadrados na Avenida Assis
Brasil, em Porto Alegre. A primeira das três torres
vai abrigar o Bansicredi, Confederação e
Corretora de Seguros e terá 12 andares e dois subsolos.
Cerca de 600 pessoas vão trabalhar no local. De
acordo com o projeto, mais duas torres serão erguidas
em um período de 10 anos.
Benefícios para a comunidade
Passados mais de cem anos desde a sua implantação
no País, o cooperativismo de crédito está
consolidado e tornou-se efetivamente um instrumento de
organização econômica da sociedade.
Há várias instituições de
crédito cooperativo no Brasil e a estimativa é
de que 2% dos depósitos totais do Brasil estejam
em poder de cooperativas de crédito. No caso do
Sicredi está presente no Rio Grande do Sul, Santa
Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul
e São Paulo. São 129 cooperativas e um total
de 726.685 associados, representando em 2003 um crescimento
de 21,1% em relação ao ano anterior. O total
de depósitos chega a R$ 1,9 bilhão, uma
expansão de 36,2% no ano passado. O Sicredi responde
por 40% do volume de crédito movimentado pelas
cooperativas de crédito brasileiras.
A forte ligação com sua área de atuação
é um dos diferenciais em relação
a instituições financeiras convencionais.
Os recursos depositados pela comunidade sempre retornam
em seu benefício. Embora a origem tenha sido o
meio rural e ainda hoje seu peso seja significativo, está
ocorrendo um expressivo crescimento no crédito
urbano e o Sicredi é o instrumento para financiar
novos empreendimentos. Há parceria, por exemplo,
com cooperativas paulistas por meio da Federação
das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O presidente da Confederação das Cooperativas
ligadas ao Sicredi, Alcenor Pagnussatt, diz que o sistema
é uma espécie de franquia e “estimula
as comunidades a formarem sua cooperativa”.
Segundo ele, o cooperativismo de crédito avançou
muito nos últimos anos e agora está na expectativa,
por exemplo, de aprovação da caderneta de
poupança rural. “Vai possibilitar mais captação
de recursos”, acrescenta. A decisão depende
do Banco Central, mas como o cooperativismo é uma
das bandeiras do governo federal, há boas chances
de aprovação. Outra meta é a possibilidade
de obtenção de recursos do FAT. Pagnussatt
afirma que com o fim das restrições normativas
e de serviços o sistema mantém perspectivas
muito boas e pretende continuar crescendo mais de 30%
ao ano.
Cooperativa para pequenas empresas
Está pronta para começar a operar a cooperativa
de crédito Sicredi-Empreendedores, voltada para
as pequenas empresas. A iniciativa de implantar uma cooperativa
de crédito de micro e pequenas empresas é
resultado de uma parceria entre o Sebrae/RS e o Sicredi.
A criação da Sicredi Empreendedores foi
aprovada pelo Banco Central em dezembro passado. A estimativa
é de que a cooperativa tenha 700 associados nos
próximos 12 meses, podendo chegar a um capital
social de R$ 600 mil.
A Sicredi-Empreendedores vai oferecer linhas de crédito,
financiamento, emissão de cartão de crédito,
desconto de duplicatas, cheques e outros serviços
financeiros a micro e pequenas empresas instaladas na
Capital e Região Metropolitana de Porto Alegre.
A cooperativa agregará representantes da indústria,
comércio e serviços. Além de micro
e pequenas empresas em geral, podem se associar profissionais
liberais e pessoas que trabalhem com entidades afins,
como, por exemplo, o Sebrae/RS. O empresário deverá
ter faturamento de até R$ 1,2 milhão, endereço
comercial na área de atuação da cooperativa
e pagar uma cota de R$ 200,00 para pessoa física
e de R$ 800,00 para pessoa jurídica, parcelados
em até quatro vezes.