Na rua dos Andradas, no centro de Porto Alegre, num cenário
bucólico e por onde tranqüilamente caminhavam
homens de chapéu e elegantes senhoras, Carlos Foernges
inaugurou em primeiro de abril de 1895 a sua óptica.
Transcorridos quase 109 anos, a sede Óptica Foernges
ainda está no mesmo local. O prédio centenário
ganhou mais um andar, serve como escritório da
diretoria e abriga o laboratório que atende as
sete lojas da rede.
Neto do fundador, o diretor-presidente Bruno Carlos Foernges
conta que o avô nasceu em 1863, em São Leopoldo,
cidade onde o bisavô Joaquim tinha instalado uma
ourivesaria em 1861. A atividade foi seguida por Carlos
Foernges que montou em 1883, em Montenegro, uma “firma”
de ourivesaria, prataria e confecção de
arreios. Posteriormente, abriu uma loja em Porto Alegre
e mandou o filho mais velho, João Felipe, estudar
óptica na Alemanha, ainda hoje um dos principais
centros mundiais do ramo. Carlos Foernges teve três
filhos - João Felipe, Bruno e Theobaldo - todos
falecidos.
Depois de dois anos, João Felipe retornou a Porto
Alegre trazendo equipamentos para confecção
de lentes de grau, uma novidade na época. O laboratório
foi inaugurado em 1909 e com isto a Foernges tornou-se
a primeira óptica do Estado a fazer lentes sob
receita médica. Antes, os clientes recorriam a
óculos prontos, com o grau pré-estabelecido.
Ainda hoje o carro-chefe da empresa são óculos
de grau com receita.
No escritório da loja-matriz estão algumas
relíquias, que Bruno se orgulha de mostrar. Entre
elas um almanaque alemão editado em 1898 que traz
um anúncio da óptica Carlos Foernges. Fotos
antigas e reproduções de publicações
na imprensa integram o acervo.
Bruno e o filho Guilherme contam que um dos planos é
reunir todo o material e colocá-lo em exposição
na loja para que as novas gerações conheçam
um pouco da história da empresa e da evolução
da óptica no Rio Grande do Sul. Bruno Carlos é
formado em Odontologia pela Pucrs, mas só exerceu
a profissão durante oito anos. “Larguei tudo
para me dedicar à óptica”. Ele era
o único filho e o pai morreu em 1978. Em 1996,
houve um acordo familiar e ele tornou-se o dono. A continuidade
da Foernges está assegurada com os filhos Guilherme,
estudante de Administração de Empresas,
e Fernanda, advogada. A esposa Maria Salete cuida de uma
das filiais em Porto Alegre.
Óculos de grau são o carro-chefe
A centenária Óptica Foernges ainda segue
a tradição do fundador acompanhando a evolução
tecnológica do ramo. Visitas a feiras e exposições
no exterior fazem parte da agenda do diretor-presidente
Bruno Foernges. Com 70 funcionários, a empresa
faz em média mil óculos de grau sob receita
médica por mês.
As armações são produzidas por terceiros
e 80% são importadas, principalmente da Itália
e da Alemanha. A matéria-prima para as lentes é
fornecida por fabricantes e à óptica cabe
a delicada tarefa de fazer o óculos no grau solicitado.
Se for urgente, um par de lentes pode ser feito em poucas
horas pois a Foernges tem laboratório próprio.
Segundo o diretor-presidente, embora nos meses de verão
ocorra um aumento da demanda por óculos de proteção
contra o sol, não há sazonalidade nos óculos
de grau. A maioria dos clientes tem mas de 40 anos, fase
em que começam os sintomas da presbiopia, popularmente
conhecida como “vista cansada” e que acaba
obrigando o uso de lentes.
A Foernges tem sete lojas próprias, mas as solicitações
para abrir franquias no interior já estão
sendo avaliadas com bastante cautela, segundo Bruno, para
manter a tradição de seriedade da empresa.
Um pouco de história
Pesquisa feita pelo Museu dos Óculos Gioconda
Giannini, de São Paulo, informa que a primeira
referência histórica oriental sobre a existência
dos óculos aparece nos textos do filósofo
chinês Confúcio, 500 anos antes de Cristo.
Durante séculos serviram apenas como acessórios
aos nobres chineses ou eram usados apenas como objetos
para discriminar as pessoas do povo e os portadores de
doenças mentais.
O conceito sobre o uso de lentes, porém, mudou
na Roma dos Césares. O imperador Nero descobriu
as lentes coloridas para proteger da luz do sol, por acaso,
ao usar uma lâmina de vidro verde sobre os olhos
numa apresentação nas arenas romanas. A
óptica só apareceria por volta do sécuo
IX da era cristã.
O primeiro par de ferros com aros grandes, unidos por
rebite, foi descoberto na Alemanha em 1270. As primeiras
peças eram pesadas e desconfortáveis. No
século 15, os pince-nez, sem haste e ajustável
na ponta do nariz, e os lornhons, com haste lateral para
ficar seguro sobre os olhos, eram moda.
Os modelos com hastes fixas sobre as orelhas foram criados
no século XVII, mas não abalaram a fama
do pince-nez e do lornhon, modelos usados até a
década de 20, quando foram substituídos
pelo estilo numont com aros superiores ou inferiores,
finos e leves.