Porto Alegre, Sábado, 4/7/2009

 
 
Feldmann - Uma madeireira que fabrica gelo
 

Madeira e gelo se confundem na história da família Feldmann. O certo é que as duas atividades são as responsáveis pela sobrevivência de um pequeno negócio que há 113 anos funciona na esquina das ruas São Joaquim e Brasil, em São Leopoldo. No local, desde 1862 existia uma serraria, apontam os registros históricos, mas foi em 1891 que o filho de imigrantes alemães, Pedro Leopoldo Feldmann, comprou o estabelecimento, em sociedade com Ernesto Michel, dando origem à centenária Madeireira Feldmann Ltda.
Dez anos após a aquisição, a sociedade foi desfeita e Pedro Leopoldo passou a ser o único proprietário. Incorporado mais tarde à empresa, o filho João Fernando foi o responsável por inovações e pela introdução do gelo na atividade, um serviço que aqueceu os negócios e ajudou a manter o patrimônio em poder da família até os dias de hoje. O ingresso na produção e distribuição de gelo surgiu por volta de 1930, graças ao fracasso do empresário do ramo da cerveja, Gottlieb Meyer. Impossibilitado de levar adiante a atividade em razão das constantes quedas de energia elétrica, o cervejeiro colocou os equipamentos a venda e João Fernando, vislumbrando a possibilidade de diversificar os negócios, comprou a parte de refrigeração.
Como os cortes de energia persistiam, João Fernando projetou uma caldeira, alimentada com água bombeada do Rio dos Sinos. A água era utilizada para resfriar os equipamentos e o excedente beneficiava os vizinhos da madeireira. A caldeira da João F. Feldmann & Cia. ganhou notoriedade por gerar energia às primeiras projeções cinematográficas de São Leopoldo, no Coliseu Leopoldense.
Em 1962, já como Madeireira Feldmann Ltda., o negócio passa ao comando de Arno, filho de João Fernando, falecido um ano antes. A partir de então, a água para resfriamento das máquinas não vinha mais do rio dos Sinos, passando a ser captada de um poço de 123 metros de profundidade. Arno deu seqüência aos negócios com madeira e gelo até entregar a administração aos filhos Miguel e Jorge.
Ao longo do tempo, a madeireira conviveu com a invasão das águas do Sinos em períodos de enchente. A mais destruidora foi a de 1965, quando o rio praticamente cobriu o pavilhão. Com o passar do tempo, a área de banhado ao lado foi aterrada e hoje as águas não chegam.

Conserto de aberturas é o principal negócio

Os irmãos Miguel e Jorge Feldmann tocam o negócio com seis empregados, um no balcão e cinco na produção. No espaço de mil metros quadrados, o que não é madeira ou ferragem é gelo. Desde a fundação o negócio evoluiu da venda de madeira bruta para consertos e oferta de alguns poucos produtos acabados, como mesas para churrasco e pingue-pongue, escadas, rodapés e acessórios para cortinas. Uma pequena loja de ferragens, no interior do pavilhão, oferece dobradiças, parafusos, cola, pincéis, seladores e outros produtos, mas o conserto de portas, janelas e outros artigos de madeira é a principal atividade.
Aberturas arrombadas ou danificadas pelo tempo são cirurgicamente recuperadas, sem que seja necessário a substituição por novas. “Quando solicitados, vamos até o local e avaliamos a possibilidade de recuperação, antes da troca”, explica Miguel. Ele mesmo diagnostica o dano e acha que, agindo assim, mantém fiel o cliente, mesmo se para ele seria mais vantajoso sugerir a troca. Se for o caso, a madeireira faz a porta ou a janela, mas o reparo prevalece, quando possível. Prateleiras, mesas e artigos sob medida, também agregam valor.
Meia dúzia de máquinas recortam e dão acabamento ao pinus, ao cedrinho e às chapas de compensado. Uma é tão antiga que remonta ao tempo da implantação da via férrea em São Leopoldo, cuja data Miguel não lembra. “Claro que já trocamos o motor e muitas vezes a serra, mas a estrutura do equipamento é a mesma”, conta ele.
O negócio de produzir e vender gelo já foi mais rentável, no tempo em que geladeira era artigo de luxo e privilégio de poucos. Hoje, o produto é vendido em cubos e barras para gelar bebidas e alimentos, em festas e grandes eventos como o Natal. No verão, o negócio chega a representar 30% do faturamento. No inverno, cai quase a zero. O ponto, central, é cobiçado por investidores, porém os irmãos Feldmann não cogitam vendê-lo, mesmo aceitando que o futuro pode estar ameaçado. Cada um tem dois filhos e nenhum deles mostrou interesse em continuar o negócio. “Já recebemos propostas, mas, por enquanto, a madeireira continua em família”, diz Miguel.

Madeireira Feldmann Ltda. (1891)

Fundador: Pedro Leopoldo Feldmann
Sócios:
Miguel Feldmann
Jorge Feldmann
Isolde Feldmann

 
 

 
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