Madeira e gelo se confundem na história da família
Feldmann. O certo é que as duas atividades são
as responsáveis pela sobrevivência de um
pequeno negócio que há 113 anos funciona
na esquina das ruas São Joaquim e Brasil, em São
Leopoldo. No local, desde 1862 existia uma serraria, apontam
os registros históricos, mas foi em 1891 que o
filho de imigrantes alemães, Pedro Leopoldo Feldmann,
comprou o estabelecimento, em sociedade com Ernesto Michel,
dando origem à centenária Madeireira Feldmann
Ltda.
Dez anos após a aquisição, a sociedade
foi desfeita e Pedro Leopoldo passou a ser o único
proprietário. Incorporado mais tarde à empresa,
o filho João Fernando foi o responsável
por inovações e pela introdução
do gelo na atividade, um serviço que aqueceu os
negócios e ajudou a manter o patrimônio em
poder da família até os dias de hoje. O
ingresso na produção e distribuição
de gelo surgiu por volta de 1930, graças ao fracasso
do empresário do ramo da cerveja, Gottlieb Meyer.
Impossibilitado de levar adiante a atividade em razão
das constantes quedas de energia elétrica, o cervejeiro
colocou os equipamentos a venda e João Fernando,
vislumbrando a possibilidade de diversificar os negócios,
comprou a parte de refrigeração.
Como os cortes de energia persistiam, João Fernando
projetou uma caldeira, alimentada com água bombeada
do Rio dos Sinos. A água era utilizada para resfriar
os equipamentos e o excedente beneficiava os vizinhos
da madeireira. A caldeira da João F. Feldmann &
Cia. ganhou notoriedade por gerar energia às primeiras
projeções cinematográficas de São
Leopoldo, no Coliseu Leopoldense.
Em 1962, já como Madeireira Feldmann Ltda., o negócio
passa ao comando de Arno, filho de João Fernando,
falecido um ano antes. A partir de então, a água
para resfriamento das máquinas não vinha
mais do rio dos Sinos, passando a ser captada de um poço
de 123 metros de profundidade. Arno deu seqüência
aos negócios com madeira e gelo até entregar
a administração aos filhos Miguel e Jorge.
Ao longo do tempo, a madeireira conviveu com a invasão
das águas do Sinos em períodos de enchente.
A mais destruidora foi a de 1965, quando o rio praticamente
cobriu o pavilhão. Com o passar do tempo, a área
de banhado ao lado foi aterrada e hoje as águas
não chegam.
Conserto de aberturas é o principal negócio
Os irmãos Miguel e Jorge Feldmann tocam o negócio
com seis empregados, um no balcão e cinco na produção.
No espaço de mil metros quadrados, o que não
é madeira ou ferragem é gelo. Desde a fundação
o negócio evoluiu da venda de madeira bruta para
consertos e oferta de alguns poucos produtos acabados,
como mesas para churrasco e pingue-pongue, escadas, rodapés
e acessórios para cortinas. Uma pequena loja de
ferragens, no interior do pavilhão, oferece dobradiças,
parafusos, cola, pincéis, seladores e outros produtos,
mas o conserto de portas, janelas e outros artigos de
madeira é a principal atividade.
Aberturas arrombadas ou danificadas pelo tempo são
cirurgicamente recuperadas, sem que seja necessário
a substituição por novas. “Quando
solicitados, vamos até o local e avaliamos a possibilidade
de recuperação, antes da troca”, explica
Miguel. Ele mesmo diagnostica o dano e acha que, agindo
assim, mantém fiel o cliente, mesmo se para ele
seria mais vantajoso sugerir a troca. Se for o caso, a
madeireira faz a porta ou a janela, mas o reparo prevalece,
quando possível. Prateleiras, mesas e artigos sob
medida, também agregam valor.
Meia dúzia de máquinas recortam e dão
acabamento ao pinus, ao cedrinho e às chapas de
compensado. Uma é tão antiga que remonta
ao tempo da implantação da via férrea
em São Leopoldo, cuja data Miguel não lembra.
“Claro que já trocamos o motor e muitas vezes
a serra, mas a estrutura do equipamento é a mesma”,
conta ele.
O negócio de produzir e vender gelo já foi
mais rentável, no tempo em que geladeira era artigo
de luxo e privilégio de poucos. Hoje, o produto
é vendido em cubos e barras para gelar bebidas
e alimentos, em festas e grandes eventos como o Natal.
No verão, o negócio chega a representar
30% do faturamento. No inverno, cai quase a zero. O ponto,
central, é cobiçado por investidores, porém
os irmãos Feldmann não cogitam vendê-lo,
mesmo aceitando que o futuro pode estar ameaçado.
Cada um tem dois filhos e nenhum deles mostrou interesse
em continuar o negócio. “Já recebemos
propostas, mas, por enquanto, a madeireira continua em
família”, diz Miguel.
Madeireira Feldmann Ltda. (1891)
Fundador: Pedro Leopoldo Feldmann
Sócios:
Miguel Feldmann
Jorge Feldmann
Isolde Feldmann