A Livraria do Globo faz parte do cotidiano de Porto Alegre.
É quase impossível imaginar a Rua dos Andradas
sem ela. Do mesmo modo que é quase impossível
imaginar a cultura do Rio Grande do Sul sem a sua participação.
A ela estão ligados nomes como Érico Veríssimo,
Maria Della Costa, Mário Quintana, Dyonélio
Machado, Vianna Moog, Luis Fernando Veríssimo,
Carlos Reverbel e muitos outros. A Livraria do Globo é
uma referência para os gaúchos, assim como
a Editora Globo, que não faz mais parte da empresa,
é um marco na história editorial do Brasil
entre outras iniciativas por tornar conhecidos autores
como Thomas Mann, Virginia Woolf, Aldous Huxley, Somerset
Maugham e Graham Green.
Porto Alegre tinha 40 mil habitantes em 1883 quando foi
criada a Livraria do Globo. Em texto escrito no centenário
da empresa, Barbosa Lessa contou que um dos fundadores,
Laudelino Pinheiro de Barcellos, já tinha adquirido
uma razoável experiência comercial e algumas
economias quando decidiu montar um negócio. Saturnino
Alves Pinto, amigo e futuro sócio, chegou a sugerir
o investimento no ramo hoteleiro. Caminhando pela Rua
da Praia, Laudelino observou atentamente os diferentes
endereços. Havia o Hotel du Brésil, o Espingardeiro
Rist e a Drogaria Martel. Havia também a conceituada
confeitaria de Armando Schramm e a Alfaiataria Bins, com
casemiras importadas, ceroulas de algodão francesas
e meias masculinas “do mais puro fio d`Escócia”.
Mas o que chamou mesmo a atenção de Laudelino
foi o largo salão da Livraria Gundlach. Nos sábados
à tarde era ponto de encontro de políticos
da Província e de intelectuais remanescentes da
Sociedade Parthenon Literária. Era também
ponto de ligação de Porto Alegre com o mundo
por meio dos anuários Almanaque Bertrand e Almanaque
de Lembranças Luso-Brasileiro e de jornais como
Le Monde. No seu texto, Barbosa Lessa escreve que foi
aí que nasceu a decisão de montar uma livraria.
“Urbi et Orbi! Da cidade para o mundo. De Porto
Alegre para o globo”.
Os dois amigos não tinham muito dinheiro para o
novo negócio, mas conseguiram alugar uma pequena
loja no número 268 da Rua da Praia. Eram só
duas portas e uma vitrine, mas com boa profundidade, o
que permitia ampliar as instalações no futuro.
Desta forma surgiu, em dezembro de 1883, a Livraria do
Globo, de L.P. Barcellos & Cia, funcionando das 6h30min
às 22 horas, inclusive aos sábados. A parte
dos fundos foi depois aproveitada para a montagem de uma
pequena oficina com uma caixa de tipos, duas máquinas
de impressão e um oficial tipógrafo.
Laudelino estava entusiasmado com a expansão do
negócio que passou a oferecer serviços de
encadernação e pautação. Saturnino,
porém, preferiu desfazer a sociedade e Laudelino
ficou como único dono. Com o patrimônio em
crescimento ele conseguiu comprar o prédio e reformou
a fachada. Logo se deu conta, porém, que vender
papel e vender livros não era a mesma coisa e com
o tempo descobriu os títulos com mais aceitação
entre os clientes.
Em 1890, José Bertaso, com apenas 12 anos, ingressou
na livraria por recomendação de sua professora,
prima de Laudelino. Ele começou como servente recebendo
um salário de dez mil réis mais casa e comida.
Dez anos depois foi promovido a chefe de loja e administrador
da oficina. Nessa época a Livraria do Globo tinha
um estoque variado e vendia desde papel de carta até
brinquedos, além de livros didáticos e romances,
revistas e jornais. A gráfica começava a
avançar, mas ainda não oferecia a qualidade
dos concorrentes até que em 1909 instalou uma linotipo,
a primeira de Porto Alegre. Com esta iniciativa passou
a atrair autores importantes da época.
A linha de impressos padronizados e os serviços
de litografia também começaram a ganhar
espaço. Mais tarde, em 1915, surgiu a idéia
do lançamento de um anuário, o Almanaque
da Globo, que foi o primeiro grande empreendimento bancado
pela Globo como editora, conforme o texto de Barbosa Lessa.
Laudelino morreu em 1917 e a empresa continuou a ser administrada
por seus herdeiros e José Bertaso que já
era sócio.
A importância da era Bertaso
A experiência de José Bertaso adquirida
em 28 anos de trabalho na Globo fez com que ele logo assumisse
a direção da empresa quando morreu o fundador
Laudelino Pinheiro de Barcellos, em 1917. Já na
sua gestão foi aberta a primeira filial, em Santa
Maria, centro ferroviário do Estado. Ele também
tratou de comprar máquinas de escrever - que só
existiam no Rio de Janeiro - e uma máquina de somar
operada à manivela. Ao perceber que a máquina
de escrever poderia afetar as vendas de penas, canetas
e tinteiros, tratou de adquirir a representação
para o Rio Grande do Sul das máquinas norte-americanas
Royal, agregando valor ao seu negócio.
Conta Barbosa Lessa que também nessa década
foi adquirido um moderno equipamento de litografia capacitando
a Livraria do Globo a imprimir desde rótulos até
grandes cartazes coloridos. João Pinto da Silva,
orientador intelectual do Almanaque da Globo e Mansueto
Bernardi, contratado depois como administrador do escritório,
começaram a atrair jovens poetas e escritores gaúchos
que nas tardes de sábado transformavam a loja da
Rua da Praia em ponto de encontro de intelectuais, políticos
e profissionais liberais. A Globo começou a editar
novos autores locais como Augusto Meyer e Dyonélio
Machado. Do presidente do Estado, Getúlio Vargas,
que costumava freqüentar a livraria, veio a idéia
do lançamento de uma revista do Sul. Nascia a Revista
do Globo.
Com a Revolução de 30 e a nomeação
do general Flores da Cunha como interventor do Estado,
houve a autorização para emissão
de bônus que serviriam de lastro para investimentos
na economia gaúcha. À Globo foi dada a missão
de imprimir os bônus. Depois a empresa recebeu carta-patente
para operar como Casa Bancária destinada a captar,
gerir e remunerar a poupança nacional. Outros grupos
no País igualmente ganharam cartas-patente. Anos
depois, o governador Leonel Brizola também confiou
à Globo a impressão de Letras do Tesouro
do Estado, que ficaram conhecidas como “brizoletas”.
A consolidação do braço editorial
da Globo esteve ligada ao espírito de inovação
do filho mais velho de José Bertaso, Henrique,
que pediu para ser transferido da loja de livros para
a “Secção Editora”. Amigo de
Erico Verissimo, responsável pela Revista do Globo,
Henrique começou a descobrir novos filões
para a editora como novelas policiais. Em 1934 o escritor
inglês Somerset Maughan foi lançado no Brasil
pela Globo, em 1938 o romance Olhai os Lírios do
Campo, de Erico Verissimo ganhou projeção
nacional. É também dessa época a
cuidadosa tradução da obra completa de Proust.
O prestígio da editora estava no auge na década
de 40. A empresa Barcellos, Bertaso & Cia tinha filiais
em três cidades gaúchas, escritórios
no Rio de Janeiro e em São Paulo e representantes
espalhados pelo País. Em 1948, com a morte de José
Bertaso, os herdeiros transformaram a empresa em sociedade
anônima, Livraria do Globo S/A. Em 1956 as atividades
foram divididas entre a Editora Globo e a Livraria do
Globo. Na década de 70 o capital foi aberto à
participação de outros sócios para
manter a empresa economicamente viável, mas os
herdeiros continuaram majoritários. Em 1986, três
anos depois do centenário de fundação,
a Editora Globo, que já estava sediada no Rio de
Janeiro, foi vendida à Rio Gráfica Editora,
empresa das Organizações Globo. Em seu livro
A Globo da Rua da Praia, José Otávio Bertaso
(filho de Henrique) conta que quando a editora foi vendida
já haviam sido publicados 2.830 títulos.
Foco em livraria e no ramo de material escolar e de escritório
Representante da terceira geração dos Bertaso,
Cláudio Bertaso é o acionista majoritário
com 45% de participação, seu irmão
Fernando tem 10% e a família Wolf outros 30% do
capital. O restante está pulverizado entre poucos
acionistas. A quarta geração também
já faz parte da administração da
empresa. Cláudio Bertaso diz que a Livraria do
Globo sempre esteve à frente do seu tempo e das
grandes iniciativas da empresa. “Somos livreiros
por opção”, diz ao destacar que a
empresa está focada na livraria e no ramo de material
de escritório e escolar. A Livraria do Globo é
líder no Estado e tem 17 lojas no Rio Grande do
Sul, das quais apenas três em shopping centers.
Bertaso informa que a venda de impressos que já
teve uma participação de 50% no faturamento,
agora não representa 15%. Ele exemplifica com o
volume de vendas de notas promissórias que chegou
a 40 milhões/ano e agora é menos de 200
mil/ano. A gráfica da empresa, que no auge chegou
a ter 370 empregados, hoje com o avanço da tecnologia
conta com cerca de 40. A Globo ainda fabrica as suas agendas,
mas não afasta a possibilidade de terceirizar este
serviço, e também saem da gráfica
livros de registros, livros de atas e talonários
destinados principalmente aos pequenos comerciantes.
Com a comercialização de cerca de 3.700
artigos, Bertaso afirma que a livraria atualmente sofre
com a concorrência do supermercado que consegue
negociar preços melhores em função
do grande volume. Mesmo assim, a Livraria do Globo mantém
um crescimento constante. No ano passado foi inaugurada
a loja no Shopping Praia de Belas, na Capital, e para
2004 está prevista a abertura de mais uma filial
em shopping. São todas lojas próprias e
a abertura de franquias ainda não faz parte dos
planos por causa da responsabilidade em manter a tradição
de qualidade da marca centenária. No ano passado,
a empresa faturou R$ 35 milhões e a venda de livros
teve uma participação de 30%. “Somos
varejistas”, afirma Bertaso. Ele reconhece que a
empresa ainda tem espaço para crescer principalmente
no atendimento corporativo.
Na matriz, na Rua dos Andradas, os livros empatam com
a comercialização de artigos de escritório
e papelaria. Mas um outro segmento começa a ter
bons resultados. “Os artigos ligados à informática
já estão praticamente empatando com a venda
de livros”, conta. O atendimento é um dos
principais diferenciais da Globo e para manter os clientes
satisfeitos, os cerca de 400 funcionários recebem
treinamento constante. A Globo mantém a gráfica
e o depósito em Cachoeirinha e recentemente mudou
a administração novamente para Porto Alegre.
Para o tradicional prédio da Rua dos Andradas,
onde tudo começou.
Livraria do Globo (1883)
Fundadores: Laudelino Pinheiro de Barcellos e Saturnino
Pinto
Diretoria atual:
Diretor-presidente: Cláudio Bertaso
Diretor vice-presidente: Henrique Ferreira Bertaso
Diretora-superintendente: Elisa Morganti Bertaso