Porto Alegre, Quarta-Feira, 20/8/2008

 
 
Livraria do Globo - De Porto Alegre para o mundo
 

A Livraria do Globo faz parte do cotidiano de Porto Alegre. É quase impossível imaginar a Rua dos Andradas sem ela. Do mesmo modo que é quase impossível imaginar a cultura do Rio Grande do Sul sem a sua participação. A ela estão ligados nomes como Érico Veríssimo, Maria Della Costa, Mário Quintana, Dyonélio Machado, Vianna Moog, Luis Fernando Veríssimo, Carlos Reverbel e muitos outros. A Livraria do Globo é uma referência para os gaúchos, assim como a Editora Globo, que não faz mais parte da empresa, é um marco na história editorial do Brasil entre outras iniciativas por tornar conhecidos autores como Thomas Mann, Virginia Woolf, Aldous Huxley, Somerset Maugham e Graham Green.
Porto Alegre tinha 40 mil habitantes em 1883 quando foi criada a Livraria do Globo. Em texto escrito no centenário da empresa, Barbosa Lessa contou que um dos fundadores, Laudelino Pinheiro de Barcellos, já tinha adquirido uma razoável experiência comercial e algumas economias quando decidiu montar um negócio. Saturnino Alves Pinto, amigo e futuro sócio, chegou a sugerir o investimento no ramo hoteleiro. Caminhando pela Rua da Praia, Laudelino observou atentamente os diferentes endereços. Havia o Hotel du Brésil, o Espingardeiro Rist e a Drogaria Martel. Havia também a conceituada confeitaria de Armando Schramm e a Alfaiataria Bins, com casemiras importadas, ceroulas de algodão francesas e meias masculinas “do mais puro fio d`Escócia”.
Mas o que chamou mesmo a atenção de Laudelino foi o largo salão da Livraria Gundlach. Nos sábados à tarde era ponto de encontro de políticos da Província e de intelectuais remanescentes da Sociedade Parthenon Literária. Era também ponto de ligação de Porto Alegre com o mundo por meio dos anuários Almanaque Bertrand e Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro e de jornais como Le Monde. No seu texto, Barbosa Lessa escreve que foi aí que nasceu a decisão de montar uma livraria. “Urbi et Orbi! Da cidade para o mundo. De Porto Alegre para o globo”.
Os dois amigos não tinham muito dinheiro para o novo negócio, mas conseguiram alugar uma pequena loja no número 268 da Rua da Praia. Eram só duas portas e uma vitrine, mas com boa profundidade, o que permitia ampliar as instalações no futuro. Desta forma surgiu, em dezembro de 1883, a Livraria do Globo, de L.P. Barcellos & Cia, funcionando das 6h30min às 22 horas, inclusive aos sábados. A parte dos fundos foi depois aproveitada para a montagem de uma pequena oficina com uma caixa de tipos, duas máquinas de impressão e um oficial tipógrafo.
Laudelino estava entusiasmado com a expansão do negócio que passou a oferecer serviços de encadernação e pautação. Saturnino, porém, preferiu desfazer a sociedade e Laudelino ficou como único dono. Com o patrimônio em crescimento ele conseguiu comprar o prédio e reformou a fachada. Logo se deu conta, porém, que vender papel e vender livros não era a mesma coisa e com o tempo descobriu os títulos com mais aceitação entre os clientes.
Em 1890, José Bertaso, com apenas 12 anos, ingressou na livraria por recomendação de sua professora, prima de Laudelino. Ele começou como servente recebendo um salário de dez mil réis mais casa e comida. Dez anos depois foi promovido a chefe de loja e administrador da oficina. Nessa época a Livraria do Globo tinha um estoque variado e vendia desde papel de carta até brinquedos, além de livros didáticos e romances, revistas e jornais. A gráfica começava a avançar, mas ainda não oferecia a qualidade dos concorrentes até que em 1909 instalou uma linotipo, a primeira de Porto Alegre. Com esta iniciativa passou a atrair autores importantes da época.
A linha de impressos padronizados e os serviços de litografia também começaram a ganhar espaço. Mais tarde, em 1915, surgiu a idéia do lançamento de um anuário, o Almanaque da Globo, que foi o primeiro grande empreendimento bancado pela Globo como editora, conforme o texto de Barbosa Lessa. Laudelino morreu em 1917 e a empresa continuou a ser administrada por seus herdeiros e José Bertaso que já era sócio.

A importância da era Bertaso

A experiência de José Bertaso adquirida em 28 anos de trabalho na Globo fez com que ele logo assumisse a direção da empresa quando morreu o fundador Laudelino Pinheiro de Barcellos, em 1917. Já na sua gestão foi aberta a primeira filial, em Santa Maria, centro ferroviário do Estado. Ele também tratou de comprar máquinas de escrever - que só existiam no Rio de Janeiro - e uma máquina de somar operada à manivela. Ao perceber que a máquina de escrever poderia afetar as vendas de penas, canetas e tinteiros, tratou de adquirir a representação para o Rio Grande do Sul das máquinas norte-americanas Royal, agregando valor ao seu negócio.
Conta Barbosa Lessa que também nessa década foi adquirido um moderno equipamento de litografia capacitando a Livraria do Globo a imprimir desde rótulos até grandes cartazes coloridos. João Pinto da Silva, orientador intelectual do Almanaque da Globo e Mansueto Bernardi, contratado depois como administrador do escritório, começaram a atrair jovens poetas e escritores gaúchos que nas tardes de sábado transformavam a loja da Rua da Praia em ponto de encontro de intelectuais, políticos e profissionais liberais. A Globo começou a editar novos autores locais como Augusto Meyer e Dyonélio Machado. Do presidente do Estado, Getúlio Vargas, que costumava freqüentar a livraria, veio a idéia do lançamento de uma revista do Sul. Nascia a Revista do Globo.
Com a Revolução de 30 e a nomeação do general Flores da Cunha como interventor do Estado, houve a autorização para emissão de bônus que serviriam de lastro para investimentos na economia gaúcha. À Globo foi dada a missão de imprimir os bônus. Depois a empresa recebeu carta-patente para operar como Casa Bancária destinada a captar, gerir e remunerar a poupança nacional. Outros grupos no País igualmente ganharam cartas-patente. Anos depois, o governador Leonel Brizola também confiou à Globo a impressão de Letras do Tesouro do Estado, que ficaram conhecidas como “brizoletas”.
A consolidação do braço editorial da Globo esteve ligada ao espírito de inovação do filho mais velho de José Bertaso, Henrique, que pediu para ser transferido da loja de livros para a “Secção Editora”. Amigo de Erico Verissimo, responsável pela Revista do Globo, Henrique começou a descobrir novos filões para a editora como novelas policiais. Em 1934 o escritor inglês Somerset Maughan foi lançado no Brasil pela Globo, em 1938 o romance Olhai os Lírios do Campo, de Erico Verissimo ganhou projeção nacional. É também dessa época a cuidadosa tradução da obra completa de Proust.
O prestígio da editora estava no auge na década de 40. A empresa Barcellos, Bertaso & Cia tinha filiais em três cidades gaúchas, escritórios no Rio de Janeiro e em São Paulo e representantes espalhados pelo País. Em 1948, com a morte de José Bertaso, os herdeiros transformaram a empresa em sociedade anônima, Livraria do Globo S/A. Em 1956 as atividades foram divididas entre a Editora Globo e a Livraria do Globo. Na década de 70 o capital foi aberto à participação de outros sócios para manter a empresa economicamente viável, mas os herdeiros continuaram majoritários. Em 1986, três anos depois do centenário de fundação, a Editora Globo, que já estava sediada no Rio de Janeiro, foi vendida à Rio Gráfica Editora, empresa das Organizações Globo. Em seu livro A Globo da Rua da Praia, José Otávio Bertaso (filho de Henrique) conta que quando a editora foi vendida já haviam sido publicados 2.830 títulos.


Foco em livraria e no ramo de material escolar e de escritório

Representante da terceira geração dos Bertaso, Cláudio Bertaso é o acionista majoritário com 45% de participação, seu irmão Fernando tem 10% e a família Wolf outros 30% do capital. O restante está pulverizado entre poucos acionistas. A quarta geração também já faz parte da administração da empresa. Cláudio Bertaso diz que a Livraria do Globo sempre esteve à frente do seu tempo e das grandes iniciativas da empresa. “Somos livreiros por opção”, diz ao destacar que a empresa está focada na livraria e no ramo de material de escritório e escolar. A Livraria do Globo é líder no Estado e tem 17 lojas no Rio Grande do Sul, das quais apenas três em shopping centers.
Bertaso informa que a venda de impressos que já teve uma participação de 50% no faturamento, agora não representa 15%. Ele exemplifica com o volume de vendas de notas promissórias que chegou a 40 milhões/ano e agora é menos de 200 mil/ano. A gráfica da empresa, que no auge chegou a ter 370 empregados, hoje com o avanço da tecnologia conta com cerca de 40. A Globo ainda fabrica as suas agendas, mas não afasta a possibilidade de terceirizar este serviço, e também saem da gráfica livros de registros, livros de atas e talonários destinados principalmente aos pequenos comerciantes.
Com a comercialização de cerca de 3.700 artigos, Bertaso afirma que a livraria atualmente sofre com a concorrência do supermercado que consegue negociar preços melhores em função do grande volume. Mesmo assim, a Livraria do Globo mantém um crescimento constante. No ano passado foi inaugurada a loja no Shopping Praia de Belas, na Capital, e para 2004 está prevista a abertura de mais uma filial em shopping. São todas lojas próprias e a abertura de franquias ainda não faz parte dos planos por causa da responsabilidade em manter a tradição de qualidade da marca centenária. No ano passado, a empresa faturou R$ 35 milhões e a venda de livros teve uma participação de 30%. “Somos varejistas”, afirma Bertaso. Ele reconhece que a empresa ainda tem espaço para crescer principalmente no atendimento corporativo.
Na matriz, na Rua dos Andradas, os livros empatam com a comercialização de artigos de escritório e papelaria. Mas um outro segmento começa a ter bons resultados. “Os artigos ligados à informática já estão praticamente empatando com a venda de livros”, conta. O atendimento é um dos principais diferenciais da Globo e para manter os clientes satisfeitos, os cerca de 400 funcionários recebem treinamento constante. A Globo mantém a gráfica e o depósito em Cachoeirinha e recentemente mudou a administração novamente para Porto Alegre. Para o tradicional prédio da Rua dos Andradas, onde tudo começou.

Livraria do Globo (1883)
Fundadores: Laudelino Pinheiro de Barcellos e Saturnino Pinto
Diretoria atual:
Diretor-presidente: Cláudio Bertaso
Diretor vice-presidente: Henrique Ferreira Bertaso
Diretora-superintendente: Elisa Morganti Bertaso

 
 

 
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