Instalada no distrito industrial de Gravataí,
desde 2001, depois de funcionar em três endereços
de Porto Alegre, a Fundição Becker Ltda.
é um exemplo marcante de empresa familiar duradoura.
Fundada em 1856, é a segunda mais antiga do Estado,
atrás apenas da Azevedo Bento Comércio e
Indústria (1855). A transferência da empresa
para o município vizinho custou US$ 7 milhões
e outros US$ 2 milhões em investimentos estão
previstos até 2005, informa o diretor-geral José
Alfredo Becker. Os recursos serão aplicados na
ampliação da capacidade operacional para
12 mil toneladas de fundidos ao ano. Em 2003 o volume
físico faturado foi de 6 mil toneladas, devendo
crescer para 7,2 mil toneladas em 2004.
A Fundição atravessa uma fase de franco
crescimento desde 1999. De lá para cá, a
produção cresceu 336% e deve continuar aumentando
com novos investimentos na ampliação da
capacidade. Os recursos serão aplicados em equipamentos
de controle de qualidade e do meio ambiente. A empresa
é certificada pela ISO 9001 desde 1994 e está
iniciando procedimentos de controle ambiental para a certificação
ISO 14000.
A empresa produz peças fundidas para vários
segmentos, com destaque para os setores de máquinas
agrícolas, linha automotiva pesada, máquinas
rodoviárias, máquinas operatrizes e elevadores.
Entre os clientes estão gigantes como a AGCO, New
Holland, Caterpillar, GKN, Dana e Elevadores Otis, entre
outros. No ano passado, 7% do faturamento de R$ 23 milhões
veio do mercado externo, com exportações
para Itália, Inglaterra e Estados Unidos.
A sobrevivência por 147 anos sob controle familiar,
um fato raro no País, tem uma explicação.
“Quando entramos no portão da empresa é
só trabalho; ninguém é parente, todos
são profissionais”, diz José Alfredo
Becker. Ӄ fundamental o bom relacionamento
familiar e administrativo, a troca de informações
e a coerência na tomada de decisões”,
completa Maria Cristina Becker, diretora administrativa
e financeira.
O recado tem endereço: o tataraneto do fundador.
Com 28 anos, Alessandro Quadros Becker, filho de José
Alfredo, tem nas mãos o desafio de levar adiante
o negócio que Peter Joseph Becker iniciou em 1856
e de preservar os 350 empregos diretos oferecidos hoje
pela empresa. Representante da quinta geração
e responsável pelo setor de compras, Alessandro
fez todas as tomadas de preços e encomendas de
equipamentos para a nova fábrica.
Uma história que começou às margens
do Guaíba
O ano era 1854. Chegava a Porto Alegre o ferreiro Peter
Joseph Becker com a incumbência de montar três
barcos a vapor que trazia com ele no navio. Ele mesmo
ajudara a construí-los no cais do Rheno, na Alemanha.
Às margens do Guaíba, onde atualmente está
a praça da Alfândega, pôs a navegar
o “Brazileiro”, o “Flecha” e o
“Jaguarão”. Voltou para a Alemanha,
mas levou junto a paisagem da pacata Porto Alegre da metade
do século XIX e o desejo de retornar. Dois anos
depois estava de volta ao Brasil. Em 28 de março
de 1856, instala na rua do Rosário, atual Vigário
José Inácio, junto com o irmão Nicolau,
a José Becker & Irmãos, uma oficina
de ferraria, mecânica e fundição.
Em 1859 a empresa vai para o antigo Caminho Novo, atual
Voluntários da Pátria, onde organiza um
grande estaleiro de navios.
Figura de destaque no cenário empresarial do início
do século passado, o empreender alemão,
que posteriormente adotou o nome de José Becker,
foi destaque de capa, com direito a uma grande foto estampada
no alto, no extinto Jornal do Commercio (de Armenio Jouvin)
em 1° de agosto de 1908, ao completar bodas de ouro.
José Becker, faleceu em 1914, aos 88 anos.
Além de fabricar navios e máquinas, tinha
outra paixão: o cultivo da uva. Ganhou inúmeros
troféus e medalhas nas exposições
de que participou como industrial e viticultor. Contam
seus descendentes que o imigrante tinha grande paixão
pelo Brasil e que costumava aconselhar os conterrâneos
que chegavam nas levas migratórias com a seguinte
mensagem: “Se não gostas do Brasil, sacode
do sapato o pó desta terra e volta, porque este
País é a nossa nova Pátria”.
Em 1948, já com a razão social de Fundição
Becker Ltda. e administrada pelos netos Jorge, Emílio
e Arno, transfere-se para o bairro do Passo d´Areia,
onde operou até 2001, quando trocou as acanhadas
instalações por um espaço de 7,5
mil metros quadrados de área construída
num terreno de 35 mil metros quadrados em Gravataí.
Nos anos 60 passou a produzir peças para implementos
agrícolas e centrais elétricas. Dez anos
depois, com a instalação dos laboratórios
de análises química, física e metalográfica,
iniciou a produção de peças para
tratores, elevadores e máquinas rodoviárias.
Atualmente a empresa é administrada pela quarta
geração dos Becker: José Alfredo,
Maria Cristina e Emílio Becker Filho.