Porto Alegre, Quarta-Feira, 20/8/2008

 
 
Rotermund - Muito mais que agenda
 

A Livraria Evangélica W. Rotermund começou a operar em 1877 com material remanescente de uma cooperativa de pastores evangélicos que importava livros da Alemanha para serem vendidos no Rio Grande do Sul e que tinha encerrado as atividades. Por volta de 1879-1880 o pastor e imigrante alemão Wilhelm Rotermund comprou máquinas tipográficas de um antigo jornal e surgiu a Typografia Wilhelm Rotermund. Posteriormente, a razão social foi alterada para Livraria W. Rotermund e depois para Rotermund & Co. Nessa época foram editadas as duas obras mais disputadas pela comunidade alemã do sul do Brasil: o jornal “Deutsche Post” (Correio Alemão) e o “Almanaque para Alemães no Brasil”. Em 1923 é editado o primeiro exemplar da Agenda do Professor, o que de acordo com a empresa, dá à Rotermund o título de pioneira na fabricação de agendas. De acordo com a bisneta do fundador e diretora da empresa, Renata Rotermund, o patriarca foi também um dos pioneiros do material didático bilíngüe (português e alemão) e da literatura de expressão alemã no Brasil.
Wilhelm Rotermund chegou ao Rio Grande do Sul quatro semanas após o massacre do movimento Mucker, em 1874, acompanhado da esposa Maria. Nascido no Reino de Hannover, estudou Teologia em Erlangen e Göttingen. Doutorou-se pela Universidade de Jena. Anos mais tarde, recebeu da Universidade de Göttingen o título de Doutor Honoris Causa. Em São Leopoldo, tornou-se pastor do grupo minoritário luterano, jornalista, escritor, autor de livros escolares e proprietário de casa editora que leva seu nome e que, em alemão significa boca vermelha. Rotermund tinha sete filhos - seis homens e uma mulher. Depois da morte do fundador, em 5 de abril de 1925, assumiram os filhos Fritz e Ernst Rotermund, juntamente com um sócio alemão, Erich Uttpot.
Em 1877, publicou o primeiro livro didático, a Fibel (Cartilha) que, em sucessivas reedições, teve uma tiragem superior a 100 mil exemplares. Outros 30 livros escolares foram editados, entre os quais Gramática da Língua Portuguesa, livros de História do Brasil, Geografia, Matemática, e livro para a Escola Complementar. Dez destes livros são de autoria de Wilhelm Rotermund. Um dos mais importantes é Vollständige Grammatik der Portugiesischen Sprache, por muito tempo mencionado por gramáticos brasileiros e utilizada também na Europa Central.
Outra publicação, o Kalender für die Deutschen in Brasilien, também conhecido como Rotermundkalender, alcançou até 1941 tiragem anual de 30 mil exemplares, o que faz dele talvez o livro com a mais alta tiragem em língua alemã no Brasil. Na coleção Südamerikanische Literatur, Rotermund reuniu contos de sua autoria e deu espaço para autores teuto-brasileiros publicarem prosa e verso. Foram mais de trinta os volumes e durante a campanha da Nacionalização, o regime de Getúlio Vargas confiscou toda a produção e o estoque de livros em língua alemã existente na Rotermund.
Os pesquisadores lembram, porém, que a obra de Wilhelm Rotermund não se restringe à Firma Rotermund & Co. Antes de se tornar pastor luterano em São Leopoldo, Rotermund foi secretário de Friedrich Fabri, presidente do Comitê para os Alemães Protestantes no Sul do Brasil, que tratava de conseguir obreiros e meios para manter o trabalho pastoral entre os imigrantes alemães luteranos no Rio Grande do Sul.

Mudança cultural

A Rotermund S/A Indústria e Comércio é conhecida pela produção de agendas. Há 15 anos na empresa a bisneta do fundador, Renata Rotermund explica que a empresa é dividida nos ramos gráfico e artefatos plásticos e em dois segmentos: varejo (destinado a papelarias e revendas) e personalizados (sob encomenda). Atua no mercado nacional e tem um distribuidor no Uruguai para onde desenvolve produtos específicos em espanhol.
A empresa faz um intenso trabalho com a equipe de vendas visando uma mudança cultural para superar a sazonalidade das vendas. “Se agenda é Rotermund; Rotermund não é só agenda”, diz Renata. Entre as ações de curto prazo estão parcerias com empresas sinérgicas e, a longo prazo, o desenvolvimento de um novo produto não-sazonal. A empresa também racionalizou a produção, cortou atividades que não agregam valor e investiu na informatização para reduzir as despesas.
A maior dificuldade enfrentada foi durante a Segunda Guerra Mundial, quando editava livros didáticos em alemão e português. No Estado Novo, com a proibição do uso da língua alemã, teve o estoque confiscado e foi proibida de comprar matérias-primas. A Rotermund aproveitou a adversidade para entrar mais forte no mercado de agendas. Outro momento difícil foi a quebra do Sulbrasileiro, porque praticamente a totalidade das operações financeiras estava concentrada no banco.

 
 

 
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