O dia e o mês ninguém sabe. O ano era 1878.
Os documentos que poderiam dar pista sobre a data de fundação
da Produtos Alimentícios Corsetti S.A. Indústria
e Comércio foram consumidos no início do
século por um incêndio na Igreja Santa Teresa,
que guardava muitas das informações sobre
a chegada de imigrantes à serra gaúcha.
O certo é que o imigrante italiano Antonio Corsetti
começou a transformar milho em farinha, um ano
depois de chegar ao Campo dos Bugres (atual Caxias do
Sul) com a mulher Antônia Parenza Corsetti e duas
filhas. Não por coincidência, a farinha de
milho, matéria-prima da tradicional polenta, foi
o primeiro produto beneficiado na propriedade de 40 hectares,
na ª Légua, hoje bairro Santa Catarina, que
o patriarca ganhou do governo federal em 1877. Eram muitos
os imigrantes que vinham da Itália para cultivar
a terra na região e já havia oferta abundante
de grãos. Em seguida, Antônio passou a produzir
óleo de linhaça para impermeabilizar as
casas de madeira. Assim nasceu a Corsetti, uma empresa
voltada à produção de alimentos e
que aos 125 anos exibe um portfolio de mais de 100 itens.
Da 9ª Légua, distante da cidade e de outros
conglomerados urbanos, a empresa se transferiu para a
rua Os 18 do Forte, em 1915, onde está até
hoje. “Mas os tempos são de mudança”,
avisa o diretor José Cesa Neto. A Corsetti está
praticamente no centro de Caxias não tem mais para
onde se expandir. Perto dali, funciona unidade 2, na rua
Garibaldi, também na área central, mas idéia
é transferir todo o parque industrial para um local
único e distante da agitação da área
urbana. Primeiro a empresa pretende realocar a unidade
1 e, depois, a unidade 2.Independente da mudança,
os acionistas decidiram investir imediatamente na locação
de um pavilhão para desafogar a produção
e melhor atender clientes como Nestlé e Unilever,
que compram insumos básicos para suas linhas de
alimentos, e que vinham reduzindo sua participação.
Com a ampliação do atendimento às
multinacionais, somada ao lançamento de uma linha
de sucos e outra de condimentos, a empresa quer aumentar
em 40% o faturamento que, em 2003, foi de R$ 15 milhões.
Das receitas consolidadas, cerca de 40% se origina do
fornecimento de insumos às industrias alimentícias
e 60% ao varejo. A exportação para os Estados
Unidos, Jamaica e Mercosul representa 5% dos resultados.
Marcas como a aveia Soberana (flocos, flocos finos, farinha
e farelo) e a farinha de milho Perdiz (grossa, média
e creme) estão no mercado há mais de 80
anos. A empresa beneficia todo o tipo de grãos
e legumes, alguns pouco conhecidos do consumidor, como
a canjica de trigo, largamente utilizada na fronteira
como ingrediente de um prato a base de ovelha. Da polenta
instantânea à pipoca natural e com sabores,
às recentes linhas de suco, tudo passa por rigoroso
controle laboratorial. As análises são precedidas
na chegada dos grãos ou legumes e, posteriormente,
quando o produto está pronto para ser consumido.
A empresa não usa conservantes químicos
em nenhum dos processos. Os investimentos em logística,
infra-estrutura e lançamento de produtos previstos
para 2004 somam R$ 1,5 milhão. Além das
duas unidades em Caxias do Sul, a Corsetti tem uma fábrica
em Campo Mourão, no Paraná. A quinta geração
no comando dos negócios Nascidos em Rosai, região
do Feltre, o casal italiano Antonio Corsetti e Antonia
Parenza Corsetti chegou ao Brasil em 1877, com as filhas
Ana Ângela e Josefina, nascidas na Itália,
rumo ao local que lhes fora destinado pela imigração:
o Campo dos Bugres, atual Caxias do Sul. Inicialmente
instalaram-se com os meios que dispunham, mas já
trazendo em mente a implantação de uma pequena
indústria de moagem. As primeiras máquinas
foram idealizadas e construídas por processos rudimentares
e com a colaboração de outros imigrantes.
A força motriz era retirada de um canal que levava
água até uma grande roda de madeira, que
por sua vez movimentava as máquinas que moeram
os primeiros cereais. O ano era 1878, considerado marco
do surgimento da indústria de alimentos Corsetti.
Mais tarde, o patriarca ampliou o negócio, instalando
uma pequena esmagadora de grãos, como linhaça
e girassol, para aproveitamento do óleo. Instalados
na 9ª Légua, atual bairro Santa Catarina,
o casal teve mais três filhos: Luiz, João
e Angelo. Com apoio da família, o negócio
foi se expandindo, dentro das possibilidades, bastante
precárias à época. Em 1912, a empresa
passou ao controle dos filhos e à denominação
de Irmãos Corsetti. Nos anos seguintes, João
comprou a parte do irmão Angelo, que seguiu em
outra atividade e, em janeiro de 1915, as operações
passam para a rua Os 18 do Forte, em Caxias do Sul, onde
estão até hoje. Desde então, a empresa
passou por associações e alterações
societárias. Um dos novos sócios, Carlos
Germano Fleck, um comerciante estabelecido em Caxias do
Sul, gerou com João Corsetti a Fleck & Corsetti,
em 1916, mas a sociedade não prosperou, voltando
o controle para o antigo dono. Iniciava-se então
Cinco famílias detêm o controle acionário
Desde que foi criada em 1878, a Corsetti já passou
por várias alterações societárias.
Hoje, é uma sociedade anônima de capital
fechado, comandada por cinco famílias descendentes
do patriarca Antonio e 110 funcionários na operação
e escritório. Na presidência do Conselho
de Administração está Ana Lúcia
Torresini Venturella, representante da quinta geração,
tataraneta do fundador. “A receita para tamanha
longevidade está na filosofia deixada por nossos
antepassados. Fomos criados aprendendo a amar a empresa”,
diz o diretor José Cesa Neto. À tese de
princípios, o diretor acrescenta outros valores,
entre eles o investimento do lucro para que a empresa
se mantenha atualizada em relação à
concorrência e às exigências dos consumidores,
além do zelo pela qualidade. A administração
deixou de ser eminentemente familiar há algum tempo
e conta hoje com a figura do superintendente contratado,
uma espécie de mediador e dono do voto de minerva
na superação de conflitos. Ao longo de 125
anos, a Corsetti enfrentou e superou crises, muitas delas
provocadas pela instabilidade da economia brasileira.
A maior delas, de ordem familiar, aconteceu em 1986, quando
eram oito as famílias controladoras. Três
resolveram se afastar e negociaram suas participações
com as cinco que permanecem até hoje. Na época,
o desembolso para ajustar as contas dos sócios
que deixaram a organização interferiu na
saúde financeira da empresa, mas a recuperação
veio em seguida. De acordo com Cesa Neto, a Corsetti opera
com baixo endividamento financeiro e está com suas
obrigações tributárias em dia, amparadas
pelo Refis e Refaz. O patrimônio imobiliário
cobre em várias vezes o endividamento. Além
de produzir farinhas, polenta, pipoca, sagu, feijão,
ervilha, sucos e condimentos, o clã Corsetti produziu
políticos de trajetória nacional e local.
Higino Corsetti, ministro das Comunicações
no governo Emílio Médici é sobrinho
de João Corsetti, da segunda geração,
um dos grandes impulsionadores da empresa ao lado da mulher
Regina Andreazza Corsetti. Darwin Corsetti, pedetista
histórico, foi vereador em Caxias e liderou o PDT
local por longo período.