Porto Alegre, Quarta-Feira, 20/8/2008

 
 
Corsetti - Da polenta aos sucos e condimentos
 

O dia e o mês ninguém sabe. O ano era 1878. Os documentos que poderiam dar pista sobre a data de fundação da Produtos Alimentícios Corsetti S.A. Indústria e Comércio foram consumidos no início do século por um incêndio na Igreja Santa Teresa, que guardava muitas das informações sobre a chegada de imigrantes à serra gaúcha. O certo é que o imigrante italiano Antonio Corsetti começou a transformar milho em farinha, um ano depois de chegar ao Campo dos Bugres (atual Caxias do Sul) com a mulher Antônia Parenza Corsetti e duas filhas. Não por coincidência, a farinha de milho, matéria-prima da tradicional polenta, foi o primeiro produto beneficiado na propriedade de 40 hectares, na ª Légua, hoje bairro Santa Catarina, que o patriarca ganhou do governo federal em 1877. Eram muitos os imigrantes que vinham da Itália para cultivar a terra na região e já havia oferta abundante de grãos. Em seguida, Antônio passou a produzir óleo de linhaça para impermeabilizar as casas de madeira. Assim nasceu a Corsetti, uma empresa voltada à produção de alimentos e que aos 125 anos exibe um portfolio de mais de 100 itens. Da 9ª Légua, distante da cidade e de outros conglomerados urbanos, a empresa se transferiu para a rua Os 18 do Forte, em 1915, onde está até hoje. “Mas os tempos são de mudança”, avisa o diretor José Cesa Neto. A Corsetti está praticamente no centro de Caxias não tem mais para onde se expandir. Perto dali, funciona unidade 2, na rua Garibaldi, também na área central, mas idéia é transferir todo o parque industrial para um local único e distante da agitação da área urbana. Primeiro a empresa pretende realocar a unidade 1 e, depois, a unidade 2.Independente da mudança, os acionistas decidiram investir imediatamente na locação de um pavilhão para desafogar a produção e melhor atender clientes como Nestlé e Unilever, que compram insumos básicos para suas linhas de alimentos, e que vinham reduzindo sua participação. Com a ampliação do atendimento às multinacionais, somada ao lançamento de uma linha de sucos e outra de condimentos, a empresa quer aumentar em 40% o faturamento que, em 2003, foi de R$ 15 milhões. Das receitas consolidadas, cerca de 40% se origina do fornecimento de insumos às industrias alimentícias e 60% ao varejo. A exportação para os Estados Unidos, Jamaica e Mercosul representa 5% dos resultados. Marcas como a aveia Soberana (flocos, flocos finos, farinha e farelo) e a farinha de milho Perdiz (grossa, média e creme) estão no mercado há mais de 80 anos. A empresa beneficia todo o tipo de grãos e legumes, alguns pouco conhecidos do consumidor, como a canjica de trigo, largamente utilizada na fronteira como ingrediente de um prato a base de ovelha. Da polenta instantânea à pipoca natural e com sabores, às recentes linhas de suco, tudo passa por rigoroso controle laboratorial. As análises são precedidas na chegada dos grãos ou legumes e, posteriormente, quando o produto está pronto para ser consumido. A empresa não usa conservantes químicos em nenhum dos processos. Os investimentos em logística, infra-estrutura e lançamento de produtos previstos para 2004 somam R$ 1,5 milhão. Além das duas unidades em Caxias do Sul, a Corsetti tem uma fábrica em Campo Mourão, no Paraná. A quinta geração no comando dos negócios Nascidos em Rosai, região do Feltre, o casal italiano Antonio Corsetti e Antonia Parenza Corsetti chegou ao Brasil em 1877, com as filhas Ana Ângela e Josefina, nascidas na Itália, rumo ao local que lhes fora destinado pela imigração: o Campo dos Bugres, atual Caxias do Sul. Inicialmente instalaram-se com os meios que dispunham, mas já trazendo em mente a implantação de uma pequena indústria de moagem. As primeiras máquinas foram idealizadas e construídas por processos rudimentares e com a colaboração de outros imigrantes. A força motriz era retirada de um canal que levava água até uma grande roda de madeira, que por sua vez movimentava as máquinas que moeram os primeiros cereais. O ano era 1878, considerado marco do surgimento da indústria de alimentos Corsetti. Mais tarde, o patriarca ampliou o negócio, instalando uma pequena esmagadora de grãos, como linhaça e girassol, para aproveitamento do óleo. Instalados na 9ª Légua, atual bairro Santa Catarina, o casal teve mais três filhos: Luiz, João e Angelo. Com apoio da família, o negócio foi se expandindo, dentro das possibilidades, bastante precárias à época. Em 1912, a empresa passou ao controle dos filhos e à denominação de Irmãos Corsetti. Nos anos seguintes, João comprou a parte do irmão Angelo, que seguiu em outra atividade e, em janeiro de 1915, as operações passam para a rua Os 18 do Forte, em Caxias do Sul, onde estão até hoje. Desde então, a empresa passou por associações e alterações societárias. Um dos novos sócios, Carlos Germano Fleck, um comerciante estabelecido em Caxias do Sul, gerou com João Corsetti a Fleck & Corsetti, em 1916, mas a sociedade não prosperou, voltando o controle para o antigo dono. Iniciava-se então Cinco famílias detêm o controle acionário Desde que foi criada em 1878, a Corsetti já passou por várias alterações societárias. Hoje, é uma sociedade anônima de capital fechado, comandada por cinco famílias descendentes do patriarca Antonio e 110 funcionários na operação e escritório. Na presidência do Conselho de Administração está Ana Lúcia Torresini Venturella, representante da quinta geração, tataraneta do fundador. “A receita para tamanha longevidade está na filosofia deixada por nossos antepassados. Fomos criados aprendendo a amar a empresa”, diz o diretor José Cesa Neto. À tese de princípios, o diretor acrescenta outros valores, entre eles o investimento do lucro para que a empresa se mantenha atualizada em relação à concorrência e às exigências dos consumidores, além do zelo pela qualidade. A administração deixou de ser eminentemente familiar há algum tempo e conta hoje com a figura do superintendente contratado, uma espécie de mediador e dono do voto de minerva na superação de conflitos. Ao longo de 125 anos, a Corsetti enfrentou e superou crises, muitas delas provocadas pela instabilidade da economia brasileira. A maior delas, de ordem familiar, aconteceu em 1986, quando eram oito as famílias controladoras. Três resolveram se afastar e negociaram suas participações com as cinco que permanecem até hoje. Na época, o desembolso para ajustar as contas dos sócios que deixaram a organização interferiu na saúde financeira da empresa, mas a recuperação veio em seguida. De acordo com Cesa Neto, a Corsetti opera com baixo endividamento financeiro e está com suas obrigações tributárias em dia, amparadas pelo Refis e Refaz. O patrimônio imobiliário cobre em várias vezes o endividamento. Além de produzir farinhas, polenta, pipoca, sagu, feijão, ervilha, sucos e condimentos, o clã Corsetti produziu políticos de trajetória nacional e local. Higino Corsetti, ministro das Comunicações no governo Emílio Médici é sobrinho de João Corsetti, da segunda geração, um dos grandes impulsionadores da empresa ao lado da mulher Regina Andreazza Corsetti. Darwin Corsetti, pedetista histórico, foi vereador em Caxias e liderou o PDT local por longo período.

 
 

 
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