Quando criou a Companhia Carris Porto-Alegrense, em 19
de junho de 1872, o imperador dom Pedro II não
imaginava que estava entregando à cidade, então
com 44 mil habitantes, uma empresa que se tornaria marco
do transporte coletivo, exemplo de gestão no setor
e uma da mais premiadas e reconhecidas organizações
sob controle público municipal. Dona de 22% do
mercado de transporte urbano da Capital, por onde circulam
diariamente mais de 200 mil passageiros, a Carris opera
uma frota de 323 veículos com idade média
de cinco anos, em dez linhas transversais, oito radiais
e três circulares.
Em 131 anos de história, a empresa pioneira no
transporte de passageiros passou por administrações
pública e privada. Inovou trazendo para a cidade
a modernidade dos bondes, depois o conforto dos ônibus.
Conheceu a glória e a decadência, mas sobreviveu.
Desde 1995 é uma organização rentável,
competitiva, autosustentável e indutora do sistema
privado, formado por outras 14 empresas. Do faturamento
de R$ 83 milhões em 2003, cerca de 10% foram investidos
na modernização da frota e das oficinas
e na formação dos 1600 empregados. “Em
média, 32 veículos novos entram em circulação
anualmente em substituição aos mais antigos,
para garantir a qualidade dos serviços prestados”,
diz o diretor-presidente Daniel Maia.
Do total da frota, dois terços têm característica
“padron”, que inclui computador de bordo,
câmbio automático, suspensão a ar,
motor traseiro, portas amplas, degraus mais baixos, assentos
estofados e individualizados, isolamento térmico,
vidros fumê, entre outros itens de conforto. O ar-condicionado
está presente em 121 veículos e a acessibilidade
universal (low entry) em 104. Circulam ainda 24 ônibus
articulados e 15 com elevadores hidráulicos para
portadores de deficiência física.
Comprometida com o meio ambiente, a empresa adota tecnologias
alternativas que reduzem os níveis de poluição.
Para as três linhas circulares do Centro da cidade
estuda, em parceria com fornecedores, o desenvolvimento
de um modelo de ônibus compacto híbrido,
movimentado por eletricidade e diesel, simultaneamente,
ou a gás, informa Maia. “Além de mais
conforto, o veículo reduziria drasticamente a emissão
de poluentes na atmosfera”, explica.
Os primeiros bondes sob o comando da Carris circularam
em 1873, um ano depois de criada a companhia. Antes, por
volta de 1865, o deslocamento da população
era feito por “gôndolas”, um tipo de
carroça coberta que andava em trilhos de madeiras,
puxada por mulas. Naquela época, era comum três
horas de deslocamento do Centro da cidade ao Arraial do
Menino Deus.
A eletricidade, novidade do início do século
XX, além de iluminar as vias públicas, viabilizou
a implantação, em 1906, do primeiro bonde
movido à tração elétrica da
cidade. Logo Porto Alegre foi tomada pelos bondes, surgindo
a figura do motorneiro, o profissional que conduzia o
veículo sob trilhos. Mais tarde , em 1926, como
auxiliares do transporte, surgiram os “auto omnibus”,
para levar passageiros aos locais aonde os bondes não
chegavam.
Em 1929, então sob administração
da companhia norte-americana Eletric Bond & Share,
a Carris colocou em operação o “yellow
coach”, seu primeiro ônibus para transporte
público. Em 22 de fevereiro de 1954, a companhia
tornou-se uma empresa pública, após um tumultuado
processo na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.
Nas décadas seguintes, sem condições
de competir com os avanços na área do transporte,
os bondes passaram a dividir cada vez mais o mercado com
as linhas de ônibus e automóveis particulares.
Sem capital para investir, a frota tornou-se obsoleta
e, em 1970, o último bonde sacolejou pelas ruas
de Porto Alegre, deixando para trás o romantismo
das viagens sobre trilhos. Encerrava-se um ciclo da história
do transporte de passageiros da cidade.
Transparência na ação social
O Balanço Social da Carris conquistou o selo do
Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
(Ibase). Fundada em 1997 pelo sociólogo Betinho,
a entidade concede o reconhecimento às empresas
preocupadas em desenvolver e estimular ações
de cidadania. “A maioria das iniciativas da companhia
na área social surgem por idéias e empenho
dos funcionários”, diz o presidente da empresa,
Daniel Maia. Entre as principais ações,
o dirigente destaca o Fundo SOS Afastados, destinado aos
funcionários temporariamente fora do serviço
por problemas de saúde, e o Fundo Social Voluntário,
para o auxílio de entidades. Contribuem espontaneamente
com o SOS Afastados mais de mil funcionários.
O Fundo Voluntário, outra iniciativa pioneira da
companhia, reúne mais de 40% do quadro dos trabalhadores.
Criado em 2000, o Fundo gera receitas que vão para
entidades como o Instituto Santa Cecília, que distribui
almoço para moradores de rua, a Associação
Louis Braile, para idosos cegos, e o Centro Comunitário
São José Operário, que cuida de crianças
e adolescentes carentes.
A divisão dos lucros da empresa, que desde 1995
apresenta resultado operacional positivo, é outro
destaque do Balanço Social. Em 2002, o Plano de
Participação nos Resultados Carris (PPRC)
distribuiu R$ 364 mil a 1.225 funcionários. Também
merece referência a criação da Universidade
Corporativa Carris (Unicca), que em parceria com a Pontifícia
Universidade Católica (Pucrs) oferece a 60 colaboradores
o curso superior seqüencial de Gestão em Transporte
Coletivo.
Pioneira no Rio Grande do Sul, a empresa de transporte
coletivo da Prefeitura Municipal de Porto Alegre publica
seu Balanço Social desde 1997. Atualmente, é
fonte de estudos no meio universitário. A companhia
é citada como exemplo em duas obras referenciais
para o assunto: “Balanço Social: uma abordagem
da transparência e da responsabilidade pública
das organizações”, do professor José
Prudêncio Tinoco, da Universidade de São
Paulo (USP) e “Balanço Social: teoria e prática”,
do professor Carlos Stevens Kroetz, da Universidade de
Ijuí (Unijuí).
Sistema de gestão facilita adequação
às normas ISO 14000
Em busca da certificação ISO 14000, a Carris
implementou um sistema de gestão ambiental que
tem por finalidade reduzir o impacto da poluição
sonora, hídrica, do solo e atmosférica,
resultantes de sua atuação e, ainda, a redução
dos insumos necessários à produção
dos seus serviços. As ações permanentes,
sob auto-avaliação, compreendem o controle
da emissão de fumaça, utilização
de motores e combustíveis ecológicos, descarbonização
dos motores, tratamento e reaproveitamento da água
resultante da lavagem dos ônibus, entre outros.
Com a iniciativa, a Carris assume o compromisso público
de dar prioridade aos cuidados com o meio ambiente, segurança
e saúde ocupacional.
Recentemente, a companhia renovou o certificado de qualidade
ISO 9001, após auditoria do Bureau Veritas Quality
Internacional (BVQI). Paralelamente, visa à conquista
da Norma OSHAS 18001, que certifica empresas com programas
adequados de segurança e saúde no trabalho.
Desde que passou a ser gerida por conceitos da gestão
profissional e da qualidade, a empresa acumulou premiações
e reconhecimentos em várias esferas, como o Prêmio
de Responsabilidade Social, conferido pela Assembléia
Legislativa, destinado a entidades gaúchas com
ações voltadas à cidadania, e o Prêmio
ANTP de Qualidade.
No âmbito das ações internas, a Carris
implantou com sucesso, em parceria com o Serviço
Social da Indústria (Sesi), o programa de prevenção
às drogas recomendado pela Organização
das Nações Unidas (ONU). Dois anos após
a implantação, o índice de fumantes
caiu 38% e o percentual de funcionários que não
consomem bebidas alcoólicas cresceu de 17% para
27,5%. O programa preventivo é coordenado por serviço
social da empresa, com o apoio do Grupo Vida, que reúne
15 representantes de diversos setores da companhia. Nesses
dois anos, várias medidas foram implementadas pelo
grupo, entre elas a proibição de fumar nos
ônibus, nos terminais, em salas, refeitórios
e banheiros.
Ouro no prêmio nacional de gestão pública
A Carris é a primeira instituição
municipal do País reconhecida com o Prêmio
Nacional de Gestão Pública (PNGP). Nas cinco
edições anteriores, somente entidades da
esfera federal e estadual foram distinguidas. Com a conquista,
a empresa passa a ser a primeira instituição
da área de transporte urbano a ser reconhecida,
desde a primeira premiação, e a única
no Estado a receber a faixa ouro. Instituído em
1998, o prêmio é uma das ações
estratégicas do Programa da Qualidade no Serviço
Público, criado pelo Governo Federal. Seu objetivo
é reconhecer e premiar as organizações
públicas que comprovem alto desempenho institucional
com qualidade em gestão.
Em outubro do ano passado, a companhia recebeu a visita
de sete auditores que fizeram a avaliação
da qualidade de seus processos. Com uma média de
55 inscritos por ano, apenas 30% são selecionados
para visitação. Em 2003, das 81 instituições
inscritas, 45 tiveram seus relatórios selecionados,
20 foram auditadas e 15 premiadas nas faixas ouro, prata
e bronze.
A banca examinadora avaliou as candidatas com base no
modelo de Excelência em Gestão Pública,
adotado pelos setores público e privado em mais
de 120 países e 60 prêmios, entre eles o
President’s Quality Award (específico para
organizações públicas), o Malcoln
Baldrige National Quality Award, dos Estados Unidos, o
Prêmio Europeu de Qualidade, o Prêmio Ibero-americano
de Qualidade e o Prêmio Nacional de Qualidade, do
Brasil.