Porto Alegre, Quarta-Feira, 20/8/2008

 
 
Companhia Carris - Modelo no transporte de passageiros
 

Quando criou a Companhia Carris Porto-Alegrense, em 19 de junho de 1872, o imperador dom Pedro II não imaginava que estava entregando à cidade, então com 44 mil habitantes, uma empresa que se tornaria marco do transporte coletivo, exemplo de gestão no setor e uma da mais premiadas e reconhecidas organizações sob controle público municipal. Dona de 22% do mercado de transporte urbano da Capital, por onde circulam diariamente mais de 200 mil passageiros, a Carris opera uma frota de 323 veículos com idade média de cinco anos, em dez linhas transversais, oito radiais e três circulares.
Em 131 anos de história, a empresa pioneira no transporte de passageiros passou por administrações pública e privada. Inovou trazendo para a cidade a modernidade dos bondes, depois o conforto dos ônibus. Conheceu a glória e a decadência, mas sobreviveu. Desde 1995 é uma organização rentável, competitiva, autosustentável e indutora do sistema privado, formado por outras 14 empresas. Do faturamento de R$ 83 milhões em 2003, cerca de 10% foram investidos na modernização da frota e das oficinas e na formação dos 1600 empregados. “Em média, 32 veículos novos entram em circulação anualmente em substituição aos mais antigos, para garantir a qualidade dos serviços prestados”, diz o diretor-presidente Daniel Maia.
Do total da frota, dois terços têm característica “padron”, que inclui computador de bordo, câmbio automático, suspensão a ar, motor traseiro, portas amplas, degraus mais baixos, assentos estofados e individualizados, isolamento térmico, vidros fumê, entre outros itens de conforto. O ar-condicionado está presente em 121 veículos e a acessibilidade universal (low entry) em 104. Circulam ainda 24 ônibus articulados e 15 com elevadores hidráulicos para portadores de deficiência física.
Comprometida com o meio ambiente, a empresa adota tecnologias alternativas que reduzem os níveis de poluição. Para as três linhas circulares do Centro da cidade estuda, em parceria com fornecedores, o desenvolvimento de um modelo de ônibus compacto híbrido, movimentado por eletricidade e diesel, simultaneamente, ou a gás, informa Maia. “Além de mais conforto, o veículo reduziria drasticamente a emissão de poluentes na atmosfera”, explica.
Os primeiros bondes sob o comando da Carris circularam em 1873, um ano depois de criada a companhia. Antes, por volta de 1865, o deslocamento da população era feito por “gôndolas”, um tipo de carroça coberta que andava em trilhos de madeiras, puxada por mulas. Naquela época, era comum três horas de deslocamento do Centro da cidade ao Arraial do Menino Deus.
A eletricidade, novidade do início do século XX, além de iluminar as vias públicas, viabilizou a implantação, em 1906, do primeiro bonde movido à tração elétrica da cidade. Logo Porto Alegre foi tomada pelos bondes, surgindo a figura do motorneiro, o profissional que conduzia o veículo sob trilhos. Mais tarde , em 1926, como auxiliares do transporte, surgiram os “auto omnibus”, para levar passageiros aos locais aonde os bondes não chegavam.
Em 1929, então sob administração da companhia norte-americana Eletric Bond & Share, a Carris colocou em operação o “yellow coach”, seu primeiro ônibus para transporte público. Em 22 de fevereiro de 1954, a companhia tornou-se uma empresa pública, após um tumultuado processo na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.
Nas décadas seguintes, sem condições de competir com os avanços na área do transporte, os bondes passaram a dividir cada vez mais o mercado com as linhas de ônibus e automóveis particulares. Sem capital para investir, a frota tornou-se obsoleta e, em 1970, o último bonde sacolejou pelas ruas de Porto Alegre, deixando para trás o romantismo das viagens sobre trilhos. Encerrava-se um ciclo da história do transporte de passageiros da cidade.

Transparência na ação social

O Balanço Social da Carris conquistou o selo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Fundada em 1997 pelo sociólogo Betinho, a entidade concede o reconhecimento às empresas preocupadas em desenvolver e estimular ações de cidadania. “A maioria das iniciativas da companhia na área social surgem por idéias e empenho dos funcionários”, diz o presidente da empresa, Daniel Maia. Entre as principais ações, o dirigente destaca o Fundo SOS Afastados, destinado aos funcionários temporariamente fora do serviço por problemas de saúde, e o Fundo Social Voluntário, para o auxílio de entidades. Contribuem espontaneamente com o SOS Afastados mais de mil funcionários.
O Fundo Voluntário, outra iniciativa pioneira da companhia, reúne mais de 40% do quadro dos trabalhadores. Criado em 2000, o Fundo gera receitas que vão para entidades como o Instituto Santa Cecília, que distribui almoço para moradores de rua, a Associação Louis Braile, para idosos cegos, e o Centro Comunitário São José Operário, que cuida de crianças e adolescentes carentes.
A divisão dos lucros da empresa, que desde 1995 apresenta resultado operacional positivo, é outro destaque do Balanço Social. Em 2002, o Plano de Participação nos Resultados Carris (PPRC) distribuiu R$ 364 mil a 1.225 funcionários. Também merece referência a criação da Universidade Corporativa Carris (Unicca), que em parceria com a Pontifícia Universidade Católica (Pucrs) oferece a 60 colaboradores o curso superior seqüencial de Gestão em Transporte Coletivo.
Pioneira no Rio Grande do Sul, a empresa de transporte coletivo da Prefeitura Municipal de Porto Alegre publica seu Balanço Social desde 1997. Atualmente, é fonte de estudos no meio universitário. A companhia é citada como exemplo em duas obras referenciais para o assunto: “Balanço Social: uma abordagem da transparência e da responsabilidade pública das organizações”, do professor José Prudêncio Tinoco, da Universidade de São Paulo (USP) e “Balanço Social: teoria e prática”, do professor Carlos Stevens Kroetz, da Universidade de Ijuí (Unijuí).

Sistema de gestão facilita adequação às normas ISO 14000

Em busca da certificação ISO 14000, a Carris implementou um sistema de gestão ambiental que tem por finalidade reduzir o impacto da poluição sonora, hídrica, do solo e atmosférica, resultantes de sua atuação e, ainda, a redução dos insumos necessários à produção dos seus serviços. As ações permanentes, sob auto-avaliação, compreendem o controle da emissão de fumaça, utilização de motores e combustíveis ecológicos, descarbonização dos motores, tratamento e reaproveitamento da água resultante da lavagem dos ônibus, entre outros. Com a iniciativa, a Carris assume o compromisso público de dar prioridade aos cuidados com o meio ambiente, segurança e saúde ocupacional.
Recentemente, a companhia renovou o certificado de qualidade ISO 9001, após auditoria do Bureau Veritas Quality Internacional (BVQI). Paralelamente, visa à conquista da Norma OSHAS 18001, que certifica empresas com programas adequados de segurança e saúde no trabalho.
Desde que passou a ser gerida por conceitos da gestão profissional e da qualidade, a empresa acumulou premiações e reconhecimentos em várias esferas, como o Prêmio de Responsabilidade Social, conferido pela Assembléia Legislativa, destinado a entidades gaúchas com ações voltadas à cidadania, e o Prêmio ANTP de Qualidade.
No âmbito das ações internas, a Carris implantou com sucesso, em parceria com o Serviço Social da Indústria (Sesi), o programa de prevenção às drogas recomendado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Dois anos após a implantação, o índice de fumantes caiu 38% e o percentual de funcionários que não consomem bebidas alcoólicas cresceu de 17% para 27,5%. O programa preventivo é coordenado por serviço social da empresa, com o apoio do Grupo Vida, que reúne 15 representantes de diversos setores da companhia. Nesses dois anos, várias medidas foram implementadas pelo grupo, entre elas a proibição de fumar nos ônibus, nos terminais, em salas, refeitórios e banheiros.

Ouro no prêmio nacional de gestão pública

A Carris é a primeira instituição municipal do País reconhecida com o Prêmio Nacional de Gestão Pública (PNGP). Nas cinco edições anteriores, somente entidades da esfera federal e estadual foram distinguidas. Com a conquista, a empresa passa a ser a primeira instituição da área de transporte urbano a ser reconhecida, desde a primeira premiação, e a única no Estado a receber a faixa ouro. Instituído em 1998, o prêmio é uma das ações estratégicas do Programa da Qualidade no Serviço Público, criado pelo Governo Federal. Seu objetivo é reconhecer e premiar as organizações públicas que comprovem alto desempenho institucional com qualidade em gestão.
Em outubro do ano passado, a companhia recebeu a visita de sete auditores que fizeram a avaliação da qualidade de seus processos. Com uma média de 55 inscritos por ano, apenas 30% são selecionados para visitação. Em 2003, das 81 instituições inscritas, 45 tiveram seus relatórios selecionados, 20 foram auditadas e 15 premiadas nas faixas ouro, prata e bronze.
A banca examinadora avaliou as candidatas com base no modelo de Excelência em Gestão Pública, adotado pelos setores público e privado em mais de 120 países e 60 prêmios, entre eles o President’s Quality Award (específico para organizações públicas), o Malcoln Baldrige National Quality Award, dos Estados Unidos, o Prêmio Europeu de Qualidade, o Prêmio Ibero-americano de Qualidade e o Prêmio Nacional de Qualidade, do Brasil.

 
 

 
Copyright © Companhia Jornalística J.C. Jarros - Todos os direitos reservados.
Av. João Pessoa, 1282 - POA - RS - CEP 90040-001 - Fone (51) 3213.1300 - Fax (51) 3213.1339 ou 3213.1332