Responsáveis por 67% da produção nacional de implementos rodoviários da linha pesada, os principais fabricantes do Rio Grande do Sul acreditam que o próximo ano será o início de um ciclo de recuperação gradual e consistente, com média anual de 5% a 8% até 2015. Esta visão está sustentada na convicção de recuperação contínua da economia interna, das obras para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos e da retomada de mercados no exterior.
O diretor-executivo da Randon, Norberto Fabris, e o diretor-geral da Guerra, Rodmar Cardinali, ambas com sede em Caxias do Sul, acreditam que a linha de equipamentos pesados (rebocados por caminhões) se elevará de 8% a 10% e que a de leves (carrocerias sobre chassis) alcançará até 12%, totalizando números nacionais absolutos próximos a 116 mil unidades em 2010. Neste ano a produção total do Brasil será perto de 105 mil veículos, em queda de 25% a 28% ante a de 2008.
O pensamento do diretor-financeiro e de relações com investidores da Recrusul, de Sapucaia do Sul, Bernardo Flores, segue linha muito semelhante. Ele acredita ser possível atingir a venda interna de 42,5 mil semirreboques, alta de 10% sobre a estimativa de 38,6 mil para este ano. Já o mercado externo deve agregar mais 8% de negócios, elevando a produção total para perto de 46 mil unidades pesadas.
Para Cardinali, o setor será impulsionado por modelos basculantes, que passarão a ter dupla função: além da aplicação na construção civil e de estradas servirão também para o transporte de grãos nos períodos de safra. Ainda terão representatividade modelos canavieiros e tanques. Para Flores, a reação doméstica se dará basicamente pelo crescimento da construção civil, pela continuidade do aumento do crédito e por novas obras de infraestrutura, petróleo e gás, que estão gradualmente saindo do papel para a execução.
Desse total, algo como 5 mil veículos seguirão para o exterior, alta de 40% sobre as 3,5 mil deste ano, que representarão menos de 50% das 7 mil de 2008. Fabris assinala que todos os mercados externos passaram por dificuldades, com cancelamentos de pedidos. "A recuperação virá por conta da retomada parcial de mercados na América do Sul, América Latina, Oriente Médio e África."
O diretor da Randon calcula alta de 8% na produção da empresa em 2010, ficando perto de 17,3 mil unidades. Ele conta que em 2009 o volume será de 16 mil veículos, queda de 30%, decorrente principalmente da perda de vendas no mercado externo. No caso da Guerra, a estimativa é de 10%, alcançando perto de 7,7 mil veículos. Ainda em fase de elaboração do orçamento da Recrusul para 2010, Flores antecipa como meta a continuidade da expansão do market-share no mercado nacional, essencialmente no segmento de modelos frigorificados, já que as exportações são ainda muito pontuais para países do Mercosul.
Redução de incentivos do governo pode comprometer metas
Garantir condições de os clientes confirmarem as vendas que pretendem fazer será o grande desafio para 2010, aponta o diretor-geral da Guerra, Rodmar Cardinali. Sua referência é com a questão dos financiamentos, que foram obstáculos para o menor faturamento que o estimado em agosto e setembro passados: "Havia pedidos em carteira, mas faltavam recursos para a confirmação da compra." Ele lembrou que as montadoras têm seus bancos próprios para financiar as compras e que as implementadoras dependem de linhas de mercado.
Norberto Fabris, diretor-executivo da Randon, observou que, além deste problema, outras ameaças são o retorno da cobrança normal do IPI sobre os implementos em dezembro e mudanças no Procaminhoneiro ao longo de 2010. Ele acredita que esta conjunção de fatores precisa ser evitada por ações junto ao governo para que a transição seja mais suave e o benefício mantido por mais seis meses.
Cardinali projeta como diferencial nos próximos anos a agregação de valor por meio da introdução de novas tecnologias, que reduzirão o peso dos equipamentos, garantindo maior capacidade de carga ao transportador. Ele observa que, já em 2009, a queda no faturamento da Guerra tende a ser menor do que o volume físico de unidades.
Atividade industrial gaúcha diminui influenciada pela queda das exportações
O Índice de Desempenho Industrial do Rio Grande do Sul (IDI-RS) teve queda de 14% nos primeiros nove meses do ano, na comparação com o mesmo período de 2008. Esse é o maior recuo em 18 anos e o resultado foi influenciado, em especial, pela fraca performance das empresas intensivas em exportação. Para esse grupo, o indicador desacelerou 21%. "O resultado reflete as dificuldades enfrentadas pelos exportadores em um cenário de atividade econômica ainda ruim em importantes países que compram do Rio Grande do Sul", disse o presidente da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), Paulo Tigre. O industrial acrescenta, ainda, que o câmbio valorizado aumenta os custos de produção e prejudica a competitividade do segmento exportador, reduzindo, consequentemente, a receita em reais.
Para Tigre, o setor exportador merece uma atenção especial, principalmente porque o Rio Grande do Sul tem uma forte vocação para o comércio internacional. "Nesse momento, o governo deveria diminuir encargos tributários efetivos sobre as empresas exportadoras, ressarcindo os créditos tributários", salientou.
Em relação ao mês de agosto, o IDI-RS de setembro teve uma elevação de 1,2%, mas quando é comparado com setembro de 2008, o índice demonstra que o setor industrial ainda está longe de recuperar as perdas provocadas pela turbulência internacional. Em relação ao mesmo mês do ano passado, as compras desabaram 27,7%, assim como as horas trabalhadas na produção, que tiveram perdas de 14,3%. A utilização da capacidade instalada e o faturamento recuaram 9,5% e 10%, respectivamente.

Produção nacional sobe 0,8% em setembro, constata IBGE
A produção industrial subiu 0,8% em setembro ante agosto, na série com ajuste sazonal, segundo divulgou ontem o IBGE. O resultado veio dentro do intervalo das expectativas dos analistas, de alta de 0,6% a 2,5%, com mediana de 1,5%. Na comparação com setembro do ano passado, a produção da indústria caiu 7,8%. Neste caso, as estimativas variavam de -8% a -5,6%, com mediana de -6,5%.
No terceiro trimestre de 2009, a produção registrou alta de 4,1% ante o trimestre imediatamente anterior e queda de 8,3% ante o mesmo período de 2008. Até setembro, a produção acumula queda de 11,6% no ano e recuo de 10,3% nos últimos 12 meses. A economista da coordenação de indústria do IBGE Isabella Nunes destacou que os estímulos governamentais e o aumento da confiança dos empresários garantiram uma aceleração no crescimento da produção de bens de capital, em dados ajustados sazonalmente, em setembro e no terceiro trimestre.
A produção de bens de capital registrou em setembro aumento de 5,8% ante agosto, resultado bem acima da média da indústria (0,8%) e a sexta taxa positiva consecutiva ante mês anterior. Isabella observou que o ritmo de crescimento dessa categoria foi bem superior em setembro, já que os resultados ajustados não ultrapassaram 0,7% em agosto ante julho e 1,6% em julho
ante junho.
Segundo Isabella, o crescimento de bens de capital ante mês anterior foi impulsionado, sobretudo, por bens de capital para transporte, influenciados especialmente pela produção de caminhões. De acordo com ela, esse segmento teve efeitos positivos do aumento dos desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) no programa Procaminhoneiro.
Na comparação com iguais períodos do ano passado, porém, a produção de bens de capital continua em queda, ainda que em ritmo menos intenso.