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Notícia da edição impressa de 30/10/2009

Queda dos juros modifica economia

Marcelo Beledeli

"O Brasil possui as maiores taxas de juros do mundo." Durante muitos anos essa frase foi repetida constantemente por analistas, preocupados com os rumos da economia brasileira. Adotados no início do Plano Real, em 1994, como forma de conter a inflação, os juros altos sempre foram apontados, principalmente por empresários, como prejudiciais ao desenvolvimento do País por não favorecerem o aumento do consumo e da produção industrial.

O cenário brasileiro começou a mudar em razão da queda do índice básico de juros da economia, a taxa overnight do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic).

Definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, a taxa Selic, que em dezembro de 2002 era praticada a 25% ao ano, foi constantemente reduzida com o passar dos anos, alcançando o patamar de 8,75% ao ano em julho passado. O valor é o menor da história da Selic desde sua criação, em 1999, e foi mantido por duas reuniões subsequentes do Copom, a última realizada no dia 20 de outubro.

A redução desses índices deve-se à estabilidade cada vez maior da economia nacional, demonstrada pela forma como o País enfrentou a crise financeira mundial, que se iniciou em setembro de 2008. "A crise demonstrou a maturidade econômica brasileira. A inflação caiu. O mundo pode verificar que o Brasil é sólido, não houve necessidade de os investidores saírem do País, não tivemos que comprar dólares e a inflação caiu. Tudo isso fez com que o governo pudesse reduzir as taxas de juros", explica Pedro Ramos, economista da Federação do Comércio do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS).

No entanto, o especialista lembra que, a fim de combater a inflação, a economia brasileira foi preparada durante muito tempo para atuar sob cenários de juros altos. Portanto, a queda das taxas acarreta diversas mudanças no planejamento financeiro de empresas, pessoas físicas e do governo. "Em diversos aspectos nossa economia não está preparada para conviver com essa taxa de juros tão baixa, e teremos que nos adequar institucionalmente a essa novidade", aponta Ramos.

O processo a que Ramos se refere é, de certa forma, parecido com o que o país viveu na década de 1990. A economia brasileira havia se "acostumado" à inflação alta e, com a estabilização, empresas e pessoas físicas tiveram que se adaptar ao novo cenário. Agora é a vez da adaptação aos juros baixos. O exemplo mais evidente está na queda de alguns rendimentos: quem se acostumou aos ganhos "fáceis" dos fundos atrelados à Selic já percebe a diferença. O governo estuda, inclusive, reduzir a rentabilidade da poupança para acompanhar a queda nos ganhos oferecidos por esses fundos.

Os bancos, segundo os analistas, também terão de se adaptar. As altas taxas sempre foram consideradas um empecilho para a circulação do dinheiro dos bancos na economia através de empréstimos para agentes privados. Em 2003, um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a afirmar que, no Brasil, "o papel tradicional dos bancos de intermediar a atividade financeira ao coletar depósitos e distribuir créditos não predomina". Com uma Selic menor, os títulos do governo passam a render menos. E os bancos, principais compradores desses papéis, tendem também a procurar operações mais rentáveis.

A perda dos lucros com títulos governamentais é compensada pelo crescimento do número de clientes. Com os juros baixos, mais pessoas e empresas tendem a pegar dinheiro emprestado. Esse processo já está ocorrendo. Desde 2003, o nível de participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB), que era em torno de 20%, já evolui para 45%.

"As taxas de juros mais baixas também contribuem para isso, os bancos já não ganham dinheiro apenas investindo em títulos públicos do governo, mas se forçam a emprestar mais recursos para empresas e pessoas físicas a fim de obter lucro", informa Denílson Alencastro, analista econômico da gestora de recursos Asset Geral.

Governo ganha condições de aumentar investimentos

Para o governo, a nova condição econômica gera perdas e ganhos. Embora seus papéis deixem de ser tão atraentes, ao ter de pagar menos juros, sua dívida cai. "A queda das taxas tem ajudado o poder público a cumprir seus compromissos", aponta Alfredo Meneghetti, economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE).

Estima-se que cada ponto percentual de redução da Selic (se mantida por um ano) significa uma economia de até US$ 15 bilhões na dívida pública. "Considerando que cerca de 35% da dívida pública brasileira é indexada à taxa Selic, logo sua redução significa um menor custo de rolagem dos débitos, resultando, assim, em um menor esforço de ajuste fiscal", complementa Fernando Ferrari, professor da faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Ao reduzir a despesa financeira, o governo consegue deixar mais recursos no tesouro para gastar ou gerar um superávit fiscal maior, o que poderia levar à redução ainda maior dos juros. "Quanto menos o governo precisa se endividar, menos precisa colocar juros altos para esses recursos", lembra Gilson Schwartz, professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

Embora teoricamente a melhor situação das finanças governamentais pudesse gerar diminuição de impostos, os contribuintes não deverão ser beneficiados. "Na prática, a gente sabe que o governo gosta de gastar, não de reduzir impostos", aponta Schwartz. No entanto, ele lembra que essa condição não é necessariamente má, devido aos grandes investimentos que o poder público ainda precisa fazer em diversas áreas. "Somos um País onde o governo ainda tem muito o que gastar em educação, saúde, saneamento e outras necessidades. Por isso, embora a redução de impostos não seja uma prioridade governamental, o gasto público incentivado por esses recursos a mais em caixa são benéficos", informa.

Empresas ganham mais condições de investir em produtividade

A maior oferta de crédito por parte das instituições bancárias resulta em uma chance para as empresas investirem no aumento de sua produção, fazendo com que a lucratividade no sistema financeiro seja revertida para a atividade econômica real. Além disso, com juros menores, as empresas pagam menos pelos financiamentos junto aos bancos, o que diminui as dívidas e abre espaço para novos investimentos.

De acordo com Pedro Ramos, muitos investidores que estavam acostumados a aplicar seu dinheiro em operações de baixo risco, como a renda fixa, não se dispõem a aplicar recursos no mercado acionário mesmo que esteja em alta, especialmente os acostumados com renda fixa ou outros investimentos com menos riscos. "O entendimento deles é que, se for para tomar riscos, melhor apostar na própria empresa que no mercado de ações", explica.

O economista alerta que essa tendência deverá se verificar tanto para pequenas quanto grandes empresas. Para os empresários que possuem recursos disponíveis para aplicar na produção, esse investimento deverá gerar mais lucros do que deixar o rendimento parado no banco. "Já quem possui uma atividade lucrativa até determinado ponto, para a qual, com as taxas altas, não era vantajoso buscar recursos no mercado, hoje pode obter as quantias necessárias que, mesmo pagando juros consegue se viabilizar", aponta.

Entretanto, muitos empresários ainda são cautelosos em relação à possibilidade de fazer investimentos maiores em sua capacidade de produção. "No Brasil, muitas empresas ainda preferem arriscar no mercado acionário do que investir comprando equipamentos", afirma Gilson Schwartz. Segundo o professor, o que o empreendedor nacional espera é uma clara noção de que a demanda por seus produtos irá aumentar devido às possibilidades de crédito fácil gerada pelos juros baixos. "Se não houver demanda, as máquinas e prédios no qual foram aplicados recursos ficam parados, e é mais difícil se desfazer disso do que de um papel na bolsa", lembra.

Compras a prazo ainda não são vantajosas, alertam especialistas

De acordo com alguns economistas, a facilidade de financiamento trazida com os juros baixos será um incentivo para o aumento do consumo, expandindo a demanda para o setor industrial. Entretanto, a redução das taxas ainda não é considerada vantajosa suficientemente para justificar a troca da compra à vista pelas aquisições a prazo. "Os consumidores têm que se dar conta de que é preciso continuar a controlar os gastos, pois embora as taxas tenham baixado, elas ainda estão entre as mais altas do mundo", alerta Alfredo Meneghetti.

Segundo dados da consultoria UpTrend, o Brasil é o quarto país com os maiores juros nominais, atrás da Venezuela (18,13%), Argentina (11,15%) e Rússia (10%). Nesse cenário, medidas como tomar empréstimos bancários, utilizar o cheque especial e comprar bens duráveis a prazo ainda são desaconselháveis. "Para quem puder, ainda vale a pena buscar descontos à vista", afirma Denílson Alencastro.
Para Gilson Schwartz, os brasileiros possuem um hábito de consumo imediatista, que faz com que as pessoas prefiram pagar juros a economizar. "Com juro baixo, há muitas pessoas que acham que passa a valer mais a pena se endividar, porque pensam que a prestação cabe no salário, ao invés de, por exemplo, depositar na poupança para comprar mais tarde à vista, por um preço menor", analisa o professor.

A poupança é justamente um dos investimentos que mais ganhou atrativos com os juros baixos. Uma de suas vantagens é que não há cobrança de Imposto de Renda (IR) nem de taxa de administração, como ocorre nos fundos de investimento, por exemplo. A taxa de administração tem um custo que oscila normalmente entre 1% e 4% ao ano. E como a queda dos juros diminui o rendimentos dos fundos, fica mais vantajoso investir na poupança.

Isso tem preocupado o governo, que teme que grandes investidores tirem dinheiro da renda fixa, por exemplo, e passem para a poupança, reduzindo o volume de financiamento no País. Há vários meses, estão sendo estudadas propostas para diminuir sua rentabilidade. "Isso foi adiado por razões políticas, mas um ajuste é inevitável, especialmente para quem tem volumes muito altos investidos na poupança", alerta Schwartz.

Setor industrial defende reduções maiores

Apesar das reduções dos juros já implantadas, grande parte dos empresários, especialmente do setor industrial, acreditam que é necessário quedas ainda maiores. Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, ainda há espaço para redução da Selic. "A inflação esperada para 2010 é de 4,3%, portanto, abaixo da meta. Além disso, neste momento, a maioria dos países pratica taxa de juros básicas reais próximas a zero", disse. A opinião é compartilhada por Armando Monteiro Neto, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O dirigente acredita que a decisão tomada pelo Copom de manter a taxa de juros em 8,75% ao ano não se justifica, pois a inflação está controlada e o crédito à pessoa jurídica ainda está comprometido. "Essa situação requer novo corte nos juros", apontou.

No entanto, especialistas avaliam que, em 2010, as taxas de juros básicas deverão sofrer acréscimos. A causa é a própria aceleração da economia originada, em parte, por sua redução anterior. Com as condições vantajosas de financiamento estimulando o consumo, mas sem uma elevação de produção que atenda a essa demanda maior, a tendência é de inflação. Para combater isso, os juros deverão ser aumentados. "Quando há expansão rápida da economia há inflação, e isso deverá fazer com que as taxas cresçam no próximo ano", acredita Pedro Ramos. Essa elevação não deverá ser muito grande. Para o economista, o valor da Selic deverá chegar a um máximo de 10,5% ao ano em dezembro de 2010, operando com uma taxa média de 9,75% ao longo do próximo ano.

Para o professor Gilson Schwartz, a fim de evitar taxas de juros maiores devido à pressão de consumo uma solução seria expandir as exportações. Entretanto, essa solução não é bem vista pelo mercado. "Gastar reservas internacionais num momento em que o cenário é ainda incerto é um mau sinal. Então o Banco Central deve favorecer um leve crescimento da taxa de juros para o ano que vem", explica.

Se no curto prazo as taxas tendem a subir, a tendência para a próxima década é de que se mantenham em patamares mais baixos. "À medida que nossa economia se equilibra, um processo que ocorre desde 1994, os juros vêm ficando mais baixos. Esse efeito de elevações e reduções deve se manter até atingirmos uma estabilidade mais duradoura, que forçará o uso de taxas reduzidas", conclui Denílson Alencastro.


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